sábado, 14 de dezembro de 2013

Antonio Cândido, Florestan Fernandes e as Cartas

Mudaram as formas, mas a importância continua

Leio quase tudo que aparece sobre Antonio Candido e Fernanda Montenegro. Por coincidência os dois já estão com idade avançada. Mas eles lembram um Brasil digno, um Brasil onde o respeito sempre foi muito importante.

Ontem, sexta-feira, vi no caderno de Fim de Semana, do jornal Valor, que o tema principal era a importância das Cartas e do Correio. Achei o tema muito interessante e dei uma folheada, encontrei cartas e notícias da amizade entre Florestan Fernandes e Antonio Cândido. Trouxe o jornal para ler no final de semana e achei também a matéria on line.

Leiam uma carta de Florestan para Antonio Cândido, escrita em 1942, e depois leiam a entrevista do professor Antonio Cândido. Coisas maravilhosas do nosso Brasil e que um bom jornal possibilita a seus leitores.

“São Paulo, 4 de fevereiro de 1942.

Meu caro Antonio Cândido:

Perdoe-me a intrometida intimidade, pois não nos conhecemos pessoalmente. Entretanto, ela se justifica por dois motivos: primeiro porque representamos a nova geração. Estamos no mesmo plano, dentro do tempo, apesar de você, neste caso, ser uma espécie de irmão mais velho. Ao representarmos ao novo espírito de trabalho, encaramos tudo sob novos aspectos, mais objetiva e humanamente. Segundo, porque encarna um processo admirável e justo de crítica, que eu defendo e lamentava já não existir entre nós.”

"O segredo de nossa amizade era o coleguismo"


O maior crítico literário do Brasil, o professor Antonio Candido de Mello e Souza, não gosta de dar entrevistas.
Aos 95 anos, voz firme, memória sem vacilos, ele mesmo atende ao telefone de casa e vai logo explicando: "Conversa? Aqui em casa? Não vai dar. Estou me recuperando. É uma pequena cirurgia". O dever de ofício nos obriga a insistir. Ele se rende ao ouvir que não precisará falar de política ou de atualidades.

A conversa será sobre o amigo Florestan Fernandes. Mais especificamente sobre as cartas por meio das quais trocavam ideias e se conheceram, na década de 1940, antes de se encontrar pessoalmente.

"Você quer saber como eu conheci Florestan?", pergunta. "Ele lia meus rodapés e começou a me escrever. Eu era crítico da 'Folha da Manhã', hoje é a 'Folha de S.Paulo'. Naquele tempo o crítico fazia artigo toda semana. Ficava na parte de baixo do jornal, por isso chamávamos rodapé. O nome do meu era 'Notas de Crítica Literária'.

Um dia entrei na faculdade e vi um rapaz encostado numa parede, em pé, lendo um livro, 'Uma Vida de Buda'. Olhei bem, cheguei perto e perguntei: 'Você é o Florestan?' Na mesma hora ele respondeu: 'E você é o Antonio Candido'. Foi assim. E ficamos amigos. Até então só nos conhecíamos pelas cartas."

Valor: Mas como é que numa faculdade, com tanta gente, o senhor olhou justamente para ele e suspeitou que fosse Florestan?
Antonio Candido: Não sei... Até hoje não sei como isso aconteceu. Acho que foi a intuição. Ele teve essa mesma intuição.

Valor: Como era a relação dos senhores nessa época?
Antonio Candido: Eu era o primeiro-assistente do professor Fernando de Azevedo e Florestan logo se destacou na faculdade. Vagou o cargo de segundo-assistente e ele foi convidado para assumir esse lugar. Ele logo foi muito respeitado por todos. Outro dos nossos professores era Roger Bastide, que, depois, até convidou Florestan para ir à Europa.

Valor: E os senhores foram professores...
Antonio Candido: Ele era um professor como poucos. Foi um mestre. Eu dou muita importância à obra de Florestan. Você sabe que ele, durante muito tempo, se preocupou muito com a teoria. Veja quando ele estudou e fez sua tese de doutorado com "A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá". Não havia como estudar isso, pesquisando in loco, como fazíamos.

Ele fez toda a tese lendo, pesquisou tudo o que havia sido escrito. Estudou por meio dos cronistas da época. Como viviam os tupinambás, o que faziam. Diziam na época que isso era impossível. Ele mostrou que não era. E fez um trabalho inacreditável. Fez um livro magistral. Mas, até então, ele só se preocupava com a teoria. E conversamos sobre isso. Era preciso pesquisar o presente. Assim começou a sociologia crítica, empenhada nos problemas sociais.

Valor: E os senhores ficaram amigos e as cartas continuaram?
Antonio Candido: Naquela época era o normal. Muitas vezes um ia para um lado. O outro estava aqui. Mas nós fomos companheiros, lado a lado na cadeira de sociologia 2. Passamos horas e horas, dias e dias na mesma sala. Trocávamos ideias, discutíamos que nota dar aos alunos, o que fazer com a cadeira. Havia muita discussão sobre a educação, sobre a sociologia, sobre a teoria, a crítica. Junto com isso, passamos a conviver com nossas famílias, nossos filhos.

Valor: Muitos intelectuais acabam tendo diferenças que os afastam. Isso não chegou a acontecer com os senhores...
Antonio Candido: Nunca. A senhora quer saber o segredo de nossa amizade? Era o coleguismo. A faculdade é a maior fonte de amizade que existe. Meus maiores amigos eram da faculdade. Minha mulher [Gilda de Mello e Souza] era de lá. Sou de uma geração que nasceu e viveu por causa da universidade. Não sei se todos entendem isso hoje. (MG)

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http://www.valor.com.br/cultura/3370656/o-segredo-de-nossa-amizade-era-o-coleguismo#ixzz2nTRWhqoP

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