terça-feira, 27 de março de 2012

Seis anos com Mantega na Fazenda

Do neo-liberalismo ao social-desenvolvimentismo

“Deus escreve certo por linhas tortas”, os cristãos conhecem bem esta frase e esta profecia. No Brasil, além de escrever por linhas tortas, Deus também é chamado de brasileiro, e é Fiel, quase corinthiano.

Foi por meio de linhas tortas que Mantega virou Ministro da Fazenda.
Professor da FGV e assessor de Lula, foi crescendo no governo e hoje é o “braço direito de Dilma”.

Se fosse um ministro neo-liberal a imprensa estaria dando páginas inteiras, editoriais e TVs.
O que importa é que Mantega é Keynesiano e vem fazendo um bom trabalho na economia.

Este texto de Vinícius Freire, articulista da Folha, falando sobre o “aniversário de posse de Mantega”, não deixa de ser um elogio. Realmente Mantega merece muitos elogios.

Mantega, o longa vida improvável


Vinicius Torres Freire – Folha SP – 27/03/12

Ministro faz hoje seis anos na Fazenda e
acabou por mudar a política econômica que vinha dos anos 1990

"A POLÍTICA ECONÔMICA não mudará. A política econômica é a política econômica do presidente Lula. O presidente Lula é o fiador dessa política econômica. Além disso, a política econômica não deve mudar porque é a política econômica mais bem-sucedida dos últimos 15 ou 20 anos no Brasil."

Era o que dizia Guido Mantega em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Fazenda.
Hoje, faz seis anos que Mantega está no posto. Em longevidade, perde apenas para Pedro Malan (1995-2002), ministro durante todo o governo FHC, e para Artur de Souza Costa (1934-1945), que teve a administração cortada por algumas interinidades. Mas Mantega durou mais que Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen, que fizeram história no cargo, durante a ditadura militar.

Mantega assumiu sob grande descrédito, embora a indústria tenha ficado contente com sua nomeação. Sob Lula, havia sido ministro do Planejamento e presidente do BNDES. Substituiu Antonio Palocci, frito por escândalos. Economistas padrão, o pessoal da finança, "organismos internacionais", a mídia financeira global, todos fizeram luto.

Queriam Murilo Portugal,
vice de Palocci, como novo ministro. Portugal ocupou vários cargos públicos na vida, mas era quase um embaixador tucano no ministério. Aliás, a equipe de Palocci poderia ser a de um governo tucano -atenção, não há insulto nesta frase.

O paloccismo era arroz com feijão fiscal (controle de gastos), aliança com o Banco Central "falcão" e um programa de execução de reformas ditas "liberais" - as de fato executadas eram apenas racionais e foram um fator importante na retomada do crescimento que viria.

A política econômica de fato não mudou em 2006-07. Mas deixou de pender para o lado "liberal". Sob inspiração de seus assessores (Portugal, Marcos Lisboa, Joaquim Levy), Palocci propunha redução de gastos públicos mais permanente, menos gasto social, desvincular reajustes da Previdência do salário mínimo (e reforma da Previdência), mais abertura comercial e mais reformas microeconômicas.

Mantega combatera Palocci, entrara em atritos públicos com os secretários da Fazenda e diretores do BC, fritava Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), reclamava do dólar barato (a R$ 2,20, quando assumiu) e queria bancos estatais como motores do crescimento.

Em 2007, começou a falar em "social-desenvolvimentismo", "crescimento com distribuição de renda", o que ocorrera, de forma minguada, entre 2004 e 2006, e que ficaria mais importante em 2007-08.

A mudança da política econômica começou a aparecer na forma de desenvolvimentismo acidental", a enxurrada de intervenções estatais que foi a resposta do governo Lula à crise mundial, em 2008.

Dados o contexto econômico global, o grande desastre de políticas ditas "liberais", o experimentalismo macroeconômico nos centros econômicos mundiais (mais por precisão, não por boniteza), a força da "heterodoxia" chinesa e o relativo sucesso brasileiro de curto prazo, ao menos,
Mantega venceu.

Sob Dilma Rousseff (que combatera o paloccismo quando ministra), o enterro da política econômica de matriz tucana tornou-se programa explícito. E "o mundo não acabou", como dizia o "establishment".

3 comentários:

  1. Peguei o Mantega no Planejamento. Tive duas ou três reuniões com ele, mas todas em momentos cruciais, greves dos bancários, BB e CEF com dificuldade de arrumar soluções.

    Quem emperrava era sempre a Caixa, com o Matoso presidente. Um sujeito tão "fino" que nós o apelidamos de "Matosinho Pocotó", apodo tirado do funk da eguinha, que estava em voga.

    Vi o Mantega aturar as maiores grosserias do "Pocotó", que realmente