quinta-feira, 17 de abril de 2014

O lado bom da história do Brasil

A gravadora Elenco e a Bossa Nova

Um bom assunto, boas lembranças e um bom texto publicado num bom jornal – o Valor.

Leiam e deleitem-se…

O sofisticado fetiche da Elenco

Por Luciano Buarque de Holanda | Para o Valor – 17/04/2014

Hoje a ideia parece absurda, mas a gravadora Elenco, detentora de tantos LPs icônicos, foi um peixe pequeno em seus anos de atividade (1963-1968).
Fundada pelo produtor Aloysio de Oliveira (1914 - 1995), o selo não tinha parceria com nenhuma multinacional. Por isso, trabalhava com tiragens irrisórias (2 mil cópias, no máximo) e pequenas margens de lucro. A distribuição era centrada no Rio, pois não havia estrutura para ir mais longe.

Mas a pequena clientela era fiel. Especializada em bossa nova e variações, a Elenco tornou-se sinônimo de alta qualidade, uma grife identificada pelo padrão de suas capas, objeto de fetiche para os consumidores.
Eram capas minimalistas, nas quais o branco predominava sobre fotografias P&B de alto contraste e sutis detalhes em vermelho. Quase todas foram assinadas pela dupla César Villela (designer) e Chico Pereira (fotógrafo).

No fim dos anos 1960, a bossa começou a perder espaço. Oliveira percebeu que sua empreitada estava com os dias contados e, então, vendeu o catálogo da Elenco para a Philips. Ao longo das décadas, os principais títulos foram reeditados em diferentes formatos.

Os vinis são relíquias disputadas a preços exorbitantes nos sebos. Isso começa a mudar com o box "Elenco", que encaixota cinco "bolachões" históricos da gravadora: "Vinicius & Odette Lara" (1963), "Nara" (1964), "Caymmi Visita Tom" (1965), "Vinicius/Caymmi no Zum Zum" (1965) e "Bossa Nova York" (1967).
"Vinicius & Odette Lara" traz clássicos como "Berimbau", "Samba da Bênção", "O Astronauta" e "Deixa", parcerias entre Vinicius de Moraes e Baden Powell. A atriz Odette Lara fazia os vocais, enquanto os arranjos ficaram a cargo do maestro Moacir Santos. Foi o LP que inaugurou a Elenco.

"Nara" é o título mais conhecido e emblemático da caixa.
Trata-se da tardia estreia em disco de Nara Leão, que viu a bossa nova nascer em seu apartamento e era uma espécie de musa do movimento. O álbum, porém, já apontava para certa ruptura com o gênero.

Cansada da imagem de moça frágil e cada vez mais engajada com a esquerda, Nara incluiu faixas de acento social, como "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas" (Carlos Lyra/Vinicius) e "Canção da Terra" (Edu Lobo/Ruy Guerra), além de sambas que falavam a linguagem dos morros - de Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti. Moacir Santos também fez os arranjos.
Trazendo temas como "Inútil Passagem", "Saudade da Bahia" e "Canção da Noiva", o autoexplicativo "Caymmi Visita Tom" reúne a família Caymmi. Além dos filhos Dori (violão), Nana (voz) e Danilo (flauta), Dorival levou ao estúdio até a mulher, Stella. O baiano reaparece no "box" em "Vinicius/Caymmi no Zum Zum".

Com colaboração do Quarteto em Cy e do Conjunto Oscar Castro Neves, o disco é o registro de um show que ficou mais de um ano em cartaz no bar Zum Zum. Não se trata de álbum ao vivo - como o som da casa não era propício para gravações profissionais, Oliveira sugeriu que a dupla Vinicius/Caymmi reproduzisse a apresentação em estúdio. "Berimbau", "Formosa" e "História de Pescadores" figuram no LP.

"Bossa Nova York" é o primeiro trabalho de Sérgio Mendes em solo americano. Se os créditos incluíssem apenas o trio do compositor em canjas com as lendas do jazz Art Farmer ("flugelhorn"), Phil Woods (sax alto) e Hubert Laws (flauta), o disco já seria essencial.

Mas a cereja do bolo é Tom Jobim,
que toca violão em sete faixas - como "Pau Brasil" e "Garota de Ipanema".
Este "box" é o primeiro de uma coleção
que promete resgatar parte do catálogo da Elenco.

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