quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Manolo, André e as memórias

As vezes a memória é tudo

Ou o que nos resta...

Desde o momento que soube da morte de Manolo, eu me preocupei em como repassar a notícia para duas pessoas em especial. Uma delas era Andrezinho. André agora representa os bancários do Brasil na UNI América, com sede em Montevideo, Uruguai. Agora ele mora longe, mas não perde sua verve.

Manolo e Andrezinho têm muitas coisas em comum, principalmente para a gente que é da velha guarda. Assim, por várias vezes eu cliquei no nome de André no facebook para avisá-lo, em todas as vezes em desisti, constrangido. Como avisá-lo?

Resolvi esperar sair o aviso da Contraf e do Sindicato. Depois fiz minha mensagem para o blog e a enviei para todos, inclusive André e nosso outro amigo, que também é muito amigo de Manolo.

Fomos à noite para Santos, onde Manolo está morando com a família, e hoje, quando cheguei na minha sala, vi a mensagem abaixo que André mandou. Hoje não teremos nada de mensalão ou outras bobagens. Hoje falaremos de pessoas, de militantes, de guerreiros, de seres humanos que amam, têm carências, defeitos e genialidades.

Vejam a mensagem de André, um gênio da arte de mostrar sentimentos. Um dos motivos do por que as mulheres sempre amaram os dois: André e Manolo. Mas esta é outra história.

Fiquem primeiro com este belo depoimento de André para Manolo e para os militantes atuais.

As vezes a memória é tudo

Ou tudo que nos resta

Mas a memória permite, entre outras coisas, que a gente siga convencido do que está fazendo ou procure melhorar, aperfeiçoar. A maior parte de nós vai em busca dessa melhora, desse aperfeiçoamento.

Isso exige inspiração, referência, uma bússola, um norte magnético.
Nessa nossa Nave-mãe nada disso nos falta, ao contrário, abunda. Claro que essa abundância precisa sempre de oxigênio. Alguém tem que vir e servir de inspiração, de referência.

O Manolo era genioso e genial.

E tanto uma qualidade quanto a outra inspiravam. Era pura agitação, puro sarcasmo, pura criatividade. Antigamente tinha um jeitão às vezes tosco. E esse jeitão escandalizava, mas depois, pensando, observando, nós conseguíamos tirar coisas boas, mesmo que fosse de uma atitude puramente sarcástica.

Sua mente nunca parava.

Eu era militante de base e me lembro dele tocando o então "Departamento Cultural", na rua do Comércio. Ele corria para lá e para cá, maquinando coisas, espalhando ideias para os outros e torrando o saco do banco ao qual ele pertencia, o Safra.

Lembro do jornal Safrado.
Um exemplar me vem à cabeça na hora: "Juízo, Zeph Safra"

Esse Joseph Safra odiava o apelido de "Zé", mas era justamente o que agitava o prédio do banco. O Manolo fazia o jornal sozinho, pegava a moto dele e distribuía em todas as agências. Os bancários ficavam em polvorosa e o banco cedia, resolvia os problemas e o Sindicato crescia. Vale uma visita no Cedoc para ver a pasta do Safrado.

Quando não estava azucrinando o Safra, o Manolo tava tendo ideias.
Daí nasceu o "Maia", caminhão de som que nos ajudou em muitos momentos e serviu para muitas outras categorias. Fez história esse caminhão e o Sindicato a escreveu. Mas a assinatura segue indelével.

Talvez agora eu cometa um pequeno exagero,
mas tenho certeza de que a situação me autoriza.
Era 1992, o Collor botando pra f.... na gente. Aí veio o famoso pedido para que os brasileiros vestissem verde e amarelo no domingo.

Nos reunimos na Regional Centro e resolvemos sair pelas ruas convocando a população a vestir preto e ir no Ibirapuera protestar. Cada um saiu para um lado para providenciar alguma coisa. Estávamos numa guerra.

Para variar, o Manolo, junto com a Imprensa, pensou num adesivo e claro, numa camiseta. E essa camiseta virou a marca daqueles dias de protesto: "Impeachment Já!"

E lá estava o Sindicato de novo fazendo a história. Inspirado.

