sábado, 17 de agosto de 2013

França: Idiota, Mentiroso e Sábio

Além de Hollande, todos temos um pouco

Creio que pouca gente tenha lido este texto de Gilles Lapouge, publicado no Estadão do ultimo dia 15. Todas as premissas são verdadeiras, além da Humildade de Lapouge. Coisa que não é muito comum por aqui. No Brasil, todo mundo é sabe tudo, mas quando vira governo, não sabe nada. Depois que sai do governo vira palpiteiro de novo.

Na França ainda existe gente como Hollande e Lapouge. No Brasil precisam ainda aparecer...

Análise: Hollande, de idiota e mentiroso a sábio

15 de agosto de 2013 | 2h 02
Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo

Mas o que foi que aconteceu? A França, que davam como moribunda, no fundo do abismo, a França, que acumulara dois trimestres em recessão, no fim de 2012 e começo de 2013, saiu da letargia e volta a ligar os motores.
Os franceses esfregam os olhos. Leem e releem os últimos números do jornal 'Le Figaro' e dizem que não é possível. Todos os números demonstram que a França está em "queda livre". Mas como? É incompreensível: um país não pode estar em declínio e ao mesmo tempo crescer.

Então se rendem à razão: a notícia é fidedigna. O anúncio foi feito ontem pelo Instituto de Estatística (Insee): no segundo trimestre de 2013, o crescimento apresentou um avanço de 0,5%. Um salto que ninguém julgava plausível.
Ninguém, com exceção do chefe de Estado François Hollande, que, há um mês, não parava de proclamar que a França estava saindo da crise. Pobre Hollande: cada vez que ele voltava a bater nessa tecla, as pessoas achavam graça. Ou é um mentiroso ou um idiota, diziam. E, no entanto, o Insee afirma de repente que Hollande não era nem um sonhador nem um palhaço.

É preciso notar outro sinal de encorajamento: essa reviravolta (tímida) da conjuntura não é observada apenas na França. Ela acontece na Europa como um todo. Os números divulgados no mesmo dia pelo Eurostat são claros: toda a União Europeia começa a respirar aliviada.

A zona do euro recupera um pouco de energia. É claro que vários países continuam em declínio (Grécia, Espanha, Itália), mas em média, em seu conjunto, o continente avançou 0,3%. Esse resultado inesperado foi obtido graças a três economias que voltaram a ser o que eram tradicionalmente, os motores da Europa: Alemanha (0,7%), Grã-Bretanha (0,6%) e França (0,5%).

Entretanto, nada de ilusões. Esse pequeno salto é fraco. No caso da França, não é absolutamente suficiente para reverter a curva mortal do desemprego que continua em alta. Mas, se analisarmos detalhadamente os indicadores, veremos que na Europa em geral dois deles são animadores: as exportações retomaram. E sobretudo o consumo interno, depois de meses de declínio, está em alta.

Nesse sentido, o presidente Hollande jogou de maneira certa. Ao anunciar antes dos especialistas e até mesmo antes do 'Figaro' que a "crise europeia" tinha acabado, ele se arriscou muito. Mas, se a frágil retomada assinalada ontem continuar, e se consolidar, Hollande recolherá seu prêmio. Passará de "palhaço" a "sábio".

É por isso que os próximos meses serão decisivos. Se o pequeno estremecimento de ontem desaparecer, se a melhoria momentânea desaparecer, então a satisfação mostrada pelo governo francês se transformará em embaraço. Se, ao contrário, a progressão da economia europeia e francesa se confirmar, Hollande finalmente ganhará sua faixa de chefe de Estado.

Podemos confiar nele em um ponto: Hollande é um homem hábil, que sabe controlar seus sentimentos. Ele não sofre de um ego doentio. É uma das virtudes desse homem sem "carisma" nem sedução: a constância e a modéstia (aparente ou real).

Basta ver o que aconteceu no Mali, na África. Há oito meses, Hollande mandou o Exército francês socorrer o Mali. Ele derrotou os terroristas. Permitiu que o Mali, libertado, organizasse eleições livres, que transcorreram perfeitamente.
Outro, no lugar de Hollande, teria comemorado a vitória indefinidamente, Hollande contenta-se em afirmar que está contente porque o Mali reencontrou a paz e a serenidade. Muito bem!
TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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