sábado, 11 de janeiro de 2014

Amor, Ódio e Medo em 1964 e 2014

O Golpe não foi só dos militares

Neste ano, a Imprensa vai tentar convencer o Brasil de que o golpe de 1º. de Abril de 1964 foi obra somente dos militares. Vai tentar inocentar a própria imprensa, os empresários, os fazendeiros, os Estados Unidos e também a Igreja Católica.

Mas, o ano de 1964, além do ódio estimulado pelos atores acima, teve também muita cultura, muita música, cinema e teatro. Teve muito amor e esperança. Imaginem que foi o ano do lançamento do primeiro disco de Nara Leão?

Mas o ano de 1964 também teve muito medo. Medo da incerteza, medo do comunismo, medo da guerra, medo da inflação, medo da corrupção, medo da falta de segurança. Não parece 2014?

Mas é assim que funciona...

O golpe nunca é a primeira opção. A primeira são as eleições, quando não dão certo, procuram-se os juízes para fazerem papel de “leão de chácara” ou “capitão do mato”, depois são os boicotes nos investimentos, na produção industrial, na construção civil e o aumento das taxas de juros. Quando tudo isto não dá certo, procuram-se os militares.

Também não parece com 2014? 
Estão faltando apenas os militares...

Mas, como Ruy Castro falou mais de música, teatro e cinema do que da imprensa, dos juízes, dos empresários que financiam Operações Militares e boicotam a economia, e da Igreja Católica, vou reproduzir o bom texto de Ruy Castro.

Como diz Jesus, na escultura de Aleijadinho em Congonhas, Minas Gerais: Precisamos Orar e Vigiar, sempre...

Afinal, o amor, o ódio e o medo estão sempre presentes, 
variando  apenas de intensidade em cada momento...

Ruy Castro com a palavra:
Antes do 1º de abril
Ruy Castro – Folha - 11/01/2014
RIO DE JANEIRO - A menos de três meses do dia 1° de abril, vem por aí uma chuva de eventos pelos 50 anos do golpe civil-militar de 1964 --livros, séries de reportagens na imprensa, programas de TV, exposições, debates, palestras, shows. 

Mas, por mais agitado que seja o trimestre, dificilmente se comparará ao que fervilhava nesse exato período em 1964, em que o intenso zum-zum-zum cultural do Rio disputava com o crescente e sinistro rumor de sabres.

No teatro estavam em cartaz, ao mesmo tempo, Fernanda Montenegro (com "Mary, Mary", de Jean Kerr), Maria Della Costa (com "Gimba", de Guarnieri) e Bibi Ferreira (com "Minha Querida Lady", de Alan Jay Lerner). No cinema, estreavam "Ganga Zumba", de Cacá Diegues, "Os Fuzis", de Ruy Guerra, e --em primeira exibição numa sessão no Vitória, no dia 13 de março, a poucos quilômetros do megacomício daquela noite na Central do Brasil--, "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha.

Dois discos que ficariam para sempre saíram naqueles dias: "Getz/Gilberto", de Stan Getz e João Gilberto, contendo o "Garota de Ipanema" que tomaria o mundo na voz centimétrica de Astrud, e "Nara", o primeiro LP de Nara Leão, contendo "Diz Que Fui Por Aí", de Zé Kéti, e a profética "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Lyra e Vinicius. Anibal Machado e Ary Barroso tinham acabado de morrer; Brigitte Bardot logo iria chegar.

Nas livrarias, os novos romances de Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.", Carlos Heitor Cony, "Antes, o Verão", e Campos de Carvalho, "O Púcaro Búlgaro". Nas bancas, o último número da revista "Senhor" (fechara em janeiro) e o primeiro de "Pif-Paf", a revista de Millôr Fernandes (nasceria em março). A praia era no Castelinho, em frente ao botequim Mau Cheiro, e fazia sol todos os dias.

Mas, nos dias 31 de março e 1º de abril, iria chover.



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