segunda-feira, 3 de março de 2014

Ucrânia, Brasil e a liberdade de informação

Nossa imprensa informa pouco

Mesmo sendo carnaval no Brasil, o mundo está pegando fogo e nossa imprensa, ou repete as notícias distribuídas pelas agencias americanas, ou reproduz as entrevistas dos governantes americanos, ou ainda faz resumos que não explicam quase nada. Lamentável.

O jornal DER SPIEGEL dá uma aula de jornalismo.

Alguém precisa escrever um artigo deste sobre os negócios, lícitos e ilícitos, entre os políticos, a imprensa, a justiça e os empresários brasileiros. Esta liberdade de informação que a Alemanha cultiva com tanta qualidade ainda não chegou ao Brasil.

Como tudo tem exceção, o Estadão, apesar de sua crise, ainda mantém a tradição de ter boa cobertura internacional, leiam este brilhante artigo publicado originalmente no jornal alemão DER SPIEGEL, e reproduzido no Estadão de hoje.

O poder dos bilionários da Ucrânia

Ação da dupla de magnatas que comanda o país
explica os interesses e a dinâmica da política ucraniana

03 de março de 2014 | 2h 03
CHRISTIAN, NEEF, DER SPIEGEL - O Estado de S.Paulo

Enquanto governistas e manifestantes se enfrentavam na Praça Maidan, o restante de Kiev permanecia num silêncio fantasmagórico. O metrô estava fechado, assim como lojas, restaurantes e bancos. Somente as ambulâncias aceleravam pelas ruas. Diante do Hotel Radisson, o chanceler polonês, Radoslaw Sikorski, embarcou num carro para uma reunião com o presidente ucraniano deposto, Viktor Yanukovich, acompanhado de seus colegas Frank-Walter Steinmeier, da Alemanha, e Laurent Fabius, da França.

Enquanto isso, os parlamentares começaram a debater uma solução para a crise - ao mesmo tempo em que outros jogavam mais combustível no fogo. Mas, àquela altura, já estava claro que uma solução para a crise não surgiria a partir da Praça Maidan, nem de Moscou, Washington, Berlim ou Bruxelas.

Em vez disso, a solução teria de vir do Parlamento - juntamente com aqueles que defendiam o presidente. A oposição se viu diante da perspectiva de conquistá-los para estabelecer uma maioria e teve de chegar a um entendimento com os dois homens que controlavam metade do partido de Yanukovich: Rinat Akhmetov e Dmitry Firtash, os dois oligarcas mais influentes do país.

"Os dois sabiam que, se Yanukovich caísse, eles seriam os maiores perdedores. Por isso, fizeram de tudo para evitar a solução radical buscada pelos manifestantes na Praça Maidan", diz Vadim Karasev. Ele foi conselheiro de Viktor Yushchenko, que subiu ao poder após a Revolução Laranja de 2004. Atualmente, Karasev lidera um dos centros de estudos estratégicos mais importantes da Ucrânia.

Nossa reunião com ele ocorreu num café vazio no Premier Palace Hotel, bem diante de onde ficava o monumento a Lenin em Kiev, derrubado por nacionalistas radicais em dezembro. "Se Yanukovich tivesse tentado solucionar a crise por meio da violência, ele teria perdido, mas os oligarcas também teriam sido derrotados", disse Karasev.

"Tymoshenko o teria substituído imediatamente e testemunharíamos uma repetição daquilo que ocorreu após a Revolução Laranja: a desapropriação dos ricos. No entanto, toda a política da Ucrânia depende deles. Aqueles que se tornaram ricos graças a Yanukovich querem garantias de que manterão suas posses."

Influência.
Akhmetov e Firtash. Esses dois nomes vieram à tona repetidamente em Kiev nas últimas semanas. Contudo, eles tomaram o cuidado de se manter fora dos holofotes, recusando os pedidos de entrevista. Foi dito que os dois estariam em Londres. Ainda assim, ambos estiveram ocupados mexendo seus pauzinhos nas semanas mais recentes.

Akhmetov é o mais importante dos dois. Aos 47 anos, ele é dono de uma fortuna de US$ 15 bilhões e comanda a empresa System Capital Management, que controla mais de 100 companhias com cerca de 300 mil funcionários. Entre elas, fábricas metalúrgicas e de tubulação, bancos, imobiliárias, empreendimentos de telefonia celular e uma grande empresa de mídia.

Ele é o governante de fato de Donbass, região que abriga a indústria pesada ucraniana, e é dono do time de futebol Shakhtar Donetsk. Além disso, está entre os líderes do Partido das Regiões, de Yanukovich.

