domingo, 1 de setembro de 2013

Luther King - O sonho não acabou

Nem lá, nem cá...

Como sempre, Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, faz boas matérias. Reproduzo parte de bonita entrevista publicada no Estadão de hoje sobre os 50 anos do discurso de Luther King. Clarence Jones, amigo, conselheiro e depois professor universitário, fala um pouco sobre
“o sonho daquela época, que, em grande parte, continua
clamando justiça...”


O sonho vai à rua

Conselheiro de Martin Luther King ensina que a internet não substitui a força das massas, e as multidões é que acabam fazendo a diferença

31 de agosto de 2013 | 16h 03
Jamil Chade

Um sonho que não se tornou realidade universal.
Um sonho que, na verdade, ainda é pesadelo para muitos.
Mas um sonho que necessita ser alimentado,
principalmente por uma nova geração de líderes.

Cinquenta anos depois do discurso de Martin Luther King que se transformaria num ponto de virada na luta nos EUA por igualdade racial, o braço direito do pastor americano e a pessoa que escreveu parte daquele discurso, Clarence Jones, insiste que o legado daquelas palavras de King continua mais vivo que nunca e a sociedade precisa sair às ruas para protestar: “Mudanças podem ocorrer”.

Em seu discurso no dia 28 de agosto de 1963, aos pés do memorial a Abraham Lincoln, em Washington, King apelou por tolerância racial e para que as pessoas não fossem julgadas pela cor de pele, mas pelo “conteúdo de seu caráter”. Acima de tudo, fez questão de marcar oposição a ações violentas. Sua luta acabou sendo fundamental na abolição de leis nos EUA que discriminavam a população negra.

Clarence Jones acompanhou tudo aquilo “sete dias por semana, 24 horas por dia”. Nascido em 1931, ele foi testemunha e ator de um capítulo fundamental da história dos Estados Unidos. Escreveu parte do discurso que entraria para a história, foi o conselheiro pessoal de King, seu advogado e, acima de tudo, amigo inseparável. Hoje, ele dá um curso na Universidade Stanford - Da Escravidão a Obama. Nessa semana, foi recebido pelo presidente Barack Obama para marcar os 50 anos de um dos discursos mais importantes do século 20. Antes, conversou com o Aliás durante uma passagem por Genebra.

O sonho

“Eu não sabia de nada. Estava à direita de King, a uns 15 metros dele. Quando ouvi suas primeiras palavras, percebi que ele estava usando não só palavras soltas, mas também sentenças e parágrafos de um texto que entreguei a ele na noite anterior e sugeri que utilizasse. O texto não era nada brilhante, mas um resumo de coisas que falamos por semanas e mesmo naquela noite sobre a direção que seu discurso deveria tomar. No fundo, aquele papel que lhe entreguei se transformou nos sete primeiros parágrafos do discurso.

Ele adicionou coisas depois. Enquanto falava, havia uma pessoa que não aparece nas imagens guardadas que gritava: ‘Martin, fale sobre o sonho, fale sobre o sonho’. De repente, vi que ele moveu os papéis do discurso para a lateral e olhou para os milhares de pessoas que estavam em Washington. Naquele momento, eu disse para a pessoa a meu lado: ‘Essa multidão não conhece King. Mas eles estão prestes a ouvi-lo falar como pastor’. Quando ele começou a falar de forma espontânea, sua linguagem corporal mudou. A verdade é que, salvo o início do texto, o discurso que King tinha programado para fazer naquele dia jamais foi lido.

Tudo o que entrou para a história foi espontâneo.
Só quando ia terminando de falar é que ele olhou de novo para os papéis
e se referiu a um poema: ‘Free at last, Free at last, Free at last’.

Força cósmica

“Tudo o que até hoje é celebrado daquele discurso, portanto, é autêntico. Agora, o que fez aquela fala ser tão extraordinária?Estávamos juntos sete dias por semana, quase 24 horas por dia. Ou seja, eu já o tinha ouvido discursar em centenas de ocasiões, mas nunca daquela forma. Era como se uma força cósmica transcendental tivesse tomado aquele corpo e aquela voz. Foi a confluência de fatores que levou àquilo.

Primeiro, ele estava falando nos degraus do memorial de Lincoln, que havia emancipado os escravos cem anos antes. Ele discursava para quase 300 mil pessoas, a maior reunião até aquele momento na história americana.

Para completar, 25% dos que o ouviam eram brancos.
As pessoas tinham vindo de todos os lugares do país, depois de meses de luta e ira contra a segregação racial. King também sabia que, entre elas, havia gente que acabara de sair de prisões. O discurso foi um apelo à consciência da América. Ele estava cutucando: ‘Que tipo de país somos? Podemos ser melhores’.

Um leão

“King foi tirado de nós antes que cumprisse sua missão. Mas era um jovem leão extraordinário. Tudo o que ele fez o fez praticamente em 12 anos e 4 meses. Para mim, salvo Lincoln, Martin Luther King pode ter feito mais para conseguir justiça e igualdade política, social e racial que qualquer outra pessoa ou evento nos últimos 400 anos de história americana. Se você olhar para o céu durante a noite, a chance de ver uma estrela cadente é mínima. Martin Luther King era isso, uma estrela rara, uma pessoa sui generis.

Nunca mais veremos alguém assim. Frequentemente me perguntam quem poderia substituí-lo. Eu apenas respondo: quem é hoje que pode substituir Michelangelo, Galileu, Mozart, Aristóteles? Ele nos desafiou a ser o melhor que podíamos como nação e mostrou a contradição entre o tratamento dado aos afro-americanos e os preceitos da nossa Constituição.

Foi o compasso moral da nação,
criando uma sociedade em que a cor seria irrelevante,
sempre com base na capacidade de cada um e no respeito.

Uma vez ele me disse:
me recuso a aceitar o desespero como resposta final
às ambiguidades da história ou da natureza humana.

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