segunda-feira, 11 de junho de 2012

Bruckner, Shipway e OSESP

Três qualidades num dia de chuva

A data não recomendava, era uma sexta-feira, depois de um feriado na quinta, chovia e fazia frio. Mas, como eu tinha lido, no livro “A História dos Compositores”, um pouco sobre Bruckner, insisti muito e acabei convencendo minha esposa que valeria a pena ir ao Concerto da OSESP.

Não conhecia nada sobre o regente, mas queria ouvir, pela primeira vez, algo de Bruckner.

Quando chegamos à Sala São Paulo e peguei a Revista dos Assinantes, ao ver que o regente era inglês, fiquei curioso. Não é muito comum vir regentes ingleses. Quando fez-se o silêncio para a entrada do regente, foi uma boa surpresa. Um senhor já maduro, quase idoso, bem vivido como regente internacional e cheio de si.

Mesmo a casa não estando lotada, Frank Shipway, o regente, regeu com entusiasmo que foi contagiando a todos, músicos e ouvintes. No final, minha esposa, que passou todo o concerto prestando bastante atenção, virou para mim e disse: - Faz tempo que não presto tanta atenção a uma música! Os músicos da OSESP também aplaudiam e sorriam. Todos mereciam um dia mais especial, onde a sala estivesse lotada. Valeu a pena.

Fiquei mais contente ainda, quando no sábado, dia 09, vi esta matéria do Estadão, escrita por João Marcos Coelho, sobre o mesmo concerto, apresentado na quinta-feira, dia 07.

Com estes pequenos gestos, o Estadão faz a diferença.
Leiam a boa matéria e ouça o Final da 8ª. Sinfonia de Bruckner, regida por Karajan. Não achei regida por Shipway e tocada pela OSESP. Mas, Karajan faz jus à fama.

Shipway e Osesp reverenciam Bruckner


Público da Sala São Paulo assistiu na quinta-feira a rara demonstração de competência

09 de junho de 2012 | 3h 09 - O Estado de S.Paulo - João Marcos Coelho

Bruckner era profundamente religioso. Construiu seu metiê musical como organista no Mosteiro de Sankt Florian por duas décadas e só imaginava seu trabalho como compositor numa linha de continuidade com Beethoven e Schubert. Leva avante, em seus imensos afrescos orquestrais - nove monumentais sinfonias e outras duas sem numeração -, algumas das principais ideias do Beethoven dos últimos quartetos e sonatas: a ampliação das formas tradicionais, o alongamento de movimentos que mais parecem preces ou meditações. Brahms chamou-as de "jiboias sinfônicas", quem sabe pensando nos enormes adágios de suas sinfonias, sobretudo da oitava.

Anteontem, o público da Sala São Paulo pôde compartilhar um raro momento de música grandiosa interpretada não apenas de modo correto, mas com competência e apetite.

Foi nos monumentais Adagio e Finale da Oitava Sinfonia de Bruckner que o regente britânico Frank Shipway e os músicos da Osesp demonstraram de modo mais explícito a paixão que os une na prática da música. Uma eletricidade que percorreu o Adagio e permeou-se pelo Finale.

É raro, mas Shipway, regendo de cor e com os músicos eletrizados em sua figura, conseguiu afastar o maior perigo quando se conduz um mamute sinfônico como esta Oitava, empilhando episódios de imensos crescendos que, se malfeitos, provocam a sensação de repetição enfadonha. Quando não há a firme concepção arquitetônica da obra como um todo, é grande o risco do tédio no palco e na plateia. Ao contrário, Shipway estabeleceu finas gradações de andamento entre o Adagio, marcado como 'solenemente lento, mas sem arrastar', e o Finale, que leva a indicação 'solene, sem precipitação'.

Na coda dos compassos finais, deu-se a epifania que Bruckner tanto buscou em sua obra sinfônica inteira.
Ali, ele funde ciclicamente, de modo emocionante, os temas dos quatro andamentos da sinfonia, depois de 80 minutos de música intensa: o tema do Allegro moderato surge nos violoncelos, contrabaixos, trombones, tuba, quarta trompa e fagotes; o do Scherzo nas flautas clarinetas e trompetes; o do Adagio em duas trompas; e o do Finale na terceira trompa.

A regência de Shipway provocou outro momento raro:
entusiasmadíssimos, os músicos da Osesp, ainda imantados pela performance excepcional que conquistaram na Oitava, aplaudiram o maestro não apenas batendo os pés ou os arcos nos instrumentos de cordas, mas batendo palmas com as mãos, como o público de pé. Não estive nos concertos da semana passada, também comandados por ele, mas soube que o mesmo aconteceu. Sem dúvida, a relação entre Shipway e a Osesp é um caso de amor definitivo, reafirmado na prática musical de excelência sempre que ele nos visita. Que Shipway volte muitas vezes.

Como eu nunca tinha ouvido algo de Bruckner, faço questão de apresentar este Finale da 8a. Sinfonia.

Karajan conducts Bruckner 8
(final movement, from the recapitulation)



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