terça-feira, 31 de julho de 2012

Mensalão - Circo da Imprensa e dos Políticos

Janio de Freitas deu sua opinião

Por opção, não tenho reproduzido praticamente nada sobre o mensalão.

Acho que todos os lados estão errados.
Os políticos porque subestimaram a Democracia, usando os mesmos corruptos e quadrilhas que eram dos governos anteriores;
A Imprensa porque usa descaradamente da manipulação das notícias para fazerem campanhas eleitorais e pressionarem o Judiciário;
O Judiciário porque aplica um calendário subordinado ao calendário eleitoral e à pressão da Direita Organizada na Imprensa e nos partidos como PSDB e DEM;
O movimento social que tenta negar tudo como se fosse apenas briga da direita contra a esquerda;
O PT por infantilmente usar os corruptos e as quadrilhas como forma de garantir governabilidade parlamentar. Aliar-se a Roberto Jafferson é aliar-se ao que um país tem de pior.

Neste quadro acima, vemos com alegria que, apesar do cinismo da Folha, ela garantiu o direito de Janio de Freitas expressar sua opinião diferente do jornal. Este gesto do jornal mostra que nem tudo está perdido. Ainda temos esperança que a Democracia prepondere sobre o maniqueísmo e o cinismo da nossa imprensa.

Parabéns a Janio de Freitas!

Leia o seu artigo de hoje:

O julgamento na imprensa

Folha - 31/07/2012

Se há contra os réus indução de animosidade,
a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações


O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.
Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.
Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja. Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que "o mensalão é o maior escândalo da história" -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.
Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.
Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?
E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: "Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que "vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

3 comentários:

  1. Roberto Gurgel, Gilmar Mendes...essa gente se acha neutra para julgar algo?

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  2. Um grupo empresarial da área de comunicações chegou a uma dívida de mais de três bilhões de dólares. A situação estava para impagável por absoluta falta de ativos. Somente uma renegociação salvaria o grupo da falência.

    Um recém empossado governo cuja base eleitoral e programática não simpatizava com o grupo empresarial não jogou a pá de cal. Antes da falência, ofereceu ajuda e criou um plano de renegociação da dívida do grupo empresarial, que veio a respirar novamente.

    Grupo empresarial e governo não se movimentam sozinhos. São os seus dirigentes que procuram agir e com isso produzem fatos que modificam a realidade adversa.

    Há quem diga que um dirigente do governo se movimentou e conseguiu equalizar o problema da dívida do grupo empresarial.

    A cultura popular está cheia de contos que embalam sonhos e tentam explicar fatos pela analogia das histórias. Uma delas é a história do escorpião à beira de um grande rio sem alternativas para transpor o obstáculo. O sapo, nadador exímio, oferece ajuda e traça um plano para a travessia. Pede, porém, que não seja vítima da picada venenosa do escorpião. Uma vez alcançada a outra margem o escorpião – antes de descer das costas do sapo, aquele que lhe deu a carona e o salvou do rio – esquece o compromisso inicial e lança a picada fatal.

    Ao indagar porque fora vítima depois da ajuda, o sapo recebe como resposta um pedido de desculpas do escorpião, que lhe diz: “sinto muito, mas é da minha natureza”.

    Há um fato que se inicia no próximo 2 de agosto de amplo conhecimento do povo. O que o povo não sabe, ou não percebe, é que uma possível vítima do fato esteja na condição do sapo, a levar ferroadas venenosas daquele escorpião que se esqueceu da ajuda e pratica agora a sua “natureza”: a difamação, a insinuação, a acusação sem provas, a não permissão do direito de defesa, a condenação prévia, a morte.

    Nada mais pode ser feito neste momento atual. Fica a analogia para servir de aprendizado.
    Muito sábia, a cultura popular.

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  3. Gilmar,

    A sua introdução é um dos melhores textos que já li sobre o "mensalão".

    Abs,

    Vitor (caffè)

    p.s. - gostei dos hibiscos de trancoso (que a gente chamave de graxeira)

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