quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Todos acusam: Foi ele!

Corrupção, violência e impunidade

Vejam com atenção a matéria abaixo, que saiu na Folha e na UOL. Uma mulher chega para os policiais militares e mostram um homem careca e diz: FOI ELE!

Pronto, a vida do fotógrafo Lecio Panobianco Jr. vira um inferno. Talvez por ser fotógrafo e ter conseguido sair na Folha e na UOL, ele possa recuperar sua autoestima e sua dignidade, mas o trauma da ameaça das armas e o xingamento por parte dos militares, talvez não seja superado.

Individualizar responsabilidades é fácil, difícil é tomar medidas estruturantes que dificultem muito as ações criminosas individuais ou coletivas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em uma pequena cidade da Polônia, em apenas três dias, os alemães e seus aliados poloneses e outras etnias, mataram 28 mil judeus. Agora dizem que a culpa foi dos nazistas alemães. Não, já antes dos alemães, os poloneses não deixavam os judeus frequentarem universidades.

Precisamos humanizar as relações pessoais e ter leis claras e objetivas que sirvam para todos, mesmo que sejam policiais, juízes, jornalistas ou principalmente políticos.

O que aconteceu com este rapaz com câncer, pode estar acontecendo em qualquer lugar do Brasil e com qualquer outra pessoa. Judas também apontou o dedo para Jesus.
No caso dos policiais de São Paulo, o nosso governador precisa tomar sérias providências sem individualizar o problema. A crise é institucional e coletiva.

Careca após químio, homem é confundido com criminoso em SP
Laura Capriglione e Joel Silva – Folha – 02/08/2012

O fotógrafo Lecio Panobianco Jr., 52, denuncia que, na última segunda-feira, foi obrigado por soldados do Tático Móvel da PM a passar duas horas em pé na avenida Sapopemba (zona leste de São Paulo), diante de seus vizinhos e, segundo ele, com uma submetralhadora apontada para o abdome, sendo xingado aos gritos de "ladrão sem vergonha", "careca safado", "vagabundo" e "cara de quem não vale nada".

O detalhe é que que Panobianco tem um câncer grave na região inguinal. Por causa disso, enfrenta agora a terceira temporada de quimioterapia, na tentativa de reduzir a velocidade de crescimento de um tumor invasivo. Ainda terá de enfrentar uma cirurgia. Tem aspecto doentio, perdeu os cabelos, está fraco.

"Eu sinto muito frio na cabeça, por isso ando sempre de gorro. Percebi que o tenente não gostou da minha aparência. Até reconheço que pareço um dependente, um drogado. Mas minha droga é a quimioterapia", disse.
O fotógrafo tentou esclarecer os policiais sobre a doença. "Foda-se você e sua quimioterapia", respondeu-lhe um tenente, afirma ele.

A abordagem da PM foi motivada pela denúncia de uma mulher. Ela e o marido estacionaram o automóvel Gol em que se encontravam na avenida Sapopemba e separaram-se. Ela dirigiu-se ao supermercado Da Praça, enquanto o marido foi a outras lojas na própria avenida.

Quando saía com as compras, a mulher viu um estranho dentro do seu carro. Correu para chamar o marido. A polícia foi acionada. Quatro carros da Força Tática chegaram ao local, exatamente quando Panobianco, que é vizinho do supermercado, conversava com um pedreiro.

A mulher apontou para o fotógrafo e disse: "Foi ele".
Os policiais não perguntaram seu nome e não fizeram verificação de antecedentes.
Funcionários do supermercado e de uma loja de rações animais ao lado tentavam avisar aos PMs de que a denúncia não passava de um engano, que Panobianco era pessoa "de bem", "não é quem vocês estão pensando", mas eles não aliviaram.

Quando tentava falar com os policiais, o fotógrafo tinha de, antes de cada frase, chamá-los de "senhores". O tenente, segundo ele, ainda disse: "Cala a boca. Se eu te levar daqui vai ser muito pior".

Um segurança do Da Praça disse à Folha que foi falar com os policiais, alegando que "bandido nenhum tentaria roubar um carro e depois ficaria por ali, dando bobeira". Sem sucesso.
Foi só quando, enfim, a mulher admitiu que não tinha certeza da sua acusação, que os policiais chamaram o Copom e fizeram a pesquisa sobre antecedentes: "Deu nada consta", lembra o segurança. Soltaram o fotógrafo.

"Não recebi nenhum pedido de desculpas. O sargento mais uma vez me chamou de 'careca vagabundo', mandou eu pegar o gorro no chão e me dispensou", lembra.
Panobianco ainda não foi à Corregedoria por causa do seu estado de saúde. Pretende fazê-lo. "Me senti como um judeu atacado por soldados da SS. Mas eu não tenho mais nada a perder. Cansei de ficar calado", disse.

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