quinta-feira, 21 de junho de 2012

City Bank e o Brasil

Histórias de um Brasileiro

Depois da Missa de Sétimo Dia, de Dedé Passos, realizada ontem, às 18:00h, na Igreja de São Francisco, na Praça Patriarca, no coração do Centro Velho de São Paulo, curiosamente comecei a receber mensagens. Não são mensagens psicografadas por espíritos de mortos, são mensagens enviadas por amigos que têm muitas histórias que fazem parte deste Brasil.

Já publiquei a Carta à Nação Corinthiana, enviada de Juiz de Fora, fronteira de Minas Gerais com Rio de Janeiro, por nosso querido amigo Sergio Viana. Quando cheguei à mesa de trabalho e fui ler os e-mails, tinha esta história de várias histórias, enviada por nosso prezadíssimo amigo Benedito Duarte, famoso BENÊ.

Ele, em si, é uma enciclopédia viva, sabe milhares de histórias que, se for apresentar a qualquer editora, vão rejeitá-las, por considerarem imaginações e delírios. Mas todas as histórias são versões do que se vê e do que se viveu! Precisamos escrever as várias histórias dos brasileiros e deste Brasil tão maltratado. Ainda há tempo.

Vejam estas boas histórias de Benê, escritas no estilo “On the Road”:


citibank, 200 anos !

estávamos no outono, no inverno de 1968, um ano que, para mim, também, não terminou, eu era o presidente do centro acadêmico da escola de administração de empresas de são paulo, da fundação getúlio vargas, quando, capitaneados pelo josé dirceu, os estudantes universitários saímos em passeata, contra a reforma universitária, contra a ditadura militar ;

saímos da rua maria antônia, acho que estávamos lá o fadul, o burghi e o odemiro, o bira eugênio, o josé orlando portugal e, quando chegamos na esquina na ipiranga com a são joão, a materialização da imperialismo yankee incendiou o nosso coração de estudante ;

a passeata parou ! gritos de abaixo o imperialismo, as portas de ferro do banco se abaixaram, se fecharam, derrubamos um poste de placa de proibido - ora, era proibido proibir ! - estacionar e, com ele, fizemos um aríete que arremessávamos contra a porta do imperialismo ! um maluco que portava um revólver deu um tiro no vidro do primeiro andar, e, a bala furou o vidro, e caiu leve na sala ;

era inverno de 1970, o ai-5 instalara uma ditadura assassina em pindorama, eu já havia sido preso três vezes por causa da luta estudantil contra a ditadura, trabalhava no pão de açucar com o bom zé valney de chefe, não tinha nada a ver com a área de informática, reclamava de virar as noites na usp, testando programas enquanto digitava romantismos nos cartões perfurados, bebia boêmio até às altas madrugadas nas sextas-feiras, não conseguia chegar cedo para trabalhar aos sábados de manhã ;

o first national city bank of new york, com o peter roedenback à frente, decidiu implantar um tal de budget no brazil, e já ia implantar informatizado ; oscar motomura falou com o odemiro que procurava algum colega da gv, traineelike, que tivesse alguma experiência, mesmo pouca pela idade, com finanças & informática ;

lá fui eu ser um dos assessores do mário ferrara, junto com leite, com jorge tsakatsuka, com carlos terlizzi, com marcos freire, para implantar o orçamento da área de operações da filial de são paulo, a maior fábrica do citibank no mundo, fora de nova iorque ;

por duas vezes, em 10 anos, foi a empresa na qual trabalhei mais anos, instável eu, impulsivo eu, sentimental eu ! a cecília carneiro da cunha trabalhava no banco de dia, fazia teatro à noite, contracenou com cacilda becker, com fernanda montenegro, era secretária no senof - senior office in the field - era uma semideusa para mim ; quando a polícia federal me impediu de sair do brazyl, em 1971, para fazer um curso em new york, precisou ela explicar ao vicente teixeira o que era ditadura militar !

o manager, um puta título à época, da área de informática era o fleury, que me ensinou, em 1970, que esse negócio de corintiano ser gavião, que "gavião, cada rasante que dá pega um pinto !"

a pedido do mário ferrara, entrevistei o boralli, para lhe dizer se aquele candidato a estágio tinha, ou não, o perfil para chegar a trainee, o boralli ainda estava para fazer o último ano da engenharia da poli ; operei a admissão do silvio carvalho em um dia, e, o silvio, além de ter feito uma maravilhosa carreira profissional, ainda contribuiu para a descoberta do viagra, a maria helena já botava uma substância nos cafezinhos dele, em 1971, uma das causas do casamento ter dado tão certo !

o parto da joana, minha primeira filha, da thaís ferrara, quantos partos foram pagos com o prestigioso cheque do citibank ! quantos casamentos de lá saíram, e, saíam as mulheres, pois, não podiam trabalhar casais ;

no segundo semestre de 1970, já no citi, li que "nós éramos mortais a serviço de organizações imortais" ! decorei, fiquei a pensaire, vivi o suficiente para, em 2008, ver o citibank quebrar ; "too big to fail", faliu mas não morreu e, no dia 16/6/2012,
o city national city bank of new york, fundado pelo samuel osgood, um ex-coronel da marinha americana, símbolo do imperialismo yankee, um fracasso empresarial estratégico no brazyl, completou 200 anos !

e eu, aqui, farsante rei do universo, na minha casca de noz entrincheirado, continuo um pobre mortal, a você agradecido, ó grande bezerro de ouro, ó citibank de new york!

benê ;
sp, 20/6/2012 ;


Observação do Blog:

Todos os nomes são originais e muitas destas pessoas transformaram-se em grandes executivos e ótimos brasileiros. Se alguém se sentir prejudicado, pode entrar em contato comigo que substituo o nome original por outro fictício.

Preferi manter o texto original de Benê. Espero que todos compreendam e prestem esta singela homenagem a Benê. Quem sabe, ele seja um grande escritor ainda não identificado.

Kerouac, autor de "On the Road" foi assim. Morreu pobre mas "seu pergaminho" hoje vale tanto quanto uma obra de Picasso. Devemos parar de reconhecer os méritos das pessoas somente depois de mortas. Devemos ter Herois vivos!

Um comentário:

  1. Presado Gilmar
    Não te conheço mas sou amigo do Bene e também seu ex colega de Citibank. Endosso todas as tuas palavras à respeito do querido amigo.
    Não obstante a sua cabeça tumultuada ,ele é uma das pessoas mais cultas e inteligentemente questionadora que conheço.Muito oportuna a tua homenagem , Elias Bueno

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