domingo, 3 de março de 2013

Democracia – Para que serve?

A perda da autoridade leva a mudanças

Até Gilles Lapouge, que mora na França, mas não é de esquerda, reconhece que os ricos estão passando do limite. Acontece que, pior do que os ricos passarem do limite, são os governos democráticos perderem a autoridade e a capacidade de legislar sobre os ricos.

Quando os governos perdem a autoridade, abrem caminhos para mudanças, para o bem ou para o mal. Geralmente, no primeiro momento é mais para o mal, só depois de muito sofrimento é que as sociedades resolvem fazer um novo pacto de governabilidade. Foi assim no Império Romano, também na Inglaterra depois da guerra civil de Crommwel, na França com a Revolução de 1789, na Rússia com a Revolução Comunista, nos Estados Unidos com a guerra civil e na Europa depois da segunda guerra mundial.

Agora, depois da guerra fria e da vitória do capitalismo sobre o comunismo stalinista, o mundo precisa de um novo pacto de governabilidade onde os pobres voltem a ser protegidos da ganância das grandes empresas e dos estados autoritários.

É preciso por limite nos bônus dos dirigentes das empresas, mas é preciso botar limite também nas próprias empresas. Elas não podem ser maior do que os Estados. Caso contrário, o povo vai voltar a botar fogo nos ricos. E não adiantará botar a culpa na barbárie.

A barbárie começa com o desemprego e a fome,
depois, ninguém sabe como acaba.
Até a Suiça já está preocupada. Veja este texto do Estadão:

Fogo nos ricos!

Referendo na Suíça quer 'moralizar' valor das fortunas
e bônus pagos aos executivos das empresas do país

01 de março de 2013 | 2h 09 - Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo

A crise que continua exaurindo a Europa enche provavelmente os bolsos dos ricos, mas não os torna bem-vistos. São as regras da guerra: a cada dia aumentam as multidões dos sem-teto, dos desempregados, dos pedintes obrigados a pedir comida na "sopa dos pobres", nos restaurantes populares ou no Exército de Salvação. E, ao mesmo tempo, as seções econômicas dos jornais informam que a renda dos grandes empresários jamais conhecera tamanha euforia.

Em geral, a revolta contra as remunerações exageradas dos CEOs brota da esquerda ou nos países particularmente castigados pela crise. Na França, o presidente François Hollande, por ser socialista, tentou limitar o apetite dos ricos, mas timidamente e sem grande sucesso.

Enquanto isso, os sindicatos de esquerda não se cansam de exigir que as fortunas sejam investigadas.

Entretanto, hoje em dia, as críticas mais violentas contra os ricos surgem em um outro lugar, num país em que os pobres podem ser contados nos dedos da mão e onde os ricos pululam: a Suíça, símbolo do capitalismo e da finança internacional.

Um pequeno empreendedor suíço, Thomas Minder, acaba de acionar o procedimento do referendo (o referendo é uma originalidade suíça que permite a um cidadão submeter à aprovação de todos os suíços, certos projetos de reforma). Thomas Minder, escandalizado com as fortunas e os bônus que os CEOs se atribuem, decidiu submeter a todos os seus compatriotas um projeto que visa a moralizar essas práticas.

Imediatamente, a Economiesuisse, a Federação das Indústrias Suíças, soou o alarme e garantiu que "a pátria está em perigo". Os patrões urraram. E afirmaram que esse referendo tem o objetivo de emascular os empresários, reduzi-los à miséria, e, consequentemente, acabar com a economia suíça.

Entretanto, apesar da cólera da classe empresarial suíça,
parece que o povo suíço se prepara para ratificar a reforma "contra os ricos".

Pesquisas de opinião divulgadas no dia 26 de fevereiro mostraram que 64% dos cidadãos deverão aprovar a reforma de Thomas Minder, enquanto apenas 27% se colocaram do lado dos ricos e a rejeitaram.

É preciso dizer que a lista de lucros acumulados pelos patrões é algo chocante, neste paraíso capitalista que é a Suíça. Um negócio concluído recentemente acaba de lembrar cruamente esse fato. O grupo farmacêutico Novartis anunciou que pagará ao seu presidente, Daniel Vasella, que deixa a companhia, a soma de 74 milhões de francos suíços ( 59 milhões).

Por que motivo? Para se assegurar de que Vasella, que está saindo da Novartis, não se venda à concorrência.

* Gilles Lapouge é correspondente do Estadão em Paris.
TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA.

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