quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Império dos Sentidos e Sentido dos Impérios

Morreu Nagisa Oshima

Ainda ontem eu comentava com os colegas de trabalho sobre “os valores” da Cultura Japonesa. Como os ocidentais pensam que as japonesas são dóceis em função da postura delicada delas. Eu dizia que era pura aparência e educação, que quando elas estão com “as portas fechadas” a história é outra.

Isto vale para as mulheres, mas vale também para a sociedade japonesa. Eles são educados e prestativos, mas também são guerreiros e duros nas negociações.

O filme Império dos Sentidos marcou nossa geração e marcou a história do cinema mundial.

Estamos precisando de alguém que escreva sobre o “Sentido dos Impérios”…

Recomendo a quem ainda não viu o filme, que o veja. E quem já viu, que veja novamente. É impactante do início ao fim…

Veja esta boa análise, desta brasileira que dá aula na Inglaterra e é uma autoridade em cinema mundial. Tenho um livro de Lucia Nagib e gosto muito dos comentários dela.

A Folha pode andar ruim de política, mas na cultura, continua boa.

VIVA OSHIMA!!!!

Diretor revolucionário queria produzir uma nova realidade

LÚCIA NAGIB - ESPECIAL PARA A FOLHA – 16/01/2013

Nagisa Oshima contou que certa vez um jornalista alemão "extremamente impertinente" lhe perguntou por que ele fazia cinema. A resposta que lhe ocorreu no momento foi: "Para entender o tipo de pessoa que eu sou".

O jornalista retrucou que, se era só isso, ele podia fazer filmes em 8 mm, não precisava de formato scope e cor. Oshima então refletiu que o elemento constitutivo de seu cinema era o belo e que, para isso, ele precisava de cor, scope e muito mais.
No meu entender, a verdadeira resposta está num parágrafo que ele escreveu num de seus muitos artigos: "O que os cineastas realmente querem é filmar a morte. E também filmar homens e mulheres (ou homens e homens, mulheres e mulheres, pessoas e animais) praticando o sexo".

A obra desse maravilhoso e revolucionário diretor de cinema foi exatamente isto: filmar os extremos, o limite do cinema com a vida, e desta com a morte. Seu lema era transformar o cinema num modo de vida, que envolvia a equipe e os atores. Seus filmes tinham o intuito não apenas de reproduzir, mas de produzir uma nova realidade.

E foi isso que sua obra-prima, "O Império dos Sentidos", alcançou: nunca mais a vida dos atores e técnicos que participaram dessa aventura de sexo e amor ao vivo seria a mesma, e o cinema erótico também se transformaria para sempre.

Em meu livro "World Cinema and the Ethics of Realism" (cinema do mundo e a ética do realismo), chamei de "atitude ética" a escolha de Oshima de filmar de modo explícito a beleza do sexo extremo que culmina em morte.

Seu compromisso com a verdade resumia o ideal de toda uma geração de cineastas interessados em explorar as propriedades transformadoras do cinema. Oshima foi o líder inconteste da chamada "nouvelle vague japonesa" nos anos 1960 e 1970.

Porta-voz em seus abundantes escritos e aparições na mídia desse grupo revolucionário, teve a coragem de combater abertamente o tratado de segurança nipo-americano ("Conto Cruel da Juventude"), o stalinismo que penetrava o meio estudantil ("Noite e Névoa no Japão") e a discriminação dos coreanos ("O Enforcamento").

E ninguém como ele soube representar o homossexualismo transbordante entre samurais e militares ("Tabu" e "Furyo: Em Nome da Honra").

Seu ato mais ousado foi o de sexualizar a nação, transformado o círculo do Sol da bandeira japonesa em manchas vermelhas de sangue, ou negras de morte, às quais estudantes rebeldes ateiam fogo e nas quais casais incestuosos e estupradores se envolvem ("Maníaco à Luz do Dia", "Canções Lascivas do Japão", "Diário de um Ladrão de Shinjuku").

Seus filmes eram destrutivos e autodestrutivos e, por isso, Oshima os comparava à fênix, que morre e renasce de suas próprias cinzas.

LÚCIA NAGIB é professora de cinema na Universidade de Leeds (Inglaterra) e autora de "Nascido das Cinzas: Autor e Sujeito nos Filmes de Oshima" (Edusp).

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