sábado, 9 de novembro de 2013

Fernanda Torres, mais notícias

Uma boa matéria no Valor

A reportagem no jornal Valor é muito boa. Recomendo ler inteira.
Como prometido ontem à noite, estou complementando a notícia do lançamento do livro de Fernanda Montenegro, "Fim".

Como este espaço é curto, fiz uma seleção dos parágrafos que achei mais vinculados a pessoa dela. Que o autor e a própria Fernanda me desculpem. Foi orientação da Edição do Blog.

Uma atriz em estado crônico

Por Tom Cardoso | Para o Valor, do Rio – 08/11/2013

Editado pela Companhia das Letras, seu mais novo rebento conta a história de cinco cariocas que encaram o extremo da vida: a velhice. "Suas vidas testemunham um país que virava de cabeça para baixo em costumes e valores e esse é o pano de fundo de seus excessos, separações, manias, inibições e arrependimentos", diz trecho na contracapa do livro, que chega às livrarias na terça-feira.

Mas há muito que conversar neste "À Mesa com o Valor", regado a água e café, inclusive sobre literatura. Estamos no meio de uma agradável tarde de outono carioca, esparramados no sofá da casa de Fernanda, sem a companhia do fotógrafo, dispensado na última hora pela atriz. A culpa é de seu cabeleireiro e do ritmo das gravações no Projac (Centro de Produção da Rede Globo). "Estou sem maquiagem, cansada pra chuchu e com raiz de cabelo pra fazer", avisou a atriz, por e-mail, horas antes.

Fernanda é casada com Andrucha Waddington, com quem tem dois filhos, Joaquim e Antônio. O marido é diretor, entre outros filmes, de "Casa de Areia" (2005) e "Eu Tu Eles" (2000), e, apesar de cada vez mais próxima da literatura do que do cinema, continua arrumando trabalho para Andrucha. Ela, roteirista de "Redentor", longa de 2003 dirigido pelo irmão, Cláudio Torres, e responsável por escolher o fim para "Eu Tu Eles", aproveitou uma viagem com amigos a uma fazenda no interior de Minas para escrever o roteiro de um filme de terror, já nas mãos do marido, que pretende começar as filmagens no ano que vem.

O longa, "Juízo Final", terá Patrícia Pillar como protagonista, papel que foi oferecido primeiro a Fernanda, que, prontamente, o rejeitou. "Cada vez que eu colocava no roteiro 'externa/noite', pensava: estou fora, não quero partir para essa entrega absoluta que o cinema exige", diz. "As crônicas foram uma libertação para mim, uma atividade sensível, autoral, como o teatro e o cinema, mas que não depende de grandes produções, de grandes verbas, de captação, de viagens, de cenários, de elencos, de figurantes..."

Não que a literatura a liberte de todas as angústias e crises existenciais. "Não faço nada semanal, já que o tempo que eu tenho para me arrepender do que escrevi é muito curto", comenta. "Na 'Folha' eu queria assinar uma coluna por mês, mas não dá." Fernanda começou a escrever com certa regularidade no fim da última gravidez, há seis anos. "Estava do tamanho de uma geladeira de 500 litros e não tinha absolutamente nada pra fazer."

Quando aceitou o convite para se tornar cronista de um jornal de grande circulação, a mãe, Fernanda Montenegro, ficou preocupada. "Ela achava meio perigoso, pela abrangência que um jornal tem", conta. "Minha mãe é mais atriz do que eu, acha que o ator tem o dever de guardar certo mistério, de não sair por aí falando abertamente sobre todos os assuntos." Logo a filha, que estava louca para opinar sobre tudo, posição que sempre foi reprimida - por ela mesma - durante a carreira de atriz. "O ator é sempre o cara que sabe superficialmente sobre tudo, né? Eu mesma cultivava esse preconceito, tinha muita vergonha de dar opinião."

No início, Fernanda foi convidada pela "Folha" para escrever na seção de política, na editoria "Poder". "Queriam a visão do ignorante e me chamaram." Saiu-se tão bem que virou colunista quinzenal, com opiniões, muitas vezes, contrárias ao senso comum, como os elogios ao governador Sérgio Cabral (Rio), no momento em que o político vivia o momento mais crítico de sua gestão, com manifestantes acampados em frente do seu apartamento, no Leblon.

Fernanda Montenegro prefere a filha na condição de atriz, preservando os seus mistérios, mas é também um pouco responsável pela Fernanda Torres cronista. "Eu fui criada com grandes escritores, jornalistas e cronistas, amigos de meus pais, no sofá de casa", diz a atriz. "Mamãe era daquelas que liam, de pé, no ônibus."

Fernanda sentiu vontade de adaptar para o teatro o romance "Na Praia", de Ian McEwan, mas as facilidades e praticidades da vida literária a deixaram mal-acostumada. "Está cada vez mais difícil levantar uma peça com elenco no Brasil. Prefiro ficar só com o 'Budas', em que já está tudo pronto, encaminhado."

Com cinema, diferentemente da televisão e do teatro, a relação é diferente. Seu afastamento passa também por um processo de desencantamento com a produção atual. "Eu era rata de cinema, mas por falta de tempo, por causa das crianças, eu vejo apenas filmes infantis." Mesmo que o tempo permitisse, ela talvez fosse bem menos ao cinema do que ia há 10, 20 anos.

"Eu nasci, ainda, num século humanista e o terceiro milênio, definitivamente, não é humanista. Sinto que a tecnologia e a economia venceram o humanismo." E o que ela acha, então, da profusão de comédia de costumes no Brasil, o único gênero que tem conseguido atrair boas bilheterias?

"O fenômeno não é só brasileiro. O cinemão americano está aí para comprovar a minha teoria. Vivemos num processo de infantilização de tudo e uma forma de escapar um pouco disso foi escrever as minhas crônicas. Ainda existem adultos que leem jornal."

A carreira internacional de Fernanda Torres começou e acabou no mesmo ano, em 1991, na esteira da ressaca do fim da Embrafilme (empresa estatal, produtora e distribuidora de filmes, extinta em 1990 pelo governo do presidente Fernando Collor), com o longa, rodado no México, "One Man's War", do brasileiro Sérgio Toledo, que tinha no elenco, entre outras estrelas, Anthony Hopkins.

"Eu percebi logo que o meu prêmio em Cannes não queria dizer muita coisa nem eu estava disposta a batalhar por uma carreira em Hollywood, não queria passar muito tempo fora do meu país. Nós, brasileiros, somos um poucos estranhos, somos mais autorreferentes do que os outros."

Nenhum comentário:

Postar um comentário