sábado, 2 de fevereiro de 2013

Juca Ferreira, São Paulo e a Identidade Nacional

São Paulo será nossa Nova York?

Por incrível que pareça, a melhor entrevista dada até agora por alguém do governo Haddad foi esta coletiva de Juca Ferreira, tanto no Estadão como na Folha. Vou reproduzir grande parte da entrevista do Estadão por que está mais abrangente. Vale a pena ler.

Curiosamente a entrevista ganha mais destaque por que Haddad foi acusado de ter importado um baiano para a cultura. Talvez o fato de Juca ser baiano, ex-ministro e ter morado na Europa faça com que ele seja “cidadão do mundo”, e não do PSDB ou do PT, ou ainda do PV, seu partido de origem.

São Paulo tem tudo para estar na Agenda Cultural Mundial,
respeitando suas características e sua diversidade cultural.

O símbolo mais marcante do NOVO na prefeitura de São Paulo
está vindo exatamente da CULTURA. Ainda bem!

Vejam a entrevista maravilhosa de Juca Ferreira,
nosso NOVO Secretário da Cultura:

A largada de Juca


Secretário de Cultura fala sobre busca por políticas de investimento, hip hop e planos para o Municipal

Estadão - Sábado, 02 de Fevereiro de 2013, Ernesto Rodrigues/AE

Secretário defende um novo protagonismo para hip-hop e para o carnaval de rua

Jotabê Medeiros, de O Estado de S.Paulo

"Haddad precisa importar um baiano?" A pergunta no título da coluna de um jornalista paulistano provocou polêmica quando o novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, anunciou o nome do seu secretário Municipal de Cultura, Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura do governo Lula. Na tarde da última quinta-feira, dia em que festejava 64 anos, Ferreira falou à reportagem do Estado em seu novo gabinete na Avenida São João.
Tinha acabado de receber o jornalista autor do artigo, para discutir apoios a programas de sua ONG. É um retrato de sua nova disposição: tem se dedicado a abrir diálogos em todas as direções, segundo conta nesta conversa, em que trata de temas como a nomeação do maestro John Neschling para a direção do Teatro Municipal de São Paulo e modificações na Lei de Fomento.

O novo secretário disse ainda que esteve com representantes da moda paulistana, estuda trazer ateliês para o centro da cidade e até discutiu a possibilidade de fazer uma São Paulo Fashion Week inteira no local, em espaço público. Já na terça, inaugura um programa que batizou, parafraseando o rapper Criolo, de Existe Diálogo em SP, uma audiência pública aberta a todos os produtores, artistas e criadores que queiram participar e lhe fazer perguntas na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo. Quer repetir esses encontros durante toda a sua gestão.

Por que o senhor aceitou esse cargo, após ser ministro da Cultura? Qual é o desafio?

O desafio aqui é enorme. É quase do tamanho do ministério. São Paulo é a terceira maior cidade do mundo, com uma complexidade enorme, muita coisa para ser feita, uma cidade que tem uma contemporaneidade cultural em parte ainda não reconhecida pela própria cidade. É diferente, mas está dentro do mesmo campo de colocar a questão cultural como uma peça importante desse momento que o Brasil vive, tornando-se a quinta potência econômica. O desenvolvimento cultural é parte disso, eu tenho certeza.

São Paulo tem um histórico de desigualdade na distribuição de cultura. Como resolver isso?

É, isso dá para ver no mapa dos equipamentos culturais públicos, estão muito concentrados. Isso aí é uma grande tarefa, garantir uma maior equidade no acesso à cultura, na realização do direito cultural de acesso pleno. O Estado tem obrigação de dispor os meios para que qualquer pessoa tenha acesso pleno à cultura. Se o Estado não faz isso, as pessoas dependem do poder aquisitivo, do crivo do mercado, e isso gera uma desigualdade profunda, uma impossibilidade de consolidar essa inclusão que o Brasil está vivendo.

No Ministério da Cultura, o seu foco era mais filosófico. Aqui, o senhor diz que há uma questão mais premente.


