terça-feira, 12 de junho de 2012

Dinheiro só para Bancos?

E para os Trabalhadores?

Por que os Bancos Centrais dos países em crise não se mexem, ou, se mexem somente para proteger bancos?
Quando o povo é secundarizado, as tragédias aparecem, retratadas em guerras civis. Esta é a história da humanidade. Se a Europa não quer avançar para uma nova guerra militar, precisa superar esta guerra econômica e social.
Os Bancos Centrais devem estar subordinados aos Governos. Quem governa são os políticos. Se os políticos são incompetentes, que os países façam novas eleições, diretas ou indiretas, mas troquem os dirigentes, por gente que veja o povo como prioridade.

Vejam este bom artigo do prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, no Estadão de hoje:

Nova ajuda a bancos

Impressiona que, apesar do socorro, não há nenhuma intenção de mudar as estratégias que deixaram quase 25% dos trabalhadores espanhóis desempregados

PAUL KRUGMAN – Estadão – 12/06/2012

Pois é, mais uma ajuda aos bancos, desta vez na Espanha. Quem poderia ter previsto tal coisa? Evidentemente a resposta é: qualquer pessoa. Na realidade, toda esta história começa a parecer uma rotina cômica.

Mais uma vez, a economia derrapa, o desemprego vai às alturas, os bancos enfrentam dificuldades financeiras, os governos correm para ajudar, mas, não devemos deixar de observar: só os bancos recebem ajuda, não os desempregados.

A título de esclarecimento, os bancos espanhóis precisavam mesmo de uma operação de salvamento.
A Espanha estava claramente à beira de um "doom loop" - um processo bastante conhecido no qual a preocupação com a solvência dos bancos os obriga a vender ativos, o que derruba os preços dos ativos, o que por sua vez torna as pessoas ainda mais preocupadas com a solvência.

Os governos podem deter esses círculos viciosos com uma injeção de dinheiro. Entretanto, neste caso, o que está em questão é a própria solvência do governo espanhol, de modo que o dinheiro teria de vir de um fundo europeu mais amplo.
Portanto, não há nada de necessariamente errado nesse recente salvamento (embora muitas coisas dependam dos detalhes). Entretanto, o que impressiona é que, enquanto os líderes europeus organizavam essa operação de ajuda, eles indicavam que não tinham nenhuma intenção de mudar as estratégias que deixaram quase 25% dos trabalhadores espanhóis - e mais da metade dos seus jovens - sem uma ocupação.

Particularmente, na semana passada o Banco Central Europeu (BCE) não quis baixar os juros. Essa decisão estava sendo muito esperada, mas isso não nos deve impedir de observar que se trata também de uma decisão profundamente estranha. O desemprego na área do euro é muito elevado, e todas as indicações mostram que o continente está entrando numa nova recessão. Ao mesmo tempo, a inflação está desacelerando.

Segundo todos os parâmetros da política monetária, a situação exige agressivos cortes de juros.
Mas o BCE não pretende se mexer.

E sequer leva em conta o risco crescente de um colapso do euro. Durante anos, a Espanha e outros países europeus hoje em má situação sabiam que só poderiam se recuperar mediante uma combinação de austeridade fiscal e "desvalorização interna", o que significa corte de salários. Agora, está evidente que a estratégia não funciona, a não ser que haja um forte crescimento, e, isso mesmo, uma moderada inflação no "coração" da Europa, a Alemanha - o que fornece mais uma razão para baixar os juros e imprimir muito dinheiro. Mas o BCE nem se mexe.

Ao mesmo tempo, as autoridades afirmam que a austeridade e a desvalorização interna só funcionarão se as pessoas acreditarem em sua necessidade. Vejamos, por exemplo, o que Joerg Asmussen, o representante alemão do conselho executivo do BCE, acaba de afirmar na Letônia, que se tornou o exemplo de uma estratégia de austeridade supostamente bem- sucedida. (Anteriormente era a Irlanda, mas a economia irlandesa continua se recusando a se recuperar.) "A diferença básica entre a Letônia e a Grécia", disse Asmussen, "está no grau de responsabilidade nacional no programa de ajustes - não só dos estrategistas nacionais, como também da própria população". Podemos chamá- lo de enfoque à la Darth Vader da política econômica. Na realidade, Asmussen está dizendo aos gregos: "Acho perigosa sua falta de confiança".

E veja bem, o sucesso da Letônia consiste em um ano de uma expansão bastante razoável depois de um declínio econômico do tamanho de uma depressão, nos últimos três anos. De fato, uma expansão de 5,5% é bem melhor do que nada. Contudo, vale a pena notar que a economia dos Estados Unidos cresceu quase o dobro disso - 10,9% - em1934, quando se recuperava da fase pior da Grande Depressão. Entretanto, a Depressão estava longe de ter acabado.

Juntando tudo isso, teremos o quadro de uma elite política europeia sempre disposta a pular para a ação para defender os bancos, mas nada disposta a admitir que suas políticas não estão atendendo às necessidades das pessoas às quais a economia deveria servir.

No entanto, será que a nossa situação é melhor? A perspectiva americana a curto prazo não é tão ruim quanto a da Europa, mas os próprios prognósticos do Fed apontam para uma inflação baixa e um elevado desemprego nos próximos anos - exatamente as condições nas quais o Fed deveria se apressar a socorrer a economia.
Mas o Fed não se mexe.

O que explica essa paralisia transatlântica diante do atual desastre humano e econômico?

A política faz seguramente parte disso - o que quer que elas digam, as autoridades do Fed estão claramente intimidadas pelas advertências de que toda política expansionista será considerada uma tentativa de ajudar o presidente Barack Obama. Portanto, trata-se de uma mentalidade que considera o sofrimento econômico de certo modo redentor, uma mentalidade que certa vez um jornalista inglês chamou de "sadomonetarismo".

Por mais profundas que sejam as raízes dessa paralisia, está se tornando cada vez mais claro que será preciso que ocorram outras catástrofes para que se recorra a uma ação política concreta que vá além da ajuda aos bancos. Mas não se desesperem: do jeito que as coisas vão, especialmente na Europa, uma nova catástrofe está próxima.

/ TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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