segunda-feira, 15 de julho de 2013

Egito – O melhor artigo sobre Golpe e Primavera

Não deixem de ler

Mesmo o jornal Estadão sendo reacionário na política nacional, o jornal continua sendo o que melhor cobre o noticiário internacional. Pena que seu site seja enrolado e lerdo...

Mas não deixem de ler este excelente artigo com entrevista de um professor de Denver - Estados Unidos.
NADER HASHEMI é diretor do Centro de Estudos sobre o Oriente Médio na Universidade de Denver.

Golpe no Egito não pode ser visto pelas lentes do Ocidente

A Irmandade caminhava para uma derrota eleitoral,
que provocaria uma reflexão e poderia transformá-la
em um grupo mais moderado

14 de julho de 2013 | 2h 02
O Estado de S.Paulo

Os indivíduos liberais em assuntos de política externa americana saudaram, no dia 3 de julho,
a destituição do primeiro presidente do Egito eleito pelo democraticamente, Mohamed Morsi.

Foi um "golpe militar válido" que os americanos deviam apoiar, afirmaram, porque foi em nome do povo, porque defende valores progressistas e, o que é mais importante, afasta os islamistas do poder, abrindo as portas para os secularistas egípcios.

Esses argumentos nos fazem lembrar de uma famosa frase atribuída a um major americano no Vietnã: "Foi preciso destruir a aldeia para salvá-la". Os pressupostos e o raciocínio em que eles se baseiam não resistem a uma análise crítica.
O golpe assinala um revés colossal para as perspectivas de um Egito democrático. Militares incontroláveis e irresponsáveis voltaram a ocupar o centro da política, o que torna as vozes americanas que aplaudem a derrubada de Morsi algo ainda mais espantoso. Entretanto, sua aprovação reflete um problema filosófico mais profundo no Ocidente:

como pensar o desenvolvimento da democracia nas sociedades muçulmanas?


Essa questão filosófica é, ao mesmo tempo, histórica, cultural e, durante séculos, contaminou o debate intelectual do Ocidente sobre as sociedades muçulmanas . Fundamentalmente, trata-se de um problema relativo ao persistente eurocentrismo; à relutância a olhar o mundo islâmico através do prisma da experiência histórica dele e não da experiência ocidental.

São muitas as questões essenciais.

Será possível pensar de maneira diferente a relação entre religião e evolução do pensamento político? Existirão caminhos alternativos para a modernidade por meio dos quais os grupos islâmicos possam contribuir para a democratização?

O desafio da democracia nas sociedades muçulmanas não pode ser compreendido utilizando-se o mesmo arcabouço interpretativo usado normalmente para avaliar a política americana. Os americanos deveriam hesitar ao comparar e julgar sociedades desenvolvidas com as do mundo em desenvolvimento.

As distorções analíticas resultam da avaliação da política nas sociedades pós-industriais modernas - onde a consolidação da democracia vem ocorrendo há muito tempo e onde as normas básicas da sociedade foram negociadas de maneira democrática - e da comparação com sociedades que há muito se encontram sob um governo autoritário e cujas normas básicas ainda não foram negociadas. Isto se aplica, particularmente, à função normativa da religião na vida pública, que mal começou a ser debatida no mundo árabe.

Desastre.
Esse problema intelectual está relacionado à tendência natural, mas errônea, de pressupor que a experiência histórica ocidental é universal, particularmente em questões de religião e secularismo. O pressuposto equivocado é que, como o Ocidente, depois de séculos de derramamento de sangue e de experimentações, chegou a um amplo consenso secular liberal, o mesmo deveria valer para o resto do mundo.

Esse ponto cego inibiu a compreensão da evolução política nas sociedades muçulmanas, em que o caminho para a democracia levará muito tempo e não poderá evitar o obstáculo da política religiosa.

A experiência da modernização do mundo árabe islâmico tem sido quantitativamente diferente da experiência ocidental. Por razões complexas decorrentes dos fracassos do Estado pós-colonial, a modernização produziu fortes movimentos de oposição de inspiração religiosa e fracos grupos seculares em sociedades profundamente polarizadas.

Com a Primavera Árabe, esperava-se que essa polaridade se reduzisse gradativamente com a queda de ditadores há muito encastelados no poder e com a transição para a democracia. A lógica da política multipartidária, da responsabilização democrática e de uma forte sociedade civil, inevitavelmente, levariam a uma transformação ideológica, ao compromisso político e ao aprendizado da democracia. Entretanto, isto estaria condicionado à permanência do processo democrático nesse caminho.

No Egito, depois da queda de Hosni Mubarak, em 2011, a transição estava se realizando com todas as dificuldades, as controvérsias e o caos previsíveis - em grande parte, um legado do antigo regime. Os militares estavam em retirada e os egípcios foram às urnas seis vezes (para votar em algum programa, em eleições presidenciais, parlamentares e constitucionais). Todas as vezes, a Irmandade Muçulmana ganhou.

Como muitos previram, a primeira tentativa da Irmandade de exercer o poder revelou sua incompetência. Morsi tomou uma decisão errada após a outra e a popularidade do seu partido caiu. A Irmandade caminhava para a derrota certa nas próximas eleições parlamentares. O que provavelmente levaria a um período de autoanálise e debates internos.
Quem sabe, o processo desse origem a uma ramificação mais abrangente e moderada. Agora, jamais saberemos. O que os liberais ocidentais não compreendem é que a integração dos islamistas em uma política formal é parte essencial da luta pela democracia no mundo árabe islâmico.

As perspectivas de que isto venha a ocorrer agora receberam um golpe terrível. A lição que os islamistas aprenderão é que o respeito pelas regras da democracia não é importante, porque quando seus adversários ganham as eleições, não respeitam essas mesmas regras. Agora, provavelmente, o processo de radicalização envenenará a política do Egito - e o mundo islâmico como um todo - nos próximos anos.

Há 20 anos, o embaixador americano Edward Djerejian indagou em um famoso discurso se seria possível confiar que os islamistas respeitariam as regras da democracia. Refletindo a preocupação geral, ele sugeriu que o problema consistia num conceito de democracia que podia ser resumido no seguinte: "um homem, um voto, uma vez".

Reflexão.
Os recentes acontecimentos no Egito viraram a equação de cabeça para baixo. Não foram os islamistas tradicionais, mas alguns grupos secularistas e liberais, aliados aos militares, que subverteram o processo democrático.

Tudo isto sugere a necessidade de repensar a abordagem e os pressupostos ocidentais da luta pela democracia no mundo árabe islâmico. As fórmulas e os paradigmas comuns, extraídos da história ocidental, a respeito de quais são os eleitorados políticos que atuam como os melhores agentes da democratização, desintegram-se num exame.

Isto se aplica também às lutas políticas nas democracias muçulmanas estabelecidas, como a Turquia e a Indonésia, bem como nas democracias em desenvolvimento, como a Tunísia e o Marrocos.

Para os que procuram compreender os desafios com os quais a democracia se defronta no Oriente Médio, será imprescindível, neste momento, um grau de humildade e reflexão sobre um golpe que derruba um governo civil, independentemente da incompetência desse governo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Nenhum comentário:

Postar um comentário