quarta-feira, 28 de agosto de 2013

“Mais Médicos” e a “Vergonha Nacional”

Quem está sendo pior?

Ontem, ao ver os jornais, fiquei olhando as capas da Folha e do Estadão e fiquei comparando qual matéria me indignava mais:

1 – A Folha com a foto de um médico negro e cubano chegando ao Brasil para trabalhar atendendo os desassistidos pelos médicos brasileiros e sendo vaiados por jovens mulheres bonitas e com jalecos brancos, talvez para se identificarem como médicas; ou

2 – O Estadão contando a história do “embaixador brasileiro que, orientado não sei por quem, resolveu tirar um político boliviano da embaixada brasileira naquele país, sem autorização nem do governo brasileiro, nem do governo boliviano”. Embaixadas são coisas sérias e representações de Governos e Estados. Não são espaços de pessoas que podem decidir o que bem quiserem.

“Que país é este? “ Pergunta o compositor roqueiro.

Passei o dia com a foto da Folha na cabeça, à noite, voltei a pegar o jornal, ler as matérias para tentar entender melhor o significado da foto, guardei o jornal para tentar fazer um texto para o meu blog no dia seguinte, mas não consegui tirar o assunto da minha cabeça.

Por volta das 4:30h da madrugada, acordei com o assunto na cabeça e, como não conseguia dormir, levantei-me e fui para o computador tentar compartilhar minhas angústias e tristezas sobre a pobreza no Brasil. Pobreza material e, principalmente, social.

Minhas dúvidas:

1 - Por que a Folha publicou a foto “do médico negro e cubano chegando ao Brasil para trabalhar atendendo os desassistidos pelos médicos brasileiros e sendo vaiados por jovens mulheres bonitas e com jalecos brancos, talvez para se identificarem como médica” na capa?

2 – Já que a Folha resolveu publicar a foto, porque não fez nenhuma consideração sobre o assunto? Apenas escreveu abaixo da foto “Recepção Hostil – Médico cubano é vaiado por colegas brasileiras ao sair do primeiro dia de curso em Fortaleza” ? Será que nenhum editor ou jornalista da Folha percebeu que a foto poderia gerar uma série de questionamentos? Será que a Folha perdeu o senso crítico?

3 – Por mais que se tenha crítica à importação de médicos, será que ninguém percebeu a quantidade de médicos e médicas NEGRAS e NEGROS chegando para trabalhar no Brasil?

4 – Se o Brasil tem mais NEGROS do que a população inteira de Cuba, por que o Brasil tem menos médicos Negros do que Cuba?

5 – Além de médicos negros, quantos médicos índios nós temos no Brasil? Se um pobre ter acesso a faculdade de medicina pública ou privada no Brasil já é uma raridade, imaginem índios e negros?

6 - Será que nossas universidades, públicas e privadas, têm políticas voltadas para aumentar o número de médicos negros e índios, principalmente como forma de melhor dialogar com esta parcela expressiva e importante da nossa população?

7 – Se vivemos num país de economia de mercado, capitalista, embora tupiniquim, por que, na medida que faltam médicos para atender as populações carentes, o governo não pode importar médicos que aceitem trabalhar somente nestas regiões? É preferível deixar a população morrer ou ficar com doenças crônicas? É isto que os mercados “brasileiros” querem? É isto que as entidades médicas querem?

8 – De repente, além de a imprensa estimular um comportamento antissocial, antipobre e anticubanos, aparecem também os advogados do ministério público dizendo que vão questionar tudo e a imprensa passa a fazer mais noticias dizendo que “a justiça” está questionando a importação de cubanos, porque estes não terão o mesmo salário que os brasileiros e que Cuba não é uma Democracia. E a China é? No entanto os empresários e a imprensa brasileira vivem adulando os chineses. Quando os Estados Unidos espionam tudo e todos do Brasil, este é um comportamento democrático? Isto pode?

9 – Se for para falar “de competência médica”, por que não instituímos a prova de capacitação médica para todos os médicos brasileiros, como faz a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil? Talvez muitos médicos não passariam, como não passam a maioria dos advogados formados no Brasil. Mas quero registrar que sou contra este tipo de prova. Sou favorável apenas que as Universidades e Faculdades precisam ser fiscalizadas para que a qualidade dos cursos obriguem os alunos a saírem qualificados sem necessidade de avaliação posterior ao recebimento dos diplomas.

10 – Minha maior tristeza não é com quem é governo ou quem é oposição. Minha tristeza é perceber que o Brasil, mesmo sendo redemocratizado, mesmo tendo mais de trinta partidos políticos, mesmo tendo uma imprensa livre e, muitas vezes desrespeitosa, mesmo tendo milhões de universitários, mesmo tendo mais de 750 mil advogados e formando mais de 20 mil médicos por ano, continuamos sendo um país que nos envergonha, nos seus valores e nos seus comportamentos.

11 -Educação escolar, educação familiar, educação social, educação nos locais de trabalho e nas ruas. Precisamos investir muito ainda na nossa educação. Poderemos ser ricos, ser um grande país de classe média, mas, se não tivermos educação, estaremos copiando o lado pior dos Estados Unidos.

Agora vejam a foto das “médicas brasileiras, brancas, bonitas e ricas”,
vaiando um médico negro, cubano e que aceitou vir para o Brasil
atender os pobres que estas brasileiras e brasileiros não atendem...


Esta foto foi publicada na Capa do jornal Folha de São Paulo, no dia 27/08/2013.

Se Luther King estivesse vivo e visse esta foto, teria vergonha do Brasil.

Milhões de brasileiros, que estão vivos, também estão envergonhados.


Obs.: Agora, mesmo já sendo 5:38h da madrugada, depois de meu desabafo, talvez eu consiga voltar a dormir. Para acordar às 6:15h para ir trabalhar. Mas antes de sair de casa, vou ver os jornais. E tenho receio do que vou ver nas capas da Folha e do Estadão. Respeitar a democracia e a pluralidade da informação, muitas vezes nos obriga a ver e ler coisas desagradáveis. Tudo em nome da Liberdade...

4 comentários:

  1. A "burrguesia" fede! fede"..... a folha e esses açogueiros de gente de jaleco branco é igual uma piscina cheia de ratos, da nojo.

    Carlão

    ResponderExcluir

  2. Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e a minha arte com boa reputação entre os homens; se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Juramento_de_Hipócrates

    ResponderExcluir
  3. Gilmar, também fiquei chocada com a foto, ou melhor, com o fato de ter acontecido isso. Em pleno seculo 21, parece que regredimos em humanidade, urbanidade, solidariedade, etc. Mas também eu acho que a grande imprensa, seus "colonistas", como diz PHA, e parte das entidades médicas estimularam esse lado obscuro dessas jovens brancas de jalecos...

    ResponderExcluir
  4. Não sei, meu caro Gilmar, se envergonhado, frustrado, decepcionado, chocado, indignado, perturbado, entristecido, conseguem explicar o sentimento experimentado no episódio geral do "Mais Médicos", e no particular, o ocorrido em Fortaleza.

    A utilização da foto pela Folha desacompanhada de uma análise crítica é compreensível pelo caminho enveredado pelo jornal paulistano numa cegueira ideológica sem precedentes, considerando-se os ventos democráticos contemporâneos percebidos em todo o mundo.

    As declarações do presidente do CRM-MG e do presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, entretanto, ultrapassam o preconceito e são passíveis de enquadramento no Código Penal.

    Com nojo e vômitos me vi no século XIX, embora estejamos no XXI. Será mesmo? Neste campo das Humanidades o Brasil ainda está longe do terceiro milênio.

    ResponderExcluir