Não, não era filosófico. O problema era que, quando chegamos ao ministério, aquilo era um deserto. No início, a Funarte foi importante, e depois minguou. E o ministério não foi capaz de representar esse momento grandioso que o Brasil está vivendo, consolidando a democracia, crescendo. Nós tivemos de criar mecanismos contemporâneos de regulação da atividade cultural, disponibilizar os bens de serviços culturais e os recursos públicos.

A dimensão filosófica era também uma demanda prática. Aqui, primeiro, eu encontro um ambiente bem mais favorável. Existem ausências, necessidade de mudanças em muitos aspectos, mas também muita coisa boa, positiva, da gestão anterior, de Carlos Augusto Calil, mas também das gestões da Marta (Suplicy) e da Erundina.
Eu pretendo mobilizar a área artística para modificar as leis de fomento, mas há leis de fomento que cumprem papel importante, como a Lei do Teatro. A secretaria tem em torno de 200 equipamentos, entre bibliotecas, teatros. O Calil investiu muito em dar um trato, melhorar as obras, construiu a Praça das Artes, está em construção o Centro Cultural de Cidade Tiradentes. Tudo isso cria um compromisso inevitável de, para quem chega, dar continuidade.

O perfil que fica, do Calil, não seria um pouco de elite?
Ele investiu R$ 170 milhões na Praça das Artes e na reforma do Teatro Municipal.
Como conciliar isso?


Eu não vejo por aí. Tem o Centro Cultural de Cidade Tiradentes, que é do Calil,
um equipamento para uma área periférica da cidade, um equipamento de primeira qualidade.

Mas é suficiente? Mesmo a política cultural da Marta também focou muito no consumo cultural da elite.

Não, há os CEUs, que são uma referência hoje no Brasil. Sinto que preciso ultrapassar em muito os equipamentos, desenvolver as políticas culturais. E sinto a necessidade de diálogo. Sinto não: estou sendo demandado para dialogar. Vêm me dizer: "A nossa expectativa é que você represente o diálogo cultural na cidade". Eu vou fazer isso. Também pretendo criar uma política de eventos, grandes, médios e pequenos.

Que tipo de evento?

Todo tipo. Por exemplo: São Paulo é a cidade mais nordestina do Brasil. A maior quantidade de nordestinos está aqui, a maior quantidade de negros está aqui. Por que não comemorar o São João na cidade de São Paulo? Por que não reverenciar Luiz Gonzaga? São Paulo tem uma vocação de potencializar esses fenômenos do Brasil inteiro. Uma política pode ressaltar esses aspectos. Tem uma vocação para a arte contemporânea muito forte, que às vezes não reconhece.

Recentemente, houve a renovação do comodato do Masp.

E o secretário Calil, pela primeira vez, impôs condições ao museu. O senhor vai mantê-las?

Eu sei que parte das exigências foi feita no sentido de abrir mais as atividades. Eu não examinei ainda o caso do Masp, mas quero estabelecer cooperação com todas as instituições culturais, públicas e privadas. Já fui visitar o secretário de Estado da Cultura, Marcelo Araujo, com quem tenho muito boas relações.
Já fui visitar a Marta, que eu não conhecia pessoalmente. E foi uma grata surpresa, a qualidade do tratamento que ela está dando ao ministério. Ela aceitou todo o patrimônio de nossa ação lá como um patrimônio público, que precisava ter continuidade. E não teve nenhum medo de, a partir daí, inventar o que precisa ser inventado, retificar o que porventura precise ser retificado. Foi uma atitude corajosa.

O senhor está falando de uma maneira mais prática e menos política do que na fase ministerial.
Acho que a única coisa que pode ser interpretada como um ato de provocação política é a vinda do John Neschling para o Teatro Municipal.

Não é. Eu não iria entregar o Municipal para um maestro como um gesto de provocação. Neschling é um dos mais vocacionados para dirigir uma orquestra. Pouco importam as dificuldades e os conflitos que ele teve com a vida política daqui. Mas estou sendo até mais político.

Porque a política não se realiza só através do conflito partidário.

Pelo contrário, essa é uma dimensão que só pode ser entendida dentro daquilo que esse conflito representa. Discutir uma possibilidade de ampliar a inclusão social através da cultura, independentemente do poder aquisitivo, é uma dimensão política. Garantir a qualidade estética e a diversidade cultural, incluindo até segmentos que são discriminados, é um ato político.
Por exemplo: eu me ofereci voluntariamente para ser o secretário que vai restaurar o carnaval de rua em São Paulo. Existe há muito tempo, tem crescido muito, e ainda se apanha da polícia.
Quais são as suas primeiras ideias para o dinamismo cultural da cidade de São Paulo?

Vamos tentar políticas novas, que nunca foram pensadas em nenhuma parte do mundo. Por exemplo: uma política cultural para a noite. São Paulo tem uma identidade muito ligada ao trabalho, e ao trabalho visto a partir da ótica dos donos dos meios de produção. Dormir cedo para no dia seguinte ir trabalhar cedo.

Ao mesmo tempo, tem a maior noite do mundo. Na minha despedida em Madri, dois diplomatas que servem em Nova York me disseram que uma moda nova entre nova-iorquinos é vir para cá nos feriados prolongados curtir a noite e a diversidade gastronômica de São Paulo. A cidade tem um potencial que pode ser desenvolvido nessas áreas: a noite, a culinária, a música, os espetáculos.

A Virada é um sucesso a que eu pretendo dar continuidade. Ela não é elitista, permite que a cidade viva uma realidade que as cidades brasileiras que têm praia já vivem, que é a possibilidade de estar no mesmo lugar o pobre, o rico, o cara da periferia, o de poder aquisitivo maior.


São Paulo tem um mercado de show biz que é atualmente o maior da América Latina.
Mas se queixa de não ter estrutura suficiente para abrigar esses shows.

É preciso estar atento para essa questão dos grandes espetáculos. Acho que a vocação de São Paulo não é só importar espetáculos da indústria cultural mundial: Madonna, Lady Gaga, essas coisas.
Primeiro, é uma cidade que tem o que mostrar, que produz seus próprios espetáculos. E é parte do Brasil, pode polarizar o que há de música, cinema, teatro. Tem a Mostra de Cinema de São Paulo, que é importantíssima. A gente pode ajudar que essa mostra cresça ainda mais.

O poder público pode criar linhas de financiamento, como em outras áreas, para desenvolver essas atividades. A moda, por exemplo, não é só o evento, é uma indústria. O cinema paulistano pode receber aportes. Formar gestores, técnicos, artísticos. E estimular mais que as atividades se relacionem com as bilheterias, seja no cinema, seja no teatro. Levar as pessoas às salas. Ficaram muito insignificantes as plateias, e você acaba perdendo o vínculo entre a arte e o seu público.

No momento, São Paulo está se apaixonando por São Paulo. As pessoas estão descobrindo a cidade, não só as pessoas daqui como as de fora. Eu dei um azar, que é ter um orçamento menor em cerca de uma década.

O senhor acredita na cooperação entre o Estado e a prefeitura nessa sua caminhada?


A gente deve compreender que a cultura não pode ser utilizada como um instrumento da luta político-partidária. Seu significado deve ser jogado para a cota de consenso da sociedade. E eu tenho uma excelente relação com o Marcelo Araujo (secretário de Estado da Cultura). Já fui visitá-lo, concordamos em dar um tratamento especial ao Cine Belas Artes, ele gostou de minhas ideias sobre o carnaval, achou boas também as possibilidades de parceria. Se eu fechar cooperações com o governo estadual, federal e com a área privada, os grandes institutos, tenho condições de fazer uma boa gestão.

O senhor vai trocar gestores, como por exemplo a direção do Centro Cultural São Paulo?

A gente não decidiu isso. Minha tendência é manter a direção. A gente tem avaliado, o trabalho é positivo, mas cada equipamento será revisitado, tentaremos ampliar seus significados, mesmo os que têm uma qualidade. Ali tem a guarda de partituras de música, houve investimento na melhoria do prédio. Tem ainda dois ou três probleminhas, vazamentos de som de uma área para outra. Mas queremos ampliar. Foi um equipamento cultural muito importante para a formação de muitos jovens.

Um baiano na Avenida São João

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