O outro oligarca, Dmitry Firtash, de 47 anos, magnata do gás natural.
Em 2004, seus negócios foram ameaçados pela Revolução Laranja: um acordo suspeito entre Tymoshenko e o então premiê russo, Vladimir Putin, arruinou o empreendimento de Firtash. Ele e Yulia se tornaram inimigos. Quando Yanukovich subiu ao poder, Firtash foi beneficiado.

Ele expandiu seu império e, hoje, com seu conglomerado de mídia, o Inter Media Group, controla vários canais de TV.
É claro que há diferenças entre Akhmetov e Firtash. Para começar, a fortuna de Firtash não chega a um bilhão de dólares, enquanto Akhmetov é de uma riqueza monumental. Além disso, ele trabalha diretamente com parceiros na Rússia, enquanto o império de negócios de Akhmetov é mais voltado para a Europa. Os dois, porém, dividiram a arena política entre si e controlam o panorama político do país como se esse fosse uma parceria comercial.

As posições-chave, seja nos ministérios ou no Parlamento, são todas ocupadas por seus aliados. O ministro da Economia de Yanukovich, por exemplo, veio da equipe de Akhmetov, enquanto o vice-primeiro-ministro, encarregado das questões ligadas ao gás natural, respondia a Firtash. Trata-se de um casamento de pura conveniência, sem amor, mas que se manteve por anos.

Controle.
Na mais recente eleição parlamentar, Akhmetov preencheu aproximadamente 60 assentos da lista do Partido das Regiões, enquanto Firtash escolheu 30.

É assim que se faz política na Ucrânia:
se Putin conseguiu tirar o poder dos oligarcas na Rússia,
eles ainda controlam a Ucrânia.

Muito antes da crise atual, a dupla chegou à conclusão de que Yanukovich não permaneceria em cena por muito tempo. Cuidadosamente, começaram a procurar alternativas. Akhmetov, por exemplo, sempre teve boas relações com Yulia, diferentemente de Firtash, e começou a apoiar Arseniy Yatsenyuk, que assumiu a liderança da aliança criada por ela, quando a ex-premiê foi encarcerada. Firtash, de sua parte, passou a apoiar o partido Aliança Democrática Ucraniana por Reformas (Udar), do ex-boxeador Vitali Klitschko.

"Na realidade, Firtash logo colocou aliados no Udar, de Klitschko, entre eles um ex-diretor do serviço secreto, por exemplo", disse Vadim Karasev. "Firtash estava em busca de uma alternativa, caso Yulia fosse libertada e reivindicasse o direito à presidência. Seria vantajoso ter Klitschko já instalado na presidência, como fantoche de Firtash."
Foi assim que Akhmetov e Firtash reuniram opções para um possível futuro sem Yanukovich. Quando os protestos eclodiram na Praça Maidan, em novembro, e os dois oligarcas viram o quanto a reação de Yanukovich foi obstinada, eles começaram a se distanciar. Ficou claro que, na pior das hipóteses, com a imposição de sanções à Ucrânia, seus empreendimentos seriam os primeiros a serem afetados.

Akhmetov deixou claro que era favorável a negociações entre governo e oposição. Firtash também fez um rápido apelo por uma solução pacífica, enfatizando que os cidadãos em ambos os lados das barricadas eram ucranianos.

Os conflitos alteraram o equilíbrio.

Após as mortes de manifestantes, as emissoras de Akhmetov e de Firtash mudaram sua cobertura: subitamente, os dois canais, Ukraina e Inter, passaram a exibir reportagens objetivas a respeito da oposição. A mensagem dos oligarcas foi clara: vamos permitir a queda de Yanukovich.

Queda.
No Parlamento, o clima também mudou subitamente: todos começaram a buscar um acordo de concessões mútuas. No dia 20, o significado disso ficou claro: a formação de uma ampla coalizão, a restauração da Constituição anterior, uma redução dos poderes presidenciais e uma eleição antecipada para a presidência.

O dia seguinte foi de comemoração, com o céu claro e azul. Ainda havia disparos esporádicos, mas, na Praça Maidan, era difícil acreditar que, dias antes, pessoas tinham morrido baleadas bem ali. Pouco depois do almoço, Yanukovich falou ao povo como se ainda estivesse no controle da situação. Declarou que "daria início" a novas eleições, à reforma constitucional e à formação de um novo governo com o apoio nacional.

Então, os acontecimentos começaram a se acelerar. Naquele dia à noite, o Parlamento recuperou seus antigos poderes, destituiu o detestado ministro do interior e, finalmente, o próprio Yanukovich, facilitando o caminho para a libertação de Yulia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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