quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Médicos, babás e histórias

Um lado ruim e um lado bom

Aos jornais cabe ter um bom e cuidadoso Editor. Mas tem hora que até o bom editor come barriga e o quê deveria ser uma linda história, acaba aparecendo também uma história negativa e num momento inoportuno.

Vejam esta bela reportagem publicada na Folha de hoje, que conta a história de uma empregada doméstica brasileira, negra, naturalmente, que vai trabalhar nos Estados Unidos como babá para um casal de brasileiros que vai fazer pesquisas médicas. Apesar das dificuldades, a babá acaba tendo uma vida de sucesso lá nos Estados Unidos, inclusive casando com um americano.

Contada desta forma, como no filme italiano que ganhou o Oscar contra Central do Brasil, fica parecendo que lá “a vida é bela”. Mas, além de contar que o casal que contratou e levou a babá negra para os Estados Unidos era de médicos, conta também que eles exploravam a babá. Pronto, os médicos agora vão dizer que esta matéria faz parte de uma Campanha Nacional contra os médicos.

Que a matéria deve ter sido encomendada pelo Padilha, ministro da saúde e a babá, além de negra, é ressentida, ingrata, que ela só encontrou a felicidade nos Estados Unidos porque o casal de médicos a levou para lá. Aí o Conselho Federal de Medicina vai abrir processo contra a Folha e também vai denunciá-la na ONU.

No final da história, a bela matéria que era para mostrar um caso de sucesso, pode se transformar numa tragédia nacional e num conflito internacional. Tudo por culpa do Editor que não se deu conta do material explosivo e politicamente delicado.

Vejam que bela reportagem de Joana, a jornalista da Folha...

Babá brasileira virou professora universitária
e luta por direitos dos domésticos nos EUA

Folha – 28/11/2013
DEPOIMENTO A JOANA CUNHA DE NOVA YORK

Há 20 anos, a brasileira Natalicia Tracy desembarcou nos EUA acompanhada de um casal de médicos, também brasileiros, que a contrataram para ser babá por um período de dois anos, enquanto eles realizariam pesquisas em um hospital de Boston.

Ela pretendia aproveitar a oportunidade para ir à escola, aprender inglês e, assim, procurar um novo emprego quando voltasse. Porém, foi impedida de estudar, de falar com a família e submetida a condições degradantes. Hoje, ela é ativista, diretora do Centro do Imigrante Brasileiro em Massachusetts e Connecticut e uma das lideranças na ampliação dos direitos dos trabalhadores domésticos no país. Leia o depoimento dela:

Eu entrei nos Estados Unidos há 20 anos com documentação em dia: tinha um visto pelo contrato de babá para cuidar da criança de um casal de médicos brasileiros, que veio morar aqui para desenvolver pesquisas em um hospital em Boston.
Quando ainda estávamos no Brasil, eles me prometeram que eu poderia estudar, conhecer a cultura americana e aprender inglês, que era o que eu mais queria, porque eu só tinha estudados até a oitava série.

Viajei cheia de expectativas,

mas não foi isso o que aconteceu quando cheguei.

Além de cuidar da criança de três anos, fiquei responsável por todo o trabalho doméstico: cozinhar, lavar e passar. Isso acontecia de segunda a segunda, sem folga.
Não me deixaram ir para a escola. E logo tiveram uma segunda criança, o que aumentou o meu trabalho e acabou com o meu sonho de estudar inglês.
No começo, me deram um quarto, mas depois, como recebiam muita visita, me colocaram para dormir em um colchão no chão da varanda.
O local era protegido apenas por um vidro bem fininho, e quando chegou o inverno, eu tinha que cobrir o chão com jornais e usava o aquecedor portátil.
Fiquei doente e tive uma reação alérgica por causa de um produto para limpar o tapete. Não me levaram ao médico, mas permitiam que eu usasse o restante do produto de inalação da criança.

Comida, me davam só quando sobrava. Caso contrário, eu tinha de comprar.
Mas eu só podia escolher um sanduíche de US$ 1,00 no McDonald's porque o meu salário era de US$ 25 semanais.
Pegaram o meu passaporte dizendo que iam renovar o meu visto de trabalho, mas nunca renovaram. Eu fiquei ilegal nos Estados Unidos.

Quando eu pedia para estudar, a mãe dizia que eu era ingrata e que qualquer pessoa na minha situação beijaria o chão onde ela pisasse por ter me dado a oportunidade de estar em um país de primeiro mundo.

O pior de tudo
foi terem me impedido de me comunicar com a minha família no Brasil. Diziam que o telefone era muito caro e não permitiam que eu colocasse meu nome na caixa de correio da casa deles. Naquela época, o carteiro não deixava as correspondências se o nome não estivesse na lista.

Dois anos se passaram e, quando chegou a hora de eles voltarem ao Brasil, eu pedi para ficar no país.

Quando eu andava na rua, sem saber falar inglês com ninguém, pensava até que seria melhor se um carro me atropelasse. Então, aprendi algumas palavras com um pequeno dicionário que eu trouxe na bagagem.
Achei no jornal de anúncios um emprego de babá para uma família americana. Eles me deram quarto, roupas novas, me pagaram o transporte para eu ir à escola e não aceitaram a minha oferta para trabalhar de graça. O meu salário era de US$ 100 por semana.

Fui para a faculdade, me casei com um americano, fiz mestrado e estou terminando o meu doutorado em sociologia na Boston University. Conheci a comunidade brasileira e me envolvi com o centro de imigração.

Hoje, sou professora na University of Massachusetts Boston e diretora-executiva do Centro do Imigrante Brasileiro em Massachusetts e Connecticut. Em parceria com outras organizações, lutamos para ampliar os direitos dos trabalhadores domésticos nos Estados, uma questão sensível para a comunidade brasileira.

Muitos trabalham por hora na limpeza doméstica, mas os direitos são pouco reconhecidos nesses contratos. Me engajei nisso por causa da minha própria existência.

A gente que vem de família mais simples está muito acostumado a respeitar autoridade.
Eu sabia que eu era invisível para eles, mas não questionava.
Hoje, depois de estudar, eu compreendi que
o que os meus patrões brasileiros fizeram comigo naquela época
foi tráfico humano.

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