sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Joan Baez e a Solidariedade

Com música e lembranças

Depois de um dia muito quente e cheio de atividades interessantes, uma boa lembrança: Joan Baez e suas músicas cheias de esperanças...

Joan Baez fala da carreira e dos shows que fará no Brasil

Musa da canção de protesto nos anos 1960, artista quer encontrar o senador Suplicy

30 de janeiro de 2014 | 18h 55
Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

Aos 73 anos, desembarca enfim no País para uma turnê regular uma das mais famosas vozes da música de protesto dos anos 1960 e 1970, a cantora norte-americana Joan Baez, responsável, entre outras coisas, por revelar em 1963 o cantor Bob Dylan. Ela cantou no primeiro Newport Festival e também foi uma das figuras-chave de Woodstock.

Nascida Joan Chandos Báez em Staten Island, Nova York, em 9 de janeiro de 1941, ela sofreu preconceito na infância por causa da pele mais escura, decorrência da sua herança mexicana. Por outro lado, a formação religiosa quaker da família a impulsionou a uma militância humanista radical.

Joan traz a turnê Gracias a La Vida a São Paulo no dia 23 de março, às 18 h, no Teatro Bradesco (ela toca também no dia 19 de março em Porto Alegre, no Auditório Araújo Vianna, às 21 h; e no Rio de Janeiro no dia 21, no Teatro Bradesco Rio, às 21 h). Antes, Joan Baez faz um retorno triunfal à América Latina que, no auge de suas ditaduras, a expulsou daqui: canta na Argentina, no Uruguai e no Chile.

A cantora falou ao Estado por telefone, no final da tarde de ontem. Está relançando o álbum Gracias a La Vida, no qual canta em espanhol e que gravou em 1974 em homenagem às vítimas da ditadura de Pinochet, no Chile, e em tributo a Violeta Parra. Bem-humorada e simpática, só demonstrou mesmo um certo desagrado quando foi questionada sobre a relação com Bob Dylan.

Há 33 anos, você deveria ter tocado em São Paulo, no Tuca.
O que aconteceu?

Foi exatamente isso o que eu perguntei a todos os que foram na coletiva de imprensa que eu dei aí em São Paulo: o que aconteceu? Tudo o que eu queria era que me deixassem cantar, que me deixassem levar minha mensagem.

É verdade que três agentes da Polícia Federal foram até o seu hotel para ameaçá-la?
Sim. Eles me disseram que eu não poderia cantar e que, se insistisse, seria presa. Era algo que já tinha acontecido com outros músicos e não havia a quem recorrer. No final, o que nós fizemos foi legal. Alguém aí de São Paulo, me desculpe se não lembro o nome, inventou de fazer um ato no qual eu me misturava com a plateia. Acabei cantando duas canções no meio, estava sem o violão mas cantei assim mesmo.

É verdade que aqui você se tornou muito amiga de um militante brasileiro chamado Eduardo Suplicy?
Sim, é verdade. Ele está por aí? Como faço para conseguir o contato dele? Tem como você dizer para ele se colocar em contato com meus agentes quando eu estiver aí? Quero muito vê-lo.

Você teve também um confronto muito forte com a ditadura chilena naquela época, não?
Eu estava fazendo o que todos os americanos com consciência política estavam fazendo, me solidarizando com os povos sob ditaduras aqui, na Argentina, no Brasil e no Chile. Também fui proibida de atuar no Chile e fiz uma apresentação clandestina numa igreja (no município de Ñuñoa), acompanhada por outros músicos.

Li uma entrevista sua à imprensa chilena em que você diz que Obama deveria pedir desculpas pelo que os Estados Unidos fizeram na América Latina nos anos 1970, apoiando ditaduras e derrubando governos legítimos.
Não, eu não disse isso. Além do mais, ele não está envolvido com o que aconteceu naquela época. Eu acho que os que estiveram envolvidos deveriam pedir desculpas.

Mas você afirmou que o Prêmio Nobel para Obama foi ridículo, não afirmou?
Eu diria que foi usurpado. Obama mudou de fato o mundo inteiro, momentaneamente. Havia 40 anos que o povo americano lutava pela eleição de um homem negro, e ele representou isso. O que quer que tenha causado aquela mágica extraordinária não pode ter sido ruim. Ele nos conectou, foi importante sua eleição. E eu o apoiei, como apoiei o dr. Martin Luther King. Mas acho que ele deveria continuar fazendo mudanças, e ele estancou.

Há hoje uma discussão sobre a desaparição dos conceitos de esquerda e direita. Você se considera ainda uma esquerdista?
Eu nunca me defini assim. Sempre fui militante. Quando eu optei pelo caminho da não violência e da igualdade, muitas das causas nas quais eu me engajava eram identificadas com a esquerda. Quando você se põe contra o totalitarismo, pode ser rotulado. Eu apoiei Lech Walesa na Polônia, mas toda a minha militância tem a ver com a noção de igualdade.

Qual você acha que é o papel de Edward Snowden na política contemporânea?
Acho que ele proporcionou um dos momentos mais importantes da atual luta da humanidade por transparência, pela liberdade. Está em risco, mas acho que nunca nada aconteceu no mundo sem que alguém corresse um risco.

Um dos artistas que mais correram riscos na música americana foi Pete Seeger, que morreu esta semana. Em que medida ele foi influente para você?
Ele foi minha primeira e mais importante influência. Quando eu tinha 16 anos, uma tia minha me levou para assistir a um show dele, e aquilo mudou minha vida para sempre. Ele vivia a vida incondicionalmente. Era um grande poeta, e não distinguia sua vida e sua arte. Não é possível descrever todas as coisas que ele fez em prol de um mundo melhor. Quando ele surgiu, a música branca que se fazia então era tola e descartável.

Será possível que você cante aqui em São Paulo a canção Where Have All the Flowers Gone?, composição de Seeger que você costumava cantar?
Não sei. Você sabe se essa música é conhecida por aí? Pode ser que sim.

Seu disco mais recente, The Day After Tomorrow, é de 2008. Já tem seis anos. Está planejando gravar algo novo?
Estamos relançando um disco no qual eu canto em espanhol, e também queria cantar em português. Mas não quero condicionar uma turnê a uma gravação. Não funciona assim.

Você ainda mantém contato com Bob Dylan?
Não. Desculpe, tenho outras entrevistas para fazer, pode ser essa a sua última questão?

Nenhum comentário:

Postar um comentário