segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Caos de Cada Dia

Com Lúcia Guimarães e Woody Allen

Como vocês viram pelas “Dicas do Dia”, o noticiário anda caótico. Fiquei procurando uma boa notícia para repassar para vocês, mas a única que achei foi de Nelson Freire. Acontece que já falei muito de Nelson Freire e pensei em achar algo diferente. Como sempre gostei de Lúcia Guimarães, comecei a ler a crônica dela, todo animado e fui ficando ainda mais confuso do que eu estava.

Se ela, que mora em Nova York há dezenas de anos, está tão confusa, imaginem nós, brasileiros, que acompanhamos as notícias de nossa imprensa. Ficamos doidinhos...

Também gosto muito de Woody Allen, mas fiquei com medo deste filme sobre Roma ser igual ao de Barcelona, que era muito chato. O de Paris era melhorzinho. Mas, depois do artigo de Lúcia, fiquei com vontade de assistir este sobre Roma. Mas o duro é ter que aguentar o tal de Benigni. Ele é muito chato!

Ou será que estamos todos ficando chatos?

Confiram o texto de Lúcia Guimarães, no Estadão, direto de Nova York:

Um amor de Woody
02 de julho de 2012 | 3h 09 - Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo

NOVA YORK - Você quer saber o que eu comi no café da manhã? Como? Não está interessado? Claro que está. Comi iogurte com cereal. Iogurte desnatado e cereal com baixo teor de carboidrato, naturalmente. Esqueci de tuitar minha nova convicção sobre o poder do vinagre de cidra de maçã para perder peso.

Saí para uma caminhada e, uau, esbarrei no ator Frank Langella, ele mora aqui perto. Um esbarrão tópico, já que o novo filme, em que Langella contracena com um robô, estreia no mês que vem. Você não acha o máximo que eu possa encontrar o Frank Langella na rua? Ele foi indicado para o Oscar pelo papel de Richard Nixon! Vejo que o esbarrão não está causando a impressão desejada.

E se eu revelar o nome da estrela que encontrei na sala de espera da minha médica? O estetoscópio que aterrissa no tórax siliconado dela aterrissa no meu... deixa pra lá. Esta eu vou guardar para depois.

Como é que eu posso manter a sua atenção concentrada em mim?
Pleeease? Sim, minha resistência ao stalinismo digital, quer dizer, à transparência radical do Facebook, me coloca em desvantagem. Eu não estou respondendo à pergunta "O que você está pensando?" 30 vezes por dia. Tampouco estou "curtindo" o que quer que seja que tantos milhões "curtem". Mas não abro mão das aspas. Peço um pouco de paciência.

Afinal, demorei para compreender que o cachorro mergulhador seria mais relevante do que a cena de Aung San Suu Kyi aceitando seu Nobel da Paz com 21 anos de atraso. Hello! O cachorro é hilariante e uma gracinha. A recém-eleita parlamentar e ex-presa política de Mianmar já me passa dever de casa só com o nome difícil de pronunciar. Sem curadoria, esta palavra que foi prostituída, como foi "cidadania", é claro que o cachorro ganha disparado.

O novo filme da fase agência de turismo de Woody Allen, Para Roma Com Amor, além de ser uma confecção deliciosa, tem quatro tramas paralelas e uma delas nos ajuda um pouco a perdoar Roberto Benigni por trivializar o Holocausto e testar nossa paciência quando aceitou o Oscar de 1999. Veja como eu estou sintonizada com os tempos - trivializar o Holocausto fica lado a lado com o pecado de nos entediar.

Em Para Roma Com Amor, Benigni é um anônimo funcionário italiano cujo carisma negativo é subitamente transformado em mina de ouro. Sua existência inconsequente é alçada a alturas da hiper-realidade e logo nós vemos uma daquelas mulheres impossivelmente lindas que habitam os telejornais italianos entrevistando o joão-ninguém sobre nada, ou melhor, sobre o que tomou no café da manhã. Ele prefere pão torrado! Aos 76 anos, Woody Allen consegue retornar com afinação musical perfeita ao tema do voyeurismo e da celebridade que explorou antes, quando a cultura dos reality shows ainda não havia testado a nossa crença no limite da futilidade.

A deferência com que o perplexo Leopoldo Pisanello de Benigni, famoso por ser famoso, é tratado por repórteres, executivos e maîtres de restaurantes está em sintonia com a autoimportância do momento. Ann Curry, âncora do programa matinal da NBC, se despediu em prantos na quinta-feira, defenestrada por causa do declínio de audiência de um programa que rende US$ 500 milhões anuais para a rede. Entre uma fungada e outra, disse que vai continuar fazendo reportagens - com um salário de vários milhões de dólares - num momento "em que este país e este mundo precisam de clareza". Que alívio, se me faltar clareza, tenho uma personalidade hiper-real como Ann Curry para me guiar.

Mas Roberto Benigni não é nem o melhor de Para Roma Com Amor. Saí do cinema com Ellen Page, a atriz canadense de Juno. Ela vive Monica, uma starlet denunciada pelo onipresente personagem do cada vez mais bem-vindo Alec Baldwin, no papel de um arquiteto dublê de coro grego. Monica é o papagaio algorítmico na era do Google - ela cita um verso de poema, um autor, um filme, uma peça, qualquer falsidade vale para sugerir que abriga uma alma. A vaidade de Monica, um dos melhores produtos recentes da imaginação de Woody Allen, é o refrão do nosso tempo.

Faça um passeio pelas páginas da Wikipédia e note como as pessoas editam sua própria biografia, nivelando dados como conquistas profissionais à sua mostarda favorita.
Woody Allen pode ter ido fazer turismo cinematográfico em Roma, a cidade onde Federico Fellini cunhou a palavra paparazzi.

Felizmente, seu ouvido continua colado ao asfalto de Manhattan.


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