domingo, 7 de julho de 2013

Brasil e Egito – Democracia de Conveniência

Ou o Voto vale ou o Voto não vale

Nos anos 70, em pleno auge da Ditadura Militar brasileira, quando estudava na FGV-SP, ao começar a atuar no Centro Acadêmico, um dos líderes perguntou-me que tipo de Democracia eu defendia. Eu prontamente respondi: Uma Democracia sem adjetivos!

Não existe meia democracia, ou a tal da democracia operária ou a democracia burguesa. Ou se aceita o voto universal onde todos têm direito de escolher livremente seus representantes ou não é democracia. É qualquer coisa, menos democracia.

Ainda na ditadura militar brasileira, eu sempre disse que não tinha medo nem de comunistas nem de fascistas. Numa democracia, ambos seriam relegados a votos minoritários e o centro seria amplamente vitorioso. A Democracia brasileira atual provou isto. Os partidos comunistas quase que não existem e os fascistas estão camuflados como DEM, PPS e outras preciosidades religiosas...

Mas o mundo está aí nos ensinando o tempo todo. Atualmente é o Egito que está pegando fogo. Tive que visitar meus pais, por motivos de saúde e aproveitei para levar dois livros para ler.

Curiosamente um era sobre o século vinte, “O Chalé da Memória” de Tony Judt, uma obra prima que comentarei em outra oportunidade. Mas o outro livro é mais antigo mas ironicamente é mais atual do que qualquer outro livro que tenho visto. É um livro que analisa “O Antigo Regime e a Revolução” Francesa de 1789 e o autor é Alexis de Tocqueville. Todo mundo deve ler. Parece que está falando do mundo atual, isto é, analisando 2013...

Voltando ao Egito e ao Brasil, leiam este bom artigo de Clovis Rossi. É a única pessoa na imprensa que está tendo coragem de abordar o assunto com seriedade. Os principais articulistas preferem o Golpe Militar e Civil no Egito à Democracia que elegeu pela primeira vez um muçulmano como presidente de um país islâmico.

No Brasil, e na imprensa, tem muita gente estimulando que também se dê um golpe, militar ou jurídico, para acabar com a hegemonia popular e voltar ao neoliberalismo onde os pobres voltarão a morar nas periferias e pararem de viajar de avião.

Clovis Rossi ainda vive e continua humanista. Pena que estamos ficando velhos...

A inaceitável caça ao islamismo


Interditar a via eleitoral a partidos islâmicos
só pode dar certo se se aceitar ditaduras

Folha – Clovis Rossi – 07/07/2013

O golpe no Egito reabriu a temporada de caça aos islamitas, do que dá prova a prisão não apenas do presidente Mohammed Mursi --presidente legítimo, é sempre bom deixar claro--, mas também de um punhado de lideranças de seu partido e da Irmandade Muçulmana, a matriz de todos os grupos islâmicos no Oriente Médio.

É não apenas condenável como cria o risco, se se estender, de marginalizar a participação político-eleitoral de mais ou menos um quarto da população mundial, a que é seguidora do islã.

No caso específico do Egito, movimentos islâmicos ficaram nos dois primeiros lugares na eleição parlamentar, a primeira democrática na história do país: o Partido Justiça e Liberdade, braço eleitoral da Irmandade, levou 43,4% dos votos, enquanto o mais radical Al-Nour recebeu 21,8% da preferência.

Portanto, dois terços dos egípcios confiam nos partidos de fundo islâmico. É verdade que o Al-Nour juntou-se aos protestos contra Mursi, mas não por discordar de seu islamismo e, sim, para aproveitar o desgaste do presidente para "tomar a dianteira junto ao segmento islamita da população", como escreve Nathan Brown, do Programa de Oriente Médio do Instituto Carnegie.

Derrubar Mursi pode ter sido festejado pelos liberais laicos que a ele se opunham, mas manter a Irmandade longe do poder só se alcançará se o Egito continuar sendo a ditadura que sempre foi, exceto nos últimos 12 meses.
Veja-se, por exemplo, a análise de Avi Issacharoff para o sítio "The Times of Israel", país que acompanha com lupa tudo o que ocorre nos vizinhos e, geralmente, tem uma percepção mais aguda do que no Ocidente mais distante:

"O movimento [a Irmandade Muçulmana] permanece o maior e mais forte corpo político no Egito. De fato, se outra eleição presidencial fosse realizada hoje, a Irmandade ainda teria a melhor chance de vencer."

Além de indecente, o golpe não resolve, como é óbvio, os problemas que minaram a gestão Mursi.
Escreve, por exemplo, Marc Lynch (George Washington University):

"Ninguém deveria celebrar um golpe militar contra o primeiro presidente egípcio livremente eleito, não importa quanto ele tenha fracassado ou quanto se odeie a Irmandade Muçulmana. Tirar Mursi do campo não chegará nem perto de enfrentar as falhas que infernizaram a catastrófica transição egípcia nos últimos dois anos e meio. A intervenção militar é uma admissão do fracasso de toda a classe política egípcia, e os que agora celebram provavelmente já sabem que eles podem logo mais arrepender-se do golpe."

Interditar o islamismo, teme o sítio geoestratégico Stratfor, pode levar grupos mais radicais "a abandonar a política convencional em favor da luta armada", como de resto aconteceu na Argélia, nos anos 90, em circunstâncias parecidas.
Tudo somado, a melhor lição do que é democracia vem justamente dos perseguidos islamitas, em editorial de seu jornal marroquino, "At Tajdid": "A história demonstra que os islamitas voltam sempre. A solução é dar aos cidadãos o direito de castigá-los ou premiá-los [nas urnas]".
crossi@uol.com.br

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