E eu que na época era do "coletivo dos cabacinhos (como diz a N...)", via aquilo tudo e tomava como referência.
Quando o Roberto Setúbal assumiu o Banco Itaú e a duras tentava sair da sombra do pai e botava pra quebrar, o Manolo se aproximou, me olhou e me disse:
"O príncipe Rei vai bem. O reino, nem tanto".

E começamos uma saraivada pra cima do Itaú e o apelido pegou. E vieram as negociações.

Em 94 fomos campeões mundiais no futebol, mas antes da copa o assunto era a campanha do sindicato:
"Fora Parreira e reajuste mensal já!"

Todo mundo falava e queria o adesivo. Saiu na televisão. Virou tema do Mesa Redonda na Gazeta.

Uma vez eu e ele estávamos brigados. A gente nem se olhava.


O Itaú resolveu fazer compensação de horas extras e o incansável Luiz Claudio, na virada do ano começou a tocar paralisações nas agências. A coisa tomou corpo. Cinco meses de greve nas agências, a primeira greve por banco em uma única regional (a Norte), atividades mil.

Inspirei-me numa atividade da qual fui encarregado de organizar na Paulista, pedi para fazer uma faixa de 5x5 metros! Enorme.
Na hora de colocar na “agência 262”, descobrimos que a faixa não tinha nada com que pudéssemos usar para pendurar a faixa. Uma baita faixa. Fiquei órfão. Não sabia o que fazer.

Aí veio a bússola.

Ele tirou o canivete suíço da pochete que ele usava e providenciou com nós de marinheiro, escoteiro, sei lá, as amarras necessárias para a gente pendurar a faixa e todo mundo que passasse na paulista pudesse vê-la.

A gente nem se falava, mas ele viu que o esforço era fruto da inspiração, do aprendizado. E solidário, foi o primeiro a me tirar do sufoco.

E quando foi para a Bancoop? Pegou o touro pelo chifre, comeu o pão que o diabo amassou com os cooperados para ajudar a consertar os erros dos outros. E mais uma vez foi importante.

Causos assim nos diverte, nos emociona.

Mas tem uma mistura de coisas, a inspiração, o norte magnético, o empenho que nos dá força para seguir mantendo o Sindicato criativo na luta.

Sempre digo que a gente dá certo por que a gente anda tudo juntinho.
O dia que a gente achar que não precisa mais andar junto, significa que a bússola quebrou.

Escrevi tudo isso e mais os causos e histórias, por que mesmo à distância acompanhei a movimentação do Sindicato, da Fetec e da Contraf.

Um belo espírito de corpo. Exatamente o que nos move.


Temos muitas referências e inspirações no nosso meio. Perdemos o Manolo, mas não perdemos sua inspiração. Tanto é que estamos aí com mais uma criativa campanha.

Importante e bom é ver a Nave-mãe cuidando dos seus.
Importante que quem não trabalhou com ele, busque saber qual foi o legado.
Assim, a bússola não enferruja nunca, por que alguém vai assumir a inspiração, a genialidade e nos ensinará com a geniosidade.

A Nave-mãe vai seguir em frente, como sempre.

Mas certamente, haverão aqueles que aproveitarão esse momento para compartilhar as experiências, as histórias, os causos e passarão adiante a inspiração que nos contamina positivamente e põe a luta dos bancários sempre em marcha.

Valeu, companheiro de luta.

André




9 comentários:

  1. Realmente são dessas memórias que construimos a história, olhamos para o passado ( estranho me chamar de passado, por ter vivido tudo isso !!!) e desenhamos o presente e futuro, contando " causos " para as novas gerações !

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  2. Oi Gilmar

    Recebi a noticia ontem, primeiro pelo próprio André e logo pela Rita.

    Acho que o André conseguiu expressar o que todos gostariam de dizer, mas que pela surpresa deste infeliz acontecimento ficaram assim como eu, com tudo preso aqui na garganta. Agregaria ai o melhor ato que eu já vi ser realizado pelo sindicato, a Pizzaria da Camara Municipal, os telefonemas, o forno a lenha, os verados respondendo as ligações e tudo isso sendo transmitido ao vivo pelo TV foi algo genial.

    Eu aprendi muito com o Manolo, tanto no sindicato, quando susbistitui ele na Secretaria de Impressa, como também na vida. Conheci esse Manolo tosco como disse o André, sarcástico, mas também tive o imenso prazer de conhecer o outro Manolo, um cara gentil que se dedicava muito a familia aos seus Filhos, Beatriz e Diogo que era assim mesmo chato, buscando a excelência en tudo, da Folha bancaria perfeita a um prego mal colocado na parede da sua casa em Bertioga.

    Também tive a oportunidade de ver este Manolo solidário e sempre disposto a estender a mão e ajudar, prinicpalmente quando substitui a Clarice no Cultural, justo eu que para cultura e criatividade não tinha nada e ele reconhecendo o meu esforço, um dia me disse, não se preocupe eu te dou uma força ai carinha.

    Espero que a Débora e as crianças encontre entre eles, seus familiares e nos amigos o conforto necessário para seguir adiante, frente a esta trapaça que de vez em quando a vida nos faz.

    Ao Manolo (Chuchu como nós o chamavámos), Tomaremos sempre uma “boazinha” para nunca esquecer os bons os maus momentos e dzer que a amizade continuará.

    Um Abraço

    Marcio Monzane

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  3. Gilmar, muito bacana e real. Resume tudo, nos emocionamos muito por aqui. abraços Patrícia Mgiora

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  4. Não conheci o Manolo. Só de vista. Sinto que perdi alguma coisa. Eu ia gostar do cara.

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  5. O Marcio Monzane lembrou da "Pittaria Di Câmara - o verdadeiro gosto da maracutaia", que foi criada pelo Manolo, foi demais! E quando o Manolo bolou um adesivo com um desenho de laranja com a carinha do Celso Pitta e o Sindicato distribui centenas de garrafinhas de suco de laranja com este adesivo onde estava escrito "Supitta - o verdadeiro suco do laranja". Quanta criatividade. E o Maia, aquele enorme caminhão de som que ele idealizou e que serviu para tantas atividades dos bancários e de outras categorias. Isso sem falar na passagem dele pelo cultural e as atividades de rua (Julgamento dos Banqueiros, Tunel do tempo, luta livre dos banqueiros contra os bancários, etc) e ainda os shows que ele levou para a quadra: Zigg Marley, Paralamas do Sucesso, Luis Melodia, Lobão, Titãs, Raul Seixas, Marcelo Nova, Pena Branca e Xavantinho e tantos outros. Realmente o cara era de uma criatividade espantosa, além de ser um aguerrido militante do PT. Tivemos uma grande perda. Companheiro Manolo, valeu!

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  6. O André me fez chorar, foi muito feliz no seu depoimento, é muito importante a gente contar e recontar as histórias para não esquecer quem somos e onde estamos e porque estamos. Adorei a história da bússola e de andarmos juntinhos, nos fortalecesse. Sempre que nos juntarmos para falar dele, vamos lembrar da criatividade e genialidade, ele era meio professor Pardal, gostava de inventar coisas, era meio wikipedia também, muito sarcástico, alguém lembrou bem. Quando soube da noticia fiquei chocada e triste como todos, por ele, pela Débora, pelos filhos. As primeiras lembranças que me vieram a cabeça, foi de quando entrei no sindicato, eu estudava letras e fiquei impressionada como ele conhecia de poesia, declamava várias de cor, muitas do Boccage. Lembro também dele cantando no karaokê do Café dos Bancários. Conversando com os colegas esses dias fiquei sabendo de mais um monte de coisas que ajudou a bolar, a criar, ousar. Vai fazer muita falta, mas estará sempre presente entre nós.
    Neiva

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  7. Sexta-feira fomos na festa dos bancários do ABC, quando a banda começou tocar músicas bregas eu, Geová, Reginaldo o e o Nelson nos lembramos das inúmeras vezes que o Manolo cantava a maioria delas, lembro das festas no espaço da Regional Paulista muitos diretores, bancários e funcionários cantando também. Espero que a Deborah, seus filhos e mãe encontre forças para superar a perda.

    Lia

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  8. Hoje, Manolo está completando mais um ano que convivei com a gente. Parabéns para ele e seus familiares.

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