quarta-feira, 10 de julho de 2013

Egito, Brasil e Turquia – Golpes e Contragolpes

Não deixem de ler...

A matéria do dia.
A Folha continua sendo um jornal que traz contribuições positivas, quando quer, embora tradicionalmente esteja mais para o lado neoliberal e sempre a favor dos Estados Unidos.
O curioso é que, mesmo sendo neoliberal, a folha divulga entrevistas contra o neoliberalismo. Eu acho que também na Folha há uma crise de hegemonia...

Os Estados Unidos e a Europa estão sim participando do golpe no Egito e em outros países, direta ou indiretamente.

Leiam esta ótima entrevista de um professor da Universidade de Londres.
Os analistas e historiadores de Londres tendem a ser os melhores do mundo.
Parabéns também para Eleonora de Lucena e para a Folha.

Risco de guerra civil existe,
afirma estudioso da Primavera Árabe

ELEONORA DE LUCENA
Folha - DE SÃO PAULO - 10/07/2013

O risco de guerra civil existe no Egito,
mas o mais provável é que ocorra uma negociação mediada pelos EUA entre a Irmandade Muçulmana e as Forças Armadas.
A avaliação é do sociólogo Gilbert Achcar, professor da Universidade de Londres. Para ele, a continuidade das políticas neoliberais explica a atual explosão social. A turbulência deve durar muitos anos, e a Primavera Árabe está no seu estágio inicial.

Achcar, que acaba de lançar um livro de análise sobre o movimento na região, diz que os processos no Egito e no Brasil são radicalmente diferentes. "Não acho que o Brasil esteja no caminho do Egito", diz.

A seguir a entrevista concedida nesta quinta, por telefone.*

Folha - O que acontece no Egito?
Gilbert Achcar - É um golpe como o que derrubou Hosni Mubarak em 2011. Nos dois casos foram os militares que tomaram a iniciativa de derrubar o presidente existente, no contexto de uma enorme mobilização de massas. Em 2011, era Mubarak, e a Irmandade Muçulmana estava nas ruas com o restante da oposição. Hoje, a Irmandade Muçulmana está no poder e aqueles que lamentam a queda do antigo regime também estão nas ruas com o restante da oposição, a esquerda etc. É o mesmo cenário, mas os atores trocaram de papel.

Por quê? O que deu errado no Egito?
Muitas coisas. A Irmandade Muçulmana falhou terrivelmente no seu teste de governo. Falhou em atacar a situação econômica e social, porque deu continuidade às mesmas políticas sociais e econômicas do regime anterior. Essas políticas neoliberais não podiam trazer soluções para o país. Ao contrário, agravaram problemas. É inacreditável a forma de fundamentalismo neoliberal do FMI. A Irmandade Muçulmana é uma fundamentalista islâmica. O FMI é um fundamentalista neoliberal. Eles empurram medidas neoliberais num país onde essas medidas levaram a um desastre.

O que fizeram?
O coração da política do FMI é que o setor privado precisa ser o principal motor da economia e que o Estado precisa diminuir seus dispêndios e também os gastos sociais. São receitas para explosão. Eles nem conseguiram implementar muitas medidas do FMI, porque sabiam que eram muito fracos para fazer isso. Continuaram as políticas anteriores e não conseguiram começar a atacar os enormes problemas econômicos e sociais, o desemprego --onde estão as verdadeiras raízes da situação.

Também falharam imensamente no campo político. Ficou claro que tinham perdido muito crédito. Os muçulmanos foram eleitos só no segundo turno graças a pessoas que votaram neles só porque eram contra seus opositores. Não porque eram seus apoiadores. No lugar de entender isso e adotar uma política de conciliação, reunindo outras forças políticas, eles tiveram um comportamento totalmente arrogante. Tiveram a capacidade de colocar contra eles pessoas que inicialmente tinham uma boa impressão deles. Falharam em todas as frentes. É esse fracasso total que levou a esse enorme movimento de massas. A mídia ocidental tem afirmado que esse é a maior mobilização de massas da história humana. Não sei se é isso, mas a massa de muitos milhões de pessoas nas ruas do Egito é impressionante.

O que os muçulmanos vão fazer? É um fracasso do Estado muçulmano?
É um fracasso da Irmandade Muçulmana. Até agora ela está se recusando a aceitar o golpe. Ela tem dois caminhos: conflito ou negociação. Duvido que opte pelo confronto. Isso porque eles são basicamente um partido conservador, com muita classe média e muitos homens de negócios em sua liderança. Não creio que eles se encaminhem para uma aventura de confronto com as Forças Armadas. Isso seria suicídio.

O mais provável é que se encaminhem para uma posição de barganha. É provável que estejam apostando no Qatar e em Washington para negociar algum compromisso com os militares pelo qual teriam alguma fatia de poder, com novas eleições sendo organizadas em breve.

Qual o papel dos EUA nesse processo?
Muitas pessoas acreditam que os EUA são como um deus que puxa todos os cordões em todos os lugares. Isso é loucura. Dizer que a primavera árabe é uma conspiração de Washington é loucura. Washington está no ponto mais fraco de sua influência na região, principalmente devido ao desastre no Iraque.

Com as revoltas, os EUA perderam alguns de seus aliados mais importantes, como Mubarak. Eles estão numa situação muito difícil. Optaram por uma aliança com a Irmandade Muçulmana para encarar a nova situação. Washington estava apoiando o governo Mursi até o último minuto. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas no Egito são o aliado mais próximo, estratégico, de Washington. Por isso, os EUA vão ser provavelmente os mediadores. Eles têm ligações orgânicas com as Forças Armadas, o que não é o caso com a Irmandade Muçulmana. Mas, ao mesmo tempo, eles temem ser antagonistas da Irmandade Muçulmana. Por isso, vão tentar mediar, para tentar algum compromisso entre as Forças Armadas e a Irmandade.

Como ficaria a questão do financiamento dos EUA aos militares egípcios, tendo em vista a restrição formal ao apoio a ditaduras?

Não é uma ditadura. As Forças Armadas não estão sendo estúpidas ao ponto de repetir o que fizeram após a queda de Mubarak, quando exerceram o poder diretamente. Pagaram um preço alto por isso, perdendo muito rapidamente a sua credibilidade. Não repetirão essa experiência, a menos que não tenham outra escolha. Estão colocando civis na frente. Vão formar um governo civil e organizar eleições o mais breve possível. Vão fazer isso, a não ser que a situação se deteriore, o que depende da atitude da Irmandade Muçulmana.

Não é uma ditadura?
É menos do que em fevereiro de 2011,
quando as Forças Armadas se tornaram governo.
Agora elas querem puxar os cordões, mas dos bastidores.

Sobre os EUA, no Congresso eles são pela democracia, desde que ela seja interessante para os interesses dos EUA. Quando a democracia traz algo mais, eles se esquecem disso. Todos os poderes do Ocidente se recusam a reconhecer o governo palestino quando o Hamas venceu as eleições em 2006. Houve hipocrisia. As potências não dirão que a Irmandade é o governo legítimo. São mais próximos das Forças Armadas do que da Irmandade. Houve uma enorme mobilização de massas, e aceitaram o papel dos militares em 2011. E estão aceitando novamente.

As Forças Armadas são a instituição mais importante no Egito?
Sim. Partidos Nunca foram importantes. A espinha dorsal do Estado são as Forças Armadas. Isso acontece desde os anos 1950. Os militares têm o principal papel no Estado e na economia, onde controlam quase um terço da economia egípcia. São donos de várias indústrias, em setores também civis, como turismo, alimentação etc. Têm dirigido o país direta ou indiretamente.

É uma herança de Gamal Nasser (1918-1970)?
Sim. É curioso como a memória é muito curta nesses movimentos de massa. Não se lembram de que há um ano estavam na rua contra as Forças Armadas.

Por quê?
Eles não têm perspectiva própria, uma estratégia para canalizar esse potencial enorme da manifestação popular para a tomada de poder. Isso seria muito revolucionário para eles. Preferem fazer isso através das Forças Armadas.

Há falta de partidos, organizações e instituições que direcionem essa enorme energia para tomar o poder?
Exatamente. Os progressistas e a esquerda são muito fracos. A única força política importante organizada é a Irmandade Muçulmana. Os progressistas não são suficientemente radicais para tomarem o risco de liderar o movimento de massas para uma tomada popular do regime. Por isso dependem das Forças Armadas para alguma coisa acontecer.

No Brasil há fortes manifestações e se fala de falta de representatividade.

Há comparação possível com Egito?
São situações radicalmente diferentes. Turquia e Brasil têm mais em comum do que o que ocorre nos países árabes. Nesses, há uma crise resultante da falta de crescimento durante muitas décadas. É um movimento muito profundo contra regimes e governos que têm falta de legitimidade.

Na Turquia e no Brasil, houve crescimento nos últimos anos e muitas conquistas. Enfrentam uma crise de desenvolvimento, não uma crise de falta de desenvolvimento. Em ambos países, ninguém discorda que os governantes foram eleitos pela maioria, que têm legitimidade. Ninguém diz que Dilma Rousseff é uma déspota. Não vejo que o que ocorre no Brasil tenha a profundidade de uma mudança radical, uma explosão como se observa no Egito. Não acho que o Brasil esteja no caminho do Egito.

O que vai acontecer no Egito?
No futuro imediato depende da posição da Irmandade Muçulmana. Ou encontram um acordo, ou, no pior cenário, poderia haver uma situação tipo argelina --quando os militares, em 1992, interromperam o processo eleitoral e houve uma guerra civil. Esse é o risco no Egito. Mas não acredito que a Irmandade fará essa escolha. O próximo capítulo se dará em torno de uma coalizão política. Mas ela não terá condições de atacar a situação social e econômica enquanto continuar seguindo as políticas neoliberais. Isso significa que ainda haverá muitos, muitos anos de instabilidade.

No início das revoltas, em 2011, caracterizei o movimento como um longo processo revolucionário. Isso está no meu último livro "The People Want, A Radical Exploration of the Arab Uprising" [O desejo do povo, uma exploração radical da primavera árabe]. Vai depender da habilidade das esquerdas, da emergência de uma alternativa radical às políticas econômicas que estão sendo implementadas na região desde os anos 1970. Inspiradas no neoliberalismo, elas levaram a esse desastre.

Em que estágio está agora a Primavera Árabe? Ela ainda existe?
Está no estágio inicial.
Essa é apenas a primeira fase de um processo que se estenderá por muitos anos.
O que disse sobre o Egito vale para toda a região.

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