domingo, 5 de agosto de 2012

Severino Araujo foi tocar no Céu

Morreu o maior “Band Leader” do Brasil

Vejam estas duas matérias da Folha. Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara foi a maior referência musical do pós guerra. O Brasil acompanhava a vida cultural americana. Depois dele, somente a Bossa Nova representou esta integração musical com o mundo.

Morre no Rio o maestro Severino Araújo


Líder da Orquestra Tabajara, arranjador modernizou o clarinete brasileiro no choro
DO RIO e DE SÃO PAULO Folha – 04/08/2012

Maestro da mais longeva orquestra de bailes do país, a Tabajara, o pernambucano Severino Araújo, 95, morreu na noite de ontem, no Rio, por falência múltipla de órgãos.

Ele estava internado no hospital Ipanema Inn havia 15 dias. Afastara-se do comando da banda há cinco anos, por problemas de saúde que foram se agravando.
Filho de um mestre de banda de Limoeiro (PE), Araújo aprendeu música desde a infância, inicialmente como clarinetista, e assumiu o comando da Orquestra Tabajara em 1938, quatro anos após sua criação, em João Pessoa.

Buscou igualá-la às big bands americanas, adotando um formato com cinco saxofones, quatro pistões e quatro trombones, o que fez o conjunto se destacar e se mudar para o Rio em 1945, para acompanhar artistas e fazer um programa na rádio Tupi.

"Além de clarinetista e líder de banda, ele era um grande arranjador. Foi ele quem arranjou boa parte do repertório da Tabajara, inspirado nas big bands americanas que ele ouvia em discos quando era menino", diz o pesquisador Zuza Homem de Mello, que trabalhou como agente de orquestra.

"O Severino marcou a presença da Tabajara como uma orquestra que tocava choros dançantes. Eram diferentes do choro regional. 'Espinha de Bacalhau' [composição de Araújo] era feito para os bailes. E isso se tornou uma marca das orquestras de bailes brasileiras", afirma Zuza.

Araújo liderou por quase sete décadas o conjunto. Um problema na perna, há cinco anos, o deixou com dificuldades de locomoção e o fez passar o comando para seu irmão Jaime Araújo, 87 -outro irmão, Plínio, 91, é o baterista.
"A orquestra faz sucesso ainda, e isso tudo foi plantado por ele. Tudo que a gente toca, a maneira de tocar, tem raízes profundas e continua. A Orquestra Tabajara é uma escola, tem um legado", declarou Jaime.

"Ele contribuiu muito para a linguagem do clarinete moderno, principalmente no choro", disse o clarinetista Nailor "Proveta" Azevedo, da Banda Mantiqueira.
Araújo era casado com Neuza Monteiro, 85, sua segunda mulher, e deixa quatro filhos: Francisco e Ieda, de seu primeiro casamento, Tânia e Ronaldo.

O maestro seria velado nesta madrugada e será sepultado hoje ao meio dia, no cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul do Rio).


Se existiu algo como "swing brasileiro",
músico foi representante mais legítimo


IRINEU FRANCO PERPETUO - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA-04/08/2012

Chorinhos, sambas e frevos em formação de big band: foi uma criativa síntese entre a sonoridade das orquestras americanas da "era do swing" e os ritmos brasileiros que garantiu ao regente, arranjador e compositor pernambucano Severino Araújo seu lugar de honra na história da música popular brasileira.

Severino foi formado na mesma escola que vem dando tantos músicos de sopro ao Brasil, tanto na MPB quanto nas orquestras sinfônicas: as bandas de interior.
Aluno de seu pai, mestre de banda, encantou-se inicialmente com o clarinete, sob influência de mestres do jazz como Artie Shaw e Benny Goodman.

Depois, fez um caminho natural a muita gente, partindo para o saxofone, instrumento com o qual passou a integrar o grupo ao qual seu nome estaria profundamente associado, a Orquestra Tabajara, ativa até hoje e recordista não apenas no tempo de atividade (64 anos), como na quantidade de discos gravados (cerca de cem) e de bailes animados (em 2003, eram mais de 13 mil).

Seu maior legado, porém, não é como instrumentista, e sim como arranjador, função que já exercia desde a adolescência na banda de Ingá, no interior da Paraíba.
Como diversos nomes da música popular e erudita brasileira, foi discípulo do alemão Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005).

Constituída de trompetes, trombones, saxofones e seção rítmica, a Orquestra Tabajara sempre replicou, sem tirar nem pôr, a formação instrumental das orquestras de dança dos EUA, que foram especialmente populares entre as décadas de 1920 e 1950 e ficaram conhecidas como big bands.

O diferencial, contudo, residia no repertório. Severino Araújo não ficava na zona de conforto dos arranjos edulcorados de canções românticas norte-americanas.
Com arranjos agressivos e vibrantes, fazia tocar choros e frevos, com "nacionalizações" esporádicas de grandes obras do repertório internacional, como um célebre arranjo da "Rhapsody in Blue", de Gershwin, em ritmo de samba.

Se existiu algo como um "swing brasileiro",
Severino Araújo foi seu mais legítimo representante.

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