domingo, 27 de outubro de 2013

Leonard Cohen na Serafina da Folha

O melhor do dia

Estranho, muito estranho.
Depois de folhear dois volumosos jornais de domingo, a Folha e o Estadão, a gente chega a conclusão que alguma coisa está errada. A única matéria que consegui ler inteira foi a ótima reportagem publicada não no jornal, mas na Revista Serafina, que faz parte de Folha de São Paulo.

O que faz com que um longo artigo com ótimas fotos sobre uma personagem lendária e histórica seja o melhor artigo do dia, ainda mais publicado numa revista que começou chatíssima e hoje vem se transformando num referencial cultural?

Talvez sejam os sinais dos tempos. Como ainda não sei publicar o “LEIA AQUI”, reproduzo o link para voces copiarem e colarem:
http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/10/1362066-conheca-leonard-cohen-o-bob-dylan-com-fas-menos-histericos.shtml

A Folha ainda é o retrato da vanguarda nacional. Esquizofrênica, oportunista, puxa-saco de tudo que os Estados Unidos fazem, mas continua sendo a vanguarda atual no Brasil. O tradicional na forma de fazer jornal continua sendo o Estadão. Embora, ambos, a Folha e o Estadão, quando chegam as campanhas eleitorais fiquem INSUPORTÁVEIS!

Mas agora o assunto é cultura. Não vou publicar toda a matéria porque fica muito grande. Procure ler no link acima, na internet ou no próprio jornal. Vale a pena...

Leonard Cohen, o ídolo com fãs zen,
prepara novo álbum e planeja tocar no Brasil


DANIEL BENEVIDES -DE DUBLIN
Folha – Serafina – 27/10/2013

Leonard Cohen tinha dois shows marcados em Dublin, capital da Irlanda, e eu estava lá. A cidade toda parecia estar influenciada por sua presença. Era como esses filmes em que alienígenas se apossam dos habitantes.

Achei que a qualquer momento passaria uma fila de crianças cantando "Hallelujah", talvez sua canção mais marcante. Cidade de escritores, poetas e dramaturgos importantes como James Joyce (1882-1941), W.B.Yeats (1865-1939), Oscar Wilde (1854-1900) e Samuel Beckett (1906-1989), entre outros, Dublin parece exalar literatura, e talvez essa seja a explicação para tanta intimidade com o bardo canadense.

Logo no primeiro táxi que tomei, o motorista começou a cantar "Suzanne", outra de suas músicas mais famosas, regendo com uma mão, a outra no volante. Enquanto bebia uma Guinness no pub que James Joyce frequentava, o The Bailey, na rua Duke, ouvi duas garçonetes falarem sobre os shows daquela semana, na grande casa O2. Até a recepcionista do hotel ficou encantada quando eu disse que viera só para isso.

Não havia combinado nada, mas queria tentar entrevistá-lo. Teria de ser no improviso, como um solo arriscado de jazz. Ou no grito. Mas estava animado. Sabia que ele simpatizaria com a ideia de falar com alguém que viera de tão longe só para isso. Eu estava preparado. E a cidade parecia querer ajudar.

AO VIVO
Está em seu melhor momento.
O álbum "Old Ideas", desse ano, entrou direto no topo da parada em nove países. E as turnês de 2008/2010, 2012 e a atual vêm lotando todos os lugares por onde passa. E tudo isso começou por causa de um roubo fabuloso. Voltando de seu tempo de reclusão zen, descobriu que Kelley Lynch, sua empresária por 17 anos e eventual amante, havia zerado sua conta no banco. Mais de cinco milhões de dólares sumiram. Ele a demitiu imediatamente e a processou. No ano passado, depois de várias ameaças a Cohen e sua família, ela foi presa e condenada a 18 meses numa penitenciária.
A necessidade foi a mãe da nova situação.

Logo no primeiro ano de shows, 2008, o rombo foi coberto com sobras, as críticas foram unânimes e o público afluiu com um entusiasmo que parecia acumulado ao longo dos tempos. Cohen faz por merecer. Os shows que duram três horas e meia, e a qualidade das músicas e dos músicos é excepcional, mas o que emociona mesmo é a disposição daquele senhor elegante, que faz as ideias e os sentimentos mais complexos parecerem simples. A ordem das músicas segue uma narrativa, percorrendo todas suas fases, mas com doses de humor. Não faltam os clássicos mencionados acima e ainda "I'm your Man", possivelmente a melhor cantada em forma de canção já feita, "So long, Marianne", sobre sua primeira relação duradoura e a crítica arrasadora ao mundo atual, "The Future".

Consegui ficar bem perto do palco, junto aos fotógrafos, e pude observá-lo (e à banda) em cada detalhe. Seus gestos seriam teatrais, não fossem tão sinceros: ora ergue o punho, enfatizando cada sílaba das letras, ora ajoelha-se para se entregar ao sentimento das canções. Tira o chapéu e o coloca no peito para ouvir os solos de seus músicos. E faz piadas (depois de um intervalo de vinte minutos, ele volta, olha para a plateia e comenta: "Que bom que vocês continuam aí. Fiquei com receio de que tivessem ido embora").

SATISFAÇÃO GARANTIDA
O público acompanha, hipnotizado.
Não há histeria, mas uma comunhão prazerosa. Na juventude, como descreve em seu livro "A Brincadeira Favorita" (1963), aprendeu a hipnotizar. É o que parece fazer, do palco, com o público, com os músicos, consigo mesmo. Sacro e profano, irônico e lírico, alegre e melancólico, é santo e sátiro ao mesmo tempo, com todas as gradações possíveis entre esses polos.

Cohen volta seis, sete vezes ao palco, sempre dançando, com ar genuinamente feliz. Canta "I tried to leave you" (Tentei te deixar), de um de seus melhores álbuns, "New Skin for the Old Ceremony", de 1974, e enfatiza o verso "I hope you're satisfied" (espero que estejam satisfeitos). Para o ponto final da narrativa, Cohen e banda tocam "Closing Time" (hora de fechar), do disco "The Future", de 1992. Perfeito. Sim, todos estão satisfeitos.

Ainda no hotel, Roscoe Beck, o baixista e maestro da banda, e Mitch Atkins, o guitarrista, comentaram sobre a diferença dessa turnê e da série de shows que fizeram em 1979/80 e que estão no disco ao vivo "Field Commander Cohen":

"Naquela época era uma loucura. Bebidas, drogas, mulheres. A música era mais improvisada, cada show era diferente. Agora é mais tranquilo. Prefiro agora", diz Mitch, com um sorriso. Ele, Beck e Más confirmam que Cohen prepara um disco novo: "às vezes ele chega com um tema no ensaio e tocamos por 45 minutos, até chegar no ponto. É uma das coisas que aprendi com ele: o valor da repetição, que remete à música árabe", diz Más.

Nos shows ele tem arriscado uma das músicas novas, "I've Got a Secret", um blues quase tradicional, que canta com entusiasmo juvenil. Até o final do ano, a partir de novembro, a turnê passa ainda pela Austrália e Nova Zelândia. Beck revela que querem muito vir ao Brasil, mas não sabem se será possível: "Falamos sempre em ir à América do Sul e África, continentes aos quais nunca fomos.

E o Brasil é sempre mencionado com interesse especial.
Quem sabe?".

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