quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ditaduras, nunca mais?

O jovem e o velho Clovis Rossi

Sempre gostei de Clovis Rossi. Tanto quando era jovem, depois maduro e agora já velho, tanto na idade como na política. Eu também já estou velho e não tenho mais a mesma verve que eu tinha quando jovem.

O tempo marca a nossa vida...

Mas eu resolvi reproduzir o artigo de Clovis Rossi sobre a Ditadura Militar brasileira que vai completar 50 anos do golpe de 64 e que teve amplo apoio da imprensa na época, porque, apesar dos 50 anos passados, a imprensa brasileira mudou de nome,  mas não mudou a linha política.

A imprensa continua reacionária, conservadora, manipuladora e porta-voz de uma elite preconceituosa. Mas, Clovis Rossi não diz nada sobre isto. Não era objeto do artigo. Compreendo e respeito, afinal, ele tem um bom espaço na Folha, jornal que, apoiou a ditadura, depois nos trouxe muitas alegrias e hoje, majoritariamente, só nos trás tristezas... E algumas alegrias, como o artigo de Rossi.

Aproveito também para lembrar ao grande jornalista e brasileiro que, na História, “NUNCA MAIS” não existe. Ainda mais quando estamos na América Latina, pertinho dos Estados Unidos e num país que a base da economia continua sendo as ”commodities”...

Mas, eu vou morrer lendo e gostando de Clovis Rossi. Feliz Ano Velho!

Trevas, nunca mais
Clovis Rossi – Folha
02/01/2014

Passei a noite de 31 de março de 1964 para 1º de abril pulando, no DKW azul de meu pai, da sede do governo paulista, então no Palácio dos Campos Elíseos, para o QG do Exército, à época na rua Conselheiro Crispiniano, no centrão, cobrindo para o jornal carioca "Correio da Manhã" o que mal sabia que viria a ser o golpe que faz 50 anos logo mais.

Após 50 anos, só um fanático negaria o quanto o país mudou para melhor em termos institucionais, por muito que falte para chegar a ser plenamente civilizado.

Para a grande maioria dos brasileiros, que não viveu aquela madrugada nem as trevas densas que a ela se seguiram, é difícil compreender o avanço que é os jornalistas já não precisarmos mais fazer plantão às portas dos quartéis. Ou ser obrigado a decodificar o Almanaque do Exército para tentar entender se a promoção a general de fulano ou beltrano podia significar mais fechamento ou alguma abertura.

Por falar em "Correio da Manhã", meu primeiro emprego, acabou sufocado pela ditadura, mesmo tendo publicado dois dos três editoriais mais notórios de todos os tempos ("Basta" e "Fora"), cobrando a deposição do presidente João Goulart.

Depois se arrependeu e passou a ser crítico do novo regime, o que levou a uma implacável perseguição, incluída forte pressão sobre os anunciantes, até quebrar.

Um caso como esse, apenas uma entre as milhares de arbitrariedades e violências praticadas no período 1964/1985, torna até risível, hoje, achar que os governos do PT pretendem acabar com a liberdade de imprensa. Que gostariam de ter uma mídia domesticada, gostariam, como todos os governos, de qualquer signo.

Mas, na democracia, não dá para fazer o que a ditadura pôde fazer com o "Correio da Manhã".

Na democracia, quem quer grita "onde está Amarildo" –e os policiais responsáveis por seu desaparecimento acabam descobertos e punidos. Na ditadura, milhares de gritos similares foram silenciados e, mesmo depois de encerrado o ciclo, ainda não se chegou à verdade, do que dá prova a existências das "Comissões da Verdade".

O golpe que faz 50 anos em 2014 inaugurou um ciclo nefando na América Latina. Primeiro, caiu a Argentina (1966, com uma recaída 10 anos depois), depois o Uruguai, o Chile –até que todos os países sul-americanos e a maioria dos latino-americanos se transformassem em ditaduras, exceção feita a Venezuela, Colômbia, México e Costa Rica.

Cinquenta anos depois, caiu na rotina a realização de eleições presidenciais. Serão sete só este ano (El Salvador, Costa Rica, Colômbia, Panamá, Bolívia, Uruguai e o próprio Brasil).
No Brasil, aliás, será a sétima consecutiva, santa rotina que marca um recorde, como lembrou ontem Fernando Rodrigues.

É tal a rotina que posso ter a certeza de que jamais voltarei a fazer plantão à porta dos quartéis, mas nem por isso dá para esquecer que levou 35 anos para que um presidente legitimamente eleito passasse a faixa para outro presidente eleito nas mesmas condições.


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