quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Espanha e a Corrupção

Tinha que vir da França…

Faz tempo que não vejo um texto tão interessante. Nossa imprensa está escondendo o escândalo do “mensalão espanhol˜. Aqui no Brasil a imprensa diz que o mensalão do Brasil é o maior da história nacional. Mas quando envolve os aliados da imprensa, como os mineiros e os espanhois, nossa imprensa se cala.

Triste país que, mesmo sendo livre, não cultiva uma imprensa educativa.

Vejam a materia de Gilles Lapouge, correspondente do Estadão em Paris. Ainda bem que ainda temos o Estadão.

Rajoy e a corrupção

06 de fevereiro de 2013 | 2h 08 - Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, estava em Berlim na segunda-feira. Tinha na ponta da língua um grande discurso no qual pediria à chanceler alemã, Angela Merkel, que cedesse um pouco e tomasse iniciativas destinadas a relançar o crescimento na Europa.

Infelizmente, o discurso ficou entalado na garganta do chefe de governo da Espanha, pois dois jornais, El País (centro-esquerda) e El Mundo (direita), faziam revelações detestáveis a respeito de Rajoy. O herói da virtude e do rigor ficou num estado lastimável depois de ouvir as acusações. O adjetivo era usado de modo incorreto: o incorruptível era um corrupto.

O ex-tesoureiro do Partido Popular Luis Bárcenas afirmava que os quadros do partido conservador, com Rajoy à frente, haviam recebido complementos salariais por baixo do pano até 2008. Desde a noite de domingo, o líder do Partido Socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, pedia a demissão de Rajoy.

O mais estranho é que os espanhóis sabiam há muito tempo que seus dirigentes,
tanto da esquerda quanto da direita,
praticavam animadamente o esporte da corrupção.

Mas estavam conformados com essa praga, pelo menos desde que a Espanha ia de vento em popa, enriquecia, construía imóveis sem parar (aliás, muito feios, que desfiguraram uma das paisagens mais suntuosas do mundo) nos quais a nova burguesia passou a se instalar.

Essa situação durou até 2008.

Naquele ano estourou a crise. E foi um furacão.
As famílias não puderam mais cumprir suas obrigações financeiras.
Expulsas de suas novas habitações, acordaram na rua.

Naquelas circunstâncias, os mesmos espanhóis atirados à sarjeta foram informados de que os políticos, não satisfeitos com seus bons salários, recebiam complementos.

O cinismo tornou-se um insulto à miséria e à virtude.

Apesar dos esforços corajosos e da ajuda da Europa, a Espanha foi perdendo fôlego.
Agora, a desocupação destrói a sociedade: 55% dos jovens não têm emprego.
Sobrevivem morando com os pais. O desespero pode levar a fugas perigosas (drogas, extremismos de direita ou de esquerda, aversão pelo "político", tráfico, etc.).

A sociedade espanhola se desfaz.

Felizmente, a Espanha tem um rei, a instituição monárquica que mantém a coesão da nação. Mas, infelizmente, este ano ficamos sabendo de duas coisas a respeito de Juan Carlos: em primeiro lugar, no que diz respeito às mulheres, ele seria uma espécie de Dominique Strauss-Kahn.

Tem o hábito de mostrar-se carinhoso com todas as que encontra em seu caminho. E, em segundo lugar, há alguns meses, ele se machucou numa viagem à África tropical. E como foi que ele se feriu, coitado? Bom, participava de um safari e escorregou. Um rei matar animais selvagens!?

Rajoy tentará construir uma barragem contra a maré destas hediondas revelações. Não será fácil. A Espanha, já desmantelada, voltará a fazer água.

O que não é um bom auspício para a União Europeia.

Bruxelas acreditava estar vendo "o fim do túnel", depois de quatro anos de dramas. Uma crise política, e então econômica, num país tão importante quanto a Espanha, poderá tornar o túnel mais longo do que já é.

Tradução de Anna Capovilla. Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

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