quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pão de Açúcar e a Profecia

Orai e Vigiai, sempre...

O Pão de Açúcar está sendo lentamente gerido pelo “novo dono” e a convivência entre o “novo majoritário” e o “novo minoritário” vai ficando cada vez mais difícil.

O Brasil não tem tradição de vida plural. Aqui as pessoas preferem ser donas de padarias a serem sócias de multinacionais. É uma herança católica e lusitana. O próprio direito brasileiro é arcaico, aristocrático e lerdo, beneficiando os advogados e a cultura da protelação.

Abílio, que se fez na vida como “grande estrategista”, está perdendo a sua criação por uma operação subestimada na época. Saiu caríssima esta subestimação. Valeu uma vida, que pode ser reconquistada numa outra empreitada. Nesta, já está perdida. Agora, é vender caro sua retirada.

Vejam a matéria do jornal Valor:

Abilio tenta manter poder no conselho

Valor - 18/09/2012 às 00h00

A profecia está se realizando. A briga de forças para definir quem domina a negociação pelo grupo Pão de Açúcar está tornando a convivência entre a rede francesa Casino e Abilio Diniz, da família fundadora, cada dia mais difícil.
Ontem, Abilio encaminhou uma carta a Jean-Charles Naouri, presidente e dono do Casino, na qual se recusa a convocar uma reunião do conselho de administração - e, posteriormente, uma assembleia de acionistas do Pão de Açúcar - para tratar de uma possível reforma de estatuto da companhia proposta pelo grupo francês. Ele fará apenas uma convocação resumida, para uma das matérias propostas, que trata do plano de opções de ações para executivos.

Abilio alega que as sugestões são tentativas do Casino de, aos poucos, reduzir seu poder como presidente do conselho de administração da empresa, o que feriria o acordo de acionistas que existe entre ambos desde 2006.

Desde junho do ano passado não há mais confiança entre os sócios. Na época, Abilio propôs ao Casino uma combinação com o Carrefour que, na prática, além de ampliar o grupo, anularia o acordo feito há seis anos. Nesse acordo, o filho do fundador, Valentim dos Santos Diniz, aceitou entregar o controle da rede neste ano, tornando-se um minoritário relevante, com alguns vetos. A transição de poder ocorreu em 22 de junho.

De lá para cá, inúmeras tentativas de se desfazer essa sociedade já estiveram na mesa, mas nada avançou, especialmente, por falta de consenso a respeito de preço e sobre o que Abilio Diniz poderá ou não fazer no setor de varejo caso venda sua posição no grupo Pão de Açúcar.

Por trás desse episódio de ontem, está o desejo do Casino e de Abilio de mostrarem sua força sobre a empresa e, com isso, obter vantagem numa negociação.

De um lado, o Casino sugeriu que pretende adotar várias medidas para preparar, gradualmente, a companhia para uma migração para o Novo Mercado. Entre elas, a criação de um comitê de auditoria, um comitê de governança corporativa e a criação de um cargo de vice-presidente do conselho de administração do Pão de Açúcar.
Do outro, Abilio alega que as medidas visam, no fundo, reduzir seu papel de presidente do conselho de administração. Entre os exemplos citados por Abilio para indicar essa intenção está a sugestão feita pelo Casino de que as reuniões do conselho possam ser instaladas com a presença de apenas oito membros, no lugar dos dez atualmente exigidos.

Desde junho, quando a rede francesa assumiu o controle de fato do Pão de Açúcar, o conselho da empresa é formado por 15 membros, sendo oito do Casino, três de Abilio e quatro independentes. Portanto, a sugestão apresentada pelo atual controlador lhe daria condições de fazer uma reunião e aprovar medidas sozinho.

"Diversas alterações demonstram a intenção (...) em criar formas de obstar o exercício de meus direitos e prerrogativas nos termos dos acordos de acionistas (...). As alterações pretendidas, a depender das circunstâncias vindouras, podem colocar em risco a preservação da titularidade do cargo do presidente do conselho de administração por mim, vez que podem impedir ou dificultar a supervisão geral dos negócios e atividades da companhia, o que pode levar a empresa a resultados que permitiriam meu afastamento do cargo", diz Abilio, na carta.

A prova de que por trás dessa discussão está apenas uma briga de poderes para a negociação é o fato de Abilio não ter direitos previstos suficientes para evitar que o assunto seja levado para o conselho e para a assembleia do grupo Pão de Açúcar. Com a recusa do presidente do órgão de fazer a convocação da reunião, outro membro pode assumir esse papel e fazer o assunto prosseguir normalmente, conforme rege o estatuto da empresa.

Na quarta-feira, a reforma do estatuto sugerida será alvo de um debate no conselho de administração de Wilkes, a holding controladora da companhia e na qual estão as ações ordinárias dos agora rivais. Como se trata de uma matéria sobre a qual Abilio não tem veto previsto no acordo de acionistas, a proposta pode a ser aprovada.
Na sua carta de ontem, Abilio pede a reconsideração do Casino de suas sugestões. Consultado, um porta-voz do empresário afirmou que ainda não há uma decisão sobre os próximos passos caso o grupo francês siga adiante com esses planos.

Os temas sobre os quais Abilio possui veto já estão garantidos no acordo e no estatuto de Wilkes e, sendo assim, nem mesmo poderiam prosseguir até o Pão de Açúcar, em caso de discordância do empresário.

Em sua carta, Abilio pede então que "a possibilidade de migração para o Novo Mercado" seja alvo de uma avaliação profunda e cuidadosa da companhia e de seus administradores, caso "a real intenção do Casino seja promover um trabalho conjunto na constante melhoria da governança corporativa" da empresa.

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