domingo, 6 de maio de 2012

Tonico e Tinoco, para sempre

A Viagem Continua

Leiam a segunda parte da ótima matéria do Estadão sobre a dupla Tonico e Tinoco:

A última viagem
Sem Tinoco, a cultura caipira perde um de seus últimos e mais legítimos representantes
05 de maio de 2012 | 5h 00 - Julio Maria - Estadão

Como fez Luiz Gonzaga com seu sertão, Tonico e Tinoco passavam a representar um outro homem do campo que só ganhou força quando as gravadoras viram que eles eram muitos. E que de cada tijolo que faziam parecia sair um prédio. Chico Mineiro, Tristeza do Jeca, Beijinho Doce, Paraguaia, Luar do Sertão, A Moda da Mula Preta, Chico Mulato, Estrada da Vida, João Carreiro. Chitãozinho e Xororó, antes de ser dupla, era música que cantavam em circo do interior. Um programa só era pouco. Depois das modas, tinham os causos. Ou melhor, para cada uma delas havia uns três deles.

A vida de Tonico e Tinoco já começa em forma de moda. Pois lá estavam eles para registrar seu primeiro disco, estúdios da Gravadora Continental, ano de 1944. Hora de cantar o cateretê Invés de me Agradecê. O lado A do disquinho de 78 rotações de duas músicas da época saiu que foi uma beleza. Quando foi a vez de soltar a voz para gravarem o lado B, emocionados com o feito do A, soltaram a bicha demais. Já poderosa por ser ‘duas em uma’, saiu tão alta que danificou o microfone. Gravar um disco na época era coisa cara, eles não teriam outra chance. Invés de Me Agradecê saiu então com um lado só, e os irmãos perceberam que era hora de educar a emoção. Foram ter aulas com um professor.

A saga de Chico Mineiro foi consagradora, mas quase não aconteceu. Depois de lançarem cinco discos, Tonico e Tinoco ouviam o público reclamar, tinha gente que não entendia bem o que eles diziam. Ou as frases não eram bem pronunciadas ou havia caipirês demais ali. A gravadora decidiu que aquele seria o último disco. Quando o torpedo saiu, ninguém acreditou. Chico Mineiro deu nome nacional aos irmãos e rendeu dinheiro suficiente para que os dois comprassem suas primeiras casas próprias. E ainda havia gente dizendo que música caipira era coisa de gente sem cultura. Que bom, sobrava mais.

Algo falava a Inezita Barroso que era hora de colocar aquele homem de volta à cena, nem que fosse pela última vez, por algumas horas. Um dos seus mais notáveis programas, já na galeria de melhores pelo valor histórico, será apresentado amanhã, às 9h. Um show seu estava previsto para a Virada Cultural, às 13h de amanhã. Assim que terminaram as gravações, Inezita desceu de elevador ao lado do parceiro. Sentiu seu peito cansado, ainda trêmulo, mas sem perder o sorriso. No dia seguinte, quinta-feira, passou mal e foi hospitalizado. Na madrugada, à 1h40 de quinta para sexta, seu pulmão e seu coração pararam no Hospital Municipal Doutor Ignácio Proença de Gouvêa, na Mooca, zona leste de São Paulo.

Os médicos disseram que Tinoco havia sofrido um silencioso enfarte dois dias antes, mas não percebeu. Dois dias antes era exatamente quando ele estava em um de seus melhores momentos, revendo a trajetória que fez ao lado do irmão, em um programa de televisão com gente que cantava suas músicas e ria de tudo o que ele dizia. Era como se a tinhosa lhe desse um dia a mais para tirá-lo de cena.

Sua felicidade ali era invencível.

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