terça-feira, 9 de julho de 2013

Adib Jatene com a palavra

Boa entrevista no Estadão

Finalmente consegui achar a entrevista de Jatene no Estadão. A Editoria do Jornal é confusa, em vez de botar na chamada que Adib Jatene é o entrevistado, eles colocam uma chamada impessoal e que ninguém se interessa somente pelo título.
Não perca tempo, leia a boa entrevista da maior autoridade em Medicina no Brasil.

'Se criar as vagas com os defeitos atuais, vai ser um caos'

Ex-ministro da Saúde critica 'importação' de profissionais,

mas diz defender há anos a alteração nos cursos


09 de julho de 2013 | 2h 05

Fernanda Bassette - O Estado de S.Paulo

O cardiologista Adib Jatene, de 84 anos, ex-ministro da Saúde em 1992 e de 1995 a1996, diz em entrevista ao Estado que não faltam médicos e critica a "importação"de profissionais estrangeiros sem fazer a devida revalidação do diploma. Mas diz que, para o Brasil conseguir manter médicos nas regiões mais remotas, é preciso fazer uma mudança profunda no ensino médico nos moldes da proposta apresentada pelo ministro Alexandre Padilha.

Para suprir a carência de médicos em áreas distantes, o Ministério da Saúde vai anunciar a abertura de 11,4 mil novas vagas de Medicina. Qual sua avaliação?

Adib Jatene - Em 1996, nós tínhamos 82 faculdades de Medicina e graduávamos entre 7 mil e 9 mil médicos por ano. Hoje nós temos 201 faculdades de Medicina e graduamos mais de 18 mil médicos. De 1808 a 1996, criamos 82 faculdades, enquanto de 1996 a 2012 criamos mais de 100. Tem alguma coisa errada aí. E agora o governo quer criar mais 11,4 mil vagas. Não é razoável, é um despropósito. Se você criar essas vagas com os defeitos atuais, vai ser um caos. Uma situação complexa como essa não se resolve com medidas simples. Se o Brasil passou de menos de 9 mil formandos para mais de 18 mil e apesar disso não consegue distribuir os médicos para o interior, não é o número o problema.

Quais os problemas que dificultam a distribuição de médicos?

Adib Jatene - São as condições para o exercício da Medicina. Onde tem hospital, tem médico. Onde não tem hospital, não tem médico. Para você ter uma ideia, em 1999 fiz um levantamento de leitos hospitalares na cidade de São Paulo. Nos 25 melhores distritos da cidade (Vila Mariana, Jardim Paulista, Ipiranga, Jabaquara, Mooca) tínhamos uma média de 13 leitos para cada 1 mil habitantes. Nesses 25 distritos moravam 1,8 milhão de pessoas. O índice aceitável de leitos para cada mil habitantes é de 3, 3,5. Nos 71 outros distritos da capital, onde viviam 8 milhões de pessoas, tínhamos 0,6 leito para cada 1 mil habitantes. Para chegar a 2 leitos, o mínimo do mínimo, ainda faltava 1,4 leito.

E por que não se constroem hospitais em lugares distantes?
Adib Jatene - Porque o que o SUS remunera não cobre os custos.

Qual a avaliação do senhor sobre o programa do Ministério da Saúde de trazer médicos estrangeiros para atuar em locais distantes?
Adib Jatene - Não sou contra, desde que passem pela prova de revalidação do diploma. É lei.

Mas o argumento do ministério é que, se for feita a revalidação, o médico estrangeiro poderá atuar em qualquer região.

Adib Jatene - Isso não tem sentido. Se você fizer um contrato para um determinado serviço em determinado local, ele tem de cumprir. Nesses lugares em que há problemas de infraestrutura, dificilmente você fixará um médico que já tem família. Esses lugares são para médicos jovens, que deveriam se formar para atender as pessoas. Isso significa fazer uma reforma profunda no ensino médico.

Hoje formamos médicos candidatos à residência médica - que formam especialistas - e esses médicos não vão atender essas pessoas. Estamos formando médicos para serem especialistas, tanto que eles fazem até cursinhos para a residência, e precisamos de médicos para atender a população sem necessariamente ter de usar a tecnologia.

O Ministério da Saúde propõe agora uma formação complementar atuando em urgência e emergência por dois anos.
Adib Jatene - Essa é a minha proposta. Se a formação complementar for feita, teremos 18 mil candidatos a ir às periferias em 1 ano.

Por que essa formação complementar seria focada em urgência e emergência?
Adib Jatene - Porque o médico tem de saber atender emergência. O que queremos de um médico? Que ele saiba diagnosticar o que você está sentindo. Que ele saiba analisar a sua dor, a febre, sem precisar de tecnologia.

Mas isso já não é parte da formação médica atual?

Adib Jatene - Teoricamente, sim, e já foi assim um dia. Quando eu me formei, em 1953, você saía da faculdade e ia clinicar. Mas a tecnologia distorceu o problema. Hoje é preciso fazer exames para diagnosticar. Esses exames deveriam ser feitos por médicos especialistas que atenderiam, no máximo, 20% dos pacientes que procuram atendimento. A formação médica tem de ser generalista e os nossos médicos não são preparados para isso.

Então o que é preciso fazer para que isso aconteça?

Adib Jatene - Se você quer acertar a situação, você precisa investir na formação para que esse profissional vá trabalhar 2 anos no atendimento básico da população do Estado em que se formou. Temos faculdades de Medicina em todos os Estados. Todos. Só que os médicos se formam e não ficam lá, eles vêm fazer residência no Sul e no Sudeste. Com isso você não melhora o ensino. Tenho proposto essa formação complementar ao Ministério da Saúde há pelo menos 4 anos.

Os médicos defendem uma carreira estatal, similar à de juízes, como garantia de que vão trabalhar no interior. Não daria certo?

Adib Jatene - Essa é uma maneira de discutir o problema, mas carreira estatal não tem nada a ver com Medicina. Não dá para comparar carreira de juiz com carreira de Medicina. Além disso, o País não tem condições de criar a carreira que os médicos pretendem por um simples motivo: não tem dinheiro.

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