domingo, 18 de novembro de 2012

Conservadores e Progressistas

Brasil: Realidades e Transformações

Muitos de nossa geração aprenderam a gostar de Clovis Rossi e da Folha na época da redemocratização do Brasil. Com o passar dos anos, fomos aprendendo a deixar de gostar da Folha neoliberal e a não entender o comportamento de Clovis Rossi. Teria ele ficado conservador, como a Folha?

Mas, para nossa alegria, de vez em quando o “velho” Clovis Rossi reaparece, principalmente quando não envolve eleições brasileiras. Ele fica mais livre quando aborda questões internacionais.

No texto publicado na Folha de hoje, Clovis Rossi fala do Brasil, como se fosse um estrangeiro. Talvez assim ele não sinta nenhuma responsabilidade com o país apresentado. Nem com o passado, nem com o presente. E quanto ao futuro, talvez ele também não queira se comprometer.

Para quem transita entre o PSDB e o PT, ora convivendo com o que tem de mais neoliberal dos tucanos, ora convivendo com Lula e sua entourage, Clovis Rossi, talvez ainda represente aqueles que gostariam de ver a Folha, os Tucanos e os Petistas, juntos pela modernização do Brasil.

Por que isto não acontece? A pessoa que chega mais perto de uma explicação sociológica isenta é André Singer. Mas Singer não vê perspectiva de unidade de ação a curto prazo entre petistas e tucanos.

Nós, os militantes mais antigos e que gostamos de Clovis Rossi, achamos que, se dialogarmos com a “grande classe média”, tanto a classe média emergente, quanto a classe média tradicional, que vota na direita contra os petistas, podemos criar um amplo universo eleitoral que dificulte o crescimento de parcelas sectárias, como os serristas tucanos e petistas ortodoxos.

Com esta eleição de Haddad, talvez uma nova oportunidade tenha surgido para a população de São Paulo, para os intelectuais e os jornalistas como Clovis Rossi e muitos militantes mais abertos.

Nós, os velhos militantes, nos damos este direito de mostrar que gostamos do PT, de Clovis Rossi, Mario Covas, Lula, Dilma e muita gente boa por este Brasil inteiro. Se eu fosse Haddad, convidaria vários tucanos progressistas para ajudar na administração de nossa cidade. É importante dar o primeiro passo para superar velhas divergências.

Enquanto isto, recomendo a leitura da matéria de Clovis Rossi sobre o Brasil atrasado, injusto e preconceituoso. Ao mostrar este Brasil do passado ainda presente, Clovis Rossi está sinalizando que está feliz com os progressos trazidos por Lula e Dilma, embora ele não possa manifestar-se publicamente.

Felizes, mas muito pobrinhos

Clovis Rossi, Folha de S.Paulo – 18/11/2012.

América Latina resiste à crise, mas está ainda a anos-luz dos atolados países europeus

CÁDIZ - Por mais que os países latino-americanos tenham se apresentado para a 22ª Cúpula Ibero-americana como os melhores alunos da classe, na comparação com os dois parceiros ibéricos, Espanha e Portugal, enfiados numa crise que parece não ter fim, o fato é que estão felizes, mas são ainda muito pobrinhos.

Mesmo em recessão, "o nível de bem estar [na Europa em geral] é muito maior".
Não só é maior como é mais justamente distribuído, até porque a América Latina "é a região mais desigual do mundo", como fez questão de ressaltar Alícia Bárcena, a secretária-executiva da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina, braço da ONU).

O que mais dói, para quem acompanha cúpulas internacionais há uns 30 anos, é ouvir uma frase como essa ano após ano.
Dói mais ainda quando se somam duas informações: 1) O Brasil, apesar de ser o país mais rico do subcontinente, é um dos mais desiguais; 2) A queda da desigualdade, no Brasil, diminuiu nos últimos 10 anos apenas entre salários, não entre o rendimento do capital e do trabalho, que é a mais obscena.

Desigualdade não é o único capítulo em que a América Latina, conjunturalmente feliz, precisa progredir -e muito.

A tributação, por exemplo, "é baixa para proporcionar serviços públicos de qualidade, que atendam à demanda social", como diz Ángel Gurria, secretário-geral da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o clubão dos países desenvolvidos, do qual o Brasil só não é parte porque não quer.

Os impostos, na região, pularam de 14% para 19% do Produto Interno Bruto, entre 1990 e 2010, em grande medida pelo que ocorreu no Brasil. Ainda assim, é uma porcentagem baixa, se comparada aos 34% da média da OCDE.
Mas, atenção, aqui o Brasil não entra na foto geral: tanto ele como a Argentina arrecadam basicamente os 34% dos países ricos.

Pulemos para educação: 50% dos estudantes latino-americanos não alcançam os níveis mínimos de compreensão de leitura, nos testes internacionais, quando, no mundo rico, a porcentagem de fracassados é de 20%.

Passemos ao investimento em inovação e tecnologia: não supera nunca de 0,7% do PIB, quando na Coreia, por exemplo, é de 3%.

"Se não corrigirmos o rumo, seremos todos empregados dos coreanos", fulmina Gurria. Poderia ter acrescentado "ou dos chineses", que investem nessa área vital tanto quanto os coreanos.

Mais um dado: a América Latina está investindo 2% de seu PIB em infraestrutura, quando precisaria de 5%, ano a ano, até 2020, pelas contas de Gurria.
Nem preciso acrescentar que infraestrutura não é exatamente o forte do Brasil, por mais que se lancem PACs, Copas e Olimpíadas.

Para fechar: Alícia Bárcena lembra que a conexão de banda larga custa US$ 25 na América Latina, apenas US$ 5 na Europa e, na Coreia, US$ 0,05.

Moral da história: estamos rindo do quê?

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