domingo, 27 de janeiro de 2013

Lincoln e os Conservadores Brasileiros

Duas Guerras lá e Uma Tradição aqui

Os Estados Unidos não viraram o maior império do Século XX sem dor, enquanto o Brasil nunca teve uma guerra de transformação radical, sempre preponderou a vitória dos conservadores.

Elio Gaspari, na Folha de São Paulo de hoje, mostra o quanto foi difícil unificar para modernizar os Estados Unidos, e depois, garantir na Constituição o fim da escravidão. Valeu a vida do presidente americano. Nada lá aconteceu por pura bondade, foi tudo com muito suor, sofrimento e conquista.

Aqui, os conservadores nunca querem abrir mão de nada, e os progressistas querem mudanças, desde que não tenham que morrer por elas ou muitas vezes sair dos púlpitos. O Brasil ficou um país grande e unificado, porém atrasado, pobre e cheio de préconceitos.

Há males que vem para bem, mas está na hora de o Brasil virar UMA NAÇÃO, moderna, com alfabetização de qualidade para todos os brasileiros, e com recursos para estar presente em todos os fóruns do mundo de cabeça erguida. Sem medo de ser feliz!

Aqui, nossa imprensa hoje fala em preservar seus direitos em nome da liberdade e da constituição, mas em 1964, nossa imprensa se uniu ao imperialismo americano para acabar com a democracia constitucional brasileira e dar um Golpe de Estado, implantando um Ditadura Militar.

As pessoas podem esquecer, mas a História precisa estar registrada.
Aqui, no caso da escravidão, “o sul, conservador e escravocrata, venceu”, como bem lembraram Darcy Ribeiro e Elio Gaspari.

Leiam o bom artigo de Gaspari, na Folha de hoje:

A festa de Abraham Lincoln


Elio Gaspari – Folha S.Paulo – 27/01/2013

Presente para o verão: um grande filme com um grande ator, saído de um belo livro, sobre um período memorável

Coisa muito boa.
Um grande filme ("Lincoln") de um soberbo diretor (Steven Spielberg), com um magnífico desempenho (Daniel Day-Lewis no papel do presidente), extraído de um belo livro ("Team of Rivals", de Doris Kearns Goodwin) sobre um luminoso período da história, o final da Guerra Civil americana, com o triunfo do progresso sobre o atraso.

São duas horas e meia de arte, prazer e instrução. Spielberg fez seu filme tratando das poucas semanas durante as quais Lincoln dobrou a Câmara dos Deputados, aprovou a 13ª emenda à Constituição e acabou com a escravidão nos Estados Unidos. O Sul já estava derrotado, mas a libertação definitiva de 4 milhões de negros significaria o maior confisco patrimonial da história.

O filme saiu do "Team of Rivals", no qual o episódio da aprovação da emenda, com suas tramoias, ocupa menos de dez páginas. A mágica de Spielberg esteve em capturar a alma da obra de Doris Kearns Goodwin. Ela trabalhou na Casa Branca, escreveu sobre os presidentes Roosevelt, Kennedy e Lyndon Johnson. (Seu marido, Richard Goodwin, assessorou os dois últimos e, em julho de 1962, defendia que os militares derrubassem logo o presidente João Goulart.)

O Lincoln de Daniel Day-Lewis entrará para a história do cinema como uma das melhores caracterizações de um personagem, disputando com o general Patton de George C. Scott, que era mais fácil.

Aquilo que parece exagero tem tudo para ser acerto. O andar de Lincoln era esquisito, sem se apoiar no calcanhar, porque tinha pés chatos. Ademais, era desengonçado mesmo. Resta só um problema: não há gravação de sua voz.

Spielberg cometeu poucas licenças cenográficas. Uma delas, deliberada. Na rendição do general sulista Robert Lee, Ulysses Grant, comandante das tropas do Norte, aparece com o uniforme em razoável estado e as botas limpas. Na realidade, estava enlameado e a roupa, amarfanhada. Quem os visse, pensaria que o vencedor da guerra fora Lee. Além disso, é improvável que Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones) tenha levado para casa o original da emenda.

A edição americana do "Team of Rivals" tem 944 páginas. A autora fez uma versão resumida que foi publicada na França e saiu no Brasil, com um terço do tamanho. Com os cortes, sumiu a cabala narrada no filme.

O "Lincoln" acaba de chegar às livrarias. Custa R$ 34, e não tem versão eletrônica. Desse jeito, cria-se um pedágio para o uso da língua portuguesa, pois o e-book da edição integral, em inglês, sai por R$ 20,39.

EM PINDORAMA, O SUL VENCEU


Deve-se a Darcy Ribeiro um resumo da desdita brasileira na segunda metade do século 19: "Aqui o Sul venceu".

Enquanto na Guerra Civil americana morreram 600 mil pessoas e entre 1863 e 1865 libertaram-se todos os escravos, em Pindorama, nessa época havia cerca de 2 milhões de pessoas escravizadas, mas a abolição só veio em 1888.

D. Pedro 2º manteve-se neutro (piscando o olho para o Sul) e os portos brasileiros davam guarida a navios rebeldes que pirateavam no Atlântico Sul. Isso até outubro de 1864, quando o governo acolheu no porto de Salvador uma embarcação confederada. Uma canhoneira do Norte atacou o barco, sequestrou-o e afundou-o em alto mar.

A essa época, o embaixador americano no Brasil era James Webb, um jornalista americano, cupincha do secretário de Estado William Seward (aquele que usa roupa de brocado no filme).

Um picaretaço. Achava que a abolição era mais perigosa que a escravatura. Diante da simpatia de Lincoln pela ideia de uma deportação dos negros americanos, Webb foi à luta e tentou organizar uma empresa de colonização capaz de trazer 100 mil negros para a Amazônia. Ela teria um capital binacional de até 5 milhões de dólares e cada deportado receberia um lote de 40 hectares, uma choupana e algum equipamento.

O presidente da companhia seria nomeado pela Casa Branca. Quem? Ele. O plano naufragou em Washington, em Londres e no Rio de Janeiro. Aqui, mostrando que Darcy Ribeiro tinha razão, o marquês de Abrantes disse a Webb que a migração lhe parecia inviável, pois o governo imperial não pretendia admitir negros livres na Terra de Santa Cruz. (Passados mais de 150 anos, o gerente da concessionária Autokraft da BMW, na Barra da Tijuca, enxotou da loja uma criança negra livre de sete anos.)

A Guerra Civil americana causou tanto horror à sociedade escravocrata brasileira que o maior dos poetas abolicionistas, Castro Alves, passou batido no assunto. Seis anos depois da morte de Lincoln, chamou seu assassino de "cavaleiro sinistro".

Terminada a guerra, d. Pedro foi aos Estados Unidos, visitou o presidente Grant e andou de braço dado com o general Sherman, o devastador do Sul. Sua obra foi mostrada em "E o Vento Levou...".

As relações dos Estados Unidos com o Brasil nesse período estão contadas num grande livro: "O Sul mais Distante" ("The Deepest South"), do professor americano Gerald Horne. A tradução, em papel, sai por R$ 59,50. O original está na rede por R$ 20,72.

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