terça-feira, 19 de março de 2013

Dentro e Fora da História

O dever do historiador

Eric Hobsbawm, apresentou um ensaio como conferência inaugural do ano acadêmico de 1993-4 na Universidade da Europa Central em Budapeste a um grupo de estudantes basicamente oriundos de ex-países comunistas da Europa e da antiga URSS e depois publicou no New York Review of Books, de 16 de dezembro de 1994.

Este ensaio está publicado no livro "Sobre História",
autoria de Eric Hobsbawm
e publicado pela Companhia de Bolso, em 2013.

No final do ensaio, Hobsbawm conta a seguinte história
sobre o que ele acha que deve ser...

O DEVER DOS HISTORIADORES


“Como estudantes desta universidade, vocês são pessoas privilegiadas. As perspectivas sâo as de que, como bacharéis de um instituto conhecido e prestigiado<, irão obter, se assim escolherem, uma ótima condição na sociedade, carreiras melhores e ganhos maiores que os de outras pessoas, embora não tanto quanto os de prósperos homens de negócios. O que eu quero lembrar a vocês é algo que me disseram quando comecei a lecionar em uma universidade. “As pessoas em função das quais você está lá”, disse meu próprio professor, “não são estudantes brilhantes como você. São estudantes comuns com opiniões maçantes, que obtêm graus medíocres na faixa inferior das notas baixas, e cujas respostas nos exames são quase iguais. Os que obtêm as melhores notas cuidarão de si mesmos, ainda que seja para eles que você gostará de lecionar. Os outros são os únicos que precisam de você.”
Isso não vale apenas para a universidade, mas para o mundo.


Os governos, o sistema econômico, as escolas, tudo na sociedade não se destina ao benefício das minorias privilegiadas. Nós podemos cuidar de nós mesmos.

É para o benefício da grande maioria das pessoas, que não são particularmente inteligentes ou interessantes (a menos que, naturalmente, nos apaixonemos por uma delas), não têm um grau elevado de instrução, não são prósperas ou realmente fadadas ao sucesso, não são nada de muito especial.

É para as pessoas que, ao longo da história, fora de seu bairro, apenas têm entrado para a história como indivíduos nos registro de nascimento, casamento e morte. Toda sociedade na qual valha a pena viver é uma sociedade que se destina a elas, e não aos ricos, inteligentes e excepcionais, embora toda sociedade em que valha a pena viver deva garantir espaço e propósito para tais minorias.

Mas o mundo não é feito para o nosso benefício pessoal, e tampouco estampo no mundo para nosso benefício pessoal. Um mundo que afirme ser esse seu propósito não é bom e não deve ser duradouro.”

Nota do blog:


No mundo atual,
- quando vemos a pressão do sistema financeiro para reduzir ou acabar o Estado do Bem Estar Social e implantar o neoliberalismo,
- quando vemos a imprensa insistir que os governos devam usar apenas critérios de “meritocracia”, mesmo que isto signifique excluir a maioria da população da estrutura do Estado,
- voltar a ler os escritos de Hobsbawm é um alento para manter as esperanças na Vida e na História.

Hobsbawm, juntamente com Cartier Bresson e muitos outros, viveram e retrataram o Século XX.
Precisamos começar a construir o Século XXI, a partir destes personagens que semearam para um mundo melhor...


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