sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sergio Augusto escreve muito bem

Leiam esta crônica de hoje

Todo sábado, quando recebo o Estadão e vou ver o caderno Sabático, sempre tem uma crônica de Sergio Augusto. Leio a maioria delas e sempre fico com certa tristeza por que me dou conta de que não o conheço bem. Mas é sempre uma alegria ler os textos deles.

Acho que o Estadão deveria fazer uma boa reportagem sobre Sérgio Augusto.
Ele também pode ser uma boa notícia.

Vejam que boa crônica...

Quanto mais curto, melhor

23 de fevereiro de 2013 | 2h 00 - Sérgio Augusto - Estadão

Passei anos crente que fora James Dean quem nos aconselhara a partir desta sem rugas. Há dias descobri que o adágio "Morra jovem e seja um belo cadáver" foi afanado pelo ator de um filme de Nicholas Ray, O Crime Não Compensa (Knock On Any Door), e que Willard Motley, autor do romance que serviu de base ao filme, por sua vez o furtara de uma obscura peça encenada na Broadway nos anos 1920.

Devo essa a um sujeito chamado Garson O’Toole, criador e maestro do site Quoteinvestigator.com, tira-teima eletrônico cujo logo, uma silhueta de Sherlock Holmes, me dispensa de detalhar suas atividades. Há outros meios de esclarecer quem na verdade disse o quê, quando e em que circunstâncias, mas o site de O’Toole me parece o mais confiável porque o mais exaustivo em suas pesquisas.

Na era analógica, eu me virava com a dupla Paul E. Boller-John H. George, obstinados rastreadores de falsas citações e atribuições equivocadas que há um quarto de século publicaram um livro deliciosamente instrutivo, They Never Said It (Eles Nunca Disseram Isso), com o melhor de suas apurações. Ok, cultura inútil, mas quanta utilidade!

Não acho inútil, nem sequer irrelevante, saber, por exemplo, que Galileu nunca disse "Eppur si muove" e que não foi Goering o primeiro a prometer puxar uma arma ao ouvir a palavra cultura. O lendário bordão heliocêntrico de Galileu saiu da imaginação de um escritor francês, um século depois da morte do cientista italiano. E o chocante repto celebrizado pelo fundador da Gestapo - "Quando ouço falar em cultura, puxo logo o revólver" - surgiu num drama teatral de Hans Johst, encenado em Berlim no ano em que o nazismo chegou ao poder.

Uma das últimas revelações de O’Toole pôs em xeque uma folclórica bravata literária de Ernest Hemingway. Reza a lenda que, durante um almoço com outros escritores num restaurante nova-iorquino, Hemingway gabou-se do poder de concisão de sua prosa e jurou ser capaz de escrever uma história usando apenas seis palavras; empatou com Hemingway. A fanfarrice derivou para uma aposta com todos os presentes, dez dólares por cabeça. Aceito o desafio, Hemingway escreveu num guardanapo:

"For sale, baby shoes, never worn". (Vendo: sapatinhos de bebê, nunca usados.)

Sob a forma de anúncio de jornal, um microconto sobre a tragédia de uma mãe que perdera o filho durante o parto. Hemingway limpou os dólares da mesa.

Se o episódio de fato ocorreu, às principais biografias do escritor não chegou. Isso não anula sua veracidade, mas, conforme apurou o Quoteinvestigator.com, Hemingway blefou. Teria plagiado o reclame de um carrinho de bebê nunca usado ("For sale, baby carriage, never used") posto à venda em 1910, tema, sete anos depois, de um artigo de William R. Kane para um jornal dirigido ao mercado editorial, que o escritor provavelmente leu. Como ideias literárias são de quem pegar primeiro, que nem samba e passarinho, não há porque condenar a esperteza (e a rapidez) de Hemingway.
Ao pôr à venda os sapatinhos de um bebê que não viveu para calçá-los, Hemingway entrou para os anais da micronarrativa.

Território nobre o das micronarrativas. Já as vi também batizadas de microrrelatos, contículos, ficções relâmpagos, haicais em prosa. É uma fina arte pigmeia, um bonsai literário, com praticantes até em línguas que não entendo. E defensores avant la lettre, como o pensador setecentista espanhol Baltasar Gracián, mestre de Voltaire, Nietzsche, Schopenhauer e La Rochefoucauld. Foi Gracián quem disse que o que é bom só tende a melhorar depois de uma boa poda: "Lo bueno, si breve, dos veces bueno".

Quiçá estimulados por Gracián, os escritores de língua espanhola excedem na prosa miniaturista, geralmente epigramática e irônica. Meus favoritos, infelizmente, já morreram: um há dez anos, o outro há cinquenta. O morto mais antigo, Ramón Gómez de la Serna, madrilenho de nascença e bonairense de adoção (como tantos outros foragidos do franquismo), foi um precursor do gênero e, com suas primeiras greguerías lançadas em 1917, um prógono do surrealismo.

Pensamentos metafóricos e sintéticos, expressos de forma original e com surreal gosto pelo contraditório, greguerías parecem mas não são, genuinamente, aforismos. Três exemplos: "O z é um sete que vai à missa"; "As andorinhas são pássaros vestidos com grife"; "Tentei suicídio, e quase me matei". Há quatro anos, a editora Amauta lançou uma antologia delas, ainda à venda. Ramón (era assim que preferia ser chamado) dizia-se herdeiro de Luciano de Samosata, Horácio, Lope de Vega, Quevedo e Jules Renard, e não viveu o bastante para testemunhar a consagração de seu mais fulgurante sucessor, Augusto Monterroso, o outro morto a quem me referi no parágrafo anterior.

Hondurenho de nascença, guatemalteco de criação e mexicano de adoção (como tantos outros foragidos da ditadura militar que derrubou o governo Arbenz, em 1954), Monterroso construiu seu prestígio internacional com este fenômeno de brevidade e concisão narrativa: "Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá". Seis palavras; empatou com Hemingway. Monterroso, que Carlos Fuentes considerava a mistura perfeita de Jonathan Swift com James Thurber, recusava-se a iluminar o laconismo de seu microconto. Que cada leitor imaginasse o que bem entendesse.

Uns nele viram uma paráfrase do Gênese. Em paráfrase vale tudo, inclusive dinossauros, que, como é sabido, só conviveram com o ser humano no cinema, daí minha suspeita de que Monterroso se inspirou em filmes como O Despertar do Mundo e Zaroff, O Caçador de Vidas. Mas também é possível que não se trate de um Adão a despertar, e sim de outro animal pré-histórico, do sexo masculino.

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