domingo, 21 de abril de 2013

Três olhares americanos do Brasil

Como a experiência americana pode ajudar o Brasil?

Os jornais de ontem e de hoje, isto é, sábado e domingo, estão confusos. Ontem faltaram os dois principais cadernos do Estadão, o caderno de Economia e o caderno Sabático. Hoje a Folha veio com três cadernos repetidos, como se estivessem compensando a ausência dos cadernos do Estadão de ontem. Um dos motivos desta confusão é que o entregador dos dois jornais é a mesma pessoa e, de vez em quando, ele coloca os dois jornais no mesmo saco.

Mas os dois jornais estão ficando muito parecidos. Tem dias que as manchetes e as fotos são iguais. Ou é culpa da internet que antecipa tudo ou é falta de criatividade dos editores de capa.

E o que isto tem a ver com os três olhares americanos do Brasil?

Porque a Folha trás três matérias que são escritas por pessoas que viveram ou vivem nos Estados Unidos e que, ao escreverem trazem também um pouco do modo de vida americano, o antigo “American Way of Life”.

Vejam como são boas contribuições:

1 – A modernização da Imprensa.

Morre fundador do jornal mais popular dos EUA


Al Neuharth apostou com o USA Today na concisão e em formato amigável ao leitor.

“Quando eu digo que os dois jornais – Folha e Estadão – estão cada vez mais parecidos, agora, por exemplo, a Folha na internet está parecendo o Estadão: a matéria acima não aparece no site do jornal. Nem no caderno Mundo, nem em Economia. Simplesmente não aparece. O Estadão de vez em quando faz a mesma coisa, só que com mais frequencia.”

Vou datilografar parte da matéria, pela relevância do assunto.

Neuharth influenciou o jornalismo impresso mundial ao apostar, com o USA Today, fundado em 1982, em um formato editorial voltado para a concisão de texto, gráficos chamativos, fotos coloridas e reportagens “LEVES”.

Com esta fórmula, em contraste com o formato então corrente de longas reportagens e páginas cinzas, o USA Today tornou-se o maior jornal de circulação nos EUA (1,8 milhão de exemplares por dia, segundo o diário).

Nota do blog:


Realmente este novo modelo foi decisivo e mudou a imprensa. A Folha copiou o modelo para o Brasil e deu muito certo jornalistica e economicamente. Mas o jornal não precisava forçar a mão na política. Poderia manter a mesma linha também na politica nacional, sem precisar “virar aparelho do neoliberalismo”. Quem sabe o jornal recupere também sua qualidade política.


2 – Henrique Meirelles enfrentou os Atentados e o Medo


Vejam que bom texto apresentado pelo ex-presidente do Banco de Boston no Brasil e também ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Boston contra o medo

Estava em reunião em Boston, em 2001, quando assisti pela TV aos ataques terroristas do 11 de Setembro.
Como a instituição que dirigia à época nos EUA tinha operação enorme em Nova York, inclusive diante das Torres Gêmeas, fui para lá imediatamente tomar providências e apoiar os funcionários.

Num primeiro momento, a economia local parou. Restaurantes estavam vazios, empresas perdiam clientes e grandes instituições de Wall Street pensavam em sair dali.
Eram prenúncios de decadência urbana com consequências para a economia regional, americana e global. Como membro de duas grandes ONGs que lideravam o esforço comunitário de revitalização de Nova York, participei de reuniões e ações para re-verter a tendência.

O primeiro movimento importante foi o aparato policial e as autoridades, na mídia, assumindo a responsabilidade pela segurança e transmitindo a sensação de que havia pessoas capazes tomando providências, o que reduziu a sensação de desamparo. O segundo foi a decisão de organizações e pessoas de enfrentar o medo e as razões do medo e mostrar confiança na recuperação.

O pilar desse processo foi o senso de comunidade e solidariedade não só às vitimas e familiares, mas à cidade, com a consciência de que atitudes individualistas levariam à decadência de Nova York e ao prejuízo de todos.
Foi fundamental a demonstração inequívoca de que as causas da insegurança estavam sendo resolvidas. Desse movimento participaram profissionais da imprensa, da cultura, dos negócios, do terceiro setor, todos mobilizados contra o maior problema: o medo.

A grande conquista do ato terrorista, mais que a destruição, é o medo. Ele cria disfunção na sociedade e gera atitudes defensivas destrutivas.
Mas, assim como o medo é contagioso, também o são a coragem, o enfrentamento do medo e o impulso de combater o risco. Isso foi fundamental na recuperação total e inspiradora de Nova York.

O mesmo medo e reação solidária vemos agora em Boston, onde estudei, trabalhei e participo de conselhos acadêmicos de universidades. Uma das características da cidade é justamente o forte senso comunitário.

Nós, que trabalhamos na recuperação das áreas centrais de São Paulo,
que enfrentamos os problemas e a violência das grandes cidades brasileiras, podemos olhar para Nova York, Boston e também para a Europa e o Oriente Médio para tirar lições do enfrentamento não só do medo, mas, principalmente, das razões do medo.
Para isso, é fundamental a ação das autoridades --a demonstração clara de que estão enfrentando os problemas-- e, principalmente, a mobilização da comunidade.


3 – Partidos Políticos que pouco representam


Vinicius Torres Freire escreve regularmente no caderno Mercado da Folha, mas poderia muito bem escrever no caderno de política, chamado na Folha de Poder.

Vejam que bom testo sobre nossa degenerada representação partidária.

Picadinho de partidos


Partidos 'maiores' estão cada vez menores, novas legendas estão no forno e tucanos podem ser fatiados
A DECISÃO judicial que na prática proibiu o troca-troca partidário, em 2007, acabou por incentivar a criação de mais partidos. A fragmentação vinha de antes e foi influenciada pelas vitórias do PT, mas ganhou impulso desde então.
Além de vítima de seu reacionarismo, o DEM foi fatiado na cozinha do picadinho partidário. O DEM é o velho PFL, que em 2007 passou maquiagem para tentar esconder suas rugas de coronel velho.

Entre 1994 e 2002, o PFL fez em média 92 deputados federais por eleição. Em 2006, elegeu apenas 65 deputados, muitos dos quais migraram para partidos da boquinha (coalizão governista). Em 2013, sangrado pelo PSD criptogovernista de Gilberto Kassab, o PFL-DEM tem 43 cadeiras na Câmara.
O PSDB corre risco semelhante ao do compadre DEM. Está cada vez mais reacionário, sem quadros e sem programa. Pode ser amputado pela máquina de fragmentação partidária.

Os tucanos nunca foram tão exuberantes quanto os pefelês, mas fizeram em média 77 deputados entre 1994 e 2002. Agora, estão com 53.
Podem levar uma facada se José Serra aderir à Mobilização Democrática, MD, mistura do PPS com o nanico PMN. Podem levar um talho menorzinho se Marina Silva fundar de fato sua "Rede".

O número de cadeiras da Câmara controladas pelos quatro maiores partidos decresce desde 1998. A fatia dos 6 ou 8 maiores partidos também cai. Os deputados mais e mais migram para a periferia partidária.
É uma hipótese razoável dizer que isso tem a ver com três vitórias seguidas do PT. Os deputados pulam do barco dos partidos oposicionistas para barquinhos agregados ao governismo, pois não têm jeito ou gosto de petistas.

Trata-se do arroz com feijão da política partidária do Brasil. A decisão do TSE que na prática proibiu a troca de partidos em 2007 criou um incentivo para a criação de legendas. Para mudar de partido sem perder o mandato, basta criar um novo.

Ainda assim, a explicação é insuficiente.


Por que antes de 2007 os deputados não migravam para o PMDB, o veículo maior e tradicional do adesismo? O PMDB é o partido grande mais estável do país. Mais inflado, seu apoio sairia mais caro. Por que o PMDB é incapaz de organizar até um programa tão oportunista quanto esse?

Por que nenhum partido maior é incapaz de manter ou incorporar um movimento político mais novo (ou menos velho) como o de Marina Silva (verdes, sustentáveis e outros)?

Por que gente politicamente tão parecida ou sem gosto quanto Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), ou até Kassab (PSD, ex-DEM-PFL), não está no mesmo partido?

Sim, o início das histórias políticas de Aécio, Campos e Kassab foi bem diferente. Hoje em dia, são a mesma farinha em sacos diferentes. Sim, são de regiões diferentes, o que faz muita diferença no Brasil. Sim, são caciques que precisam de carro próprio para suas candidaturas vazias de ideias.

Sim, o custo de ter um partido para chamar de seu é menor do que organizar a disputa interna em um partido maior.
Sai barato fazer salada partidária. Que sociedade é essa em que isso é possível?

Enfim, faria diferença se os partidos fossem estáveis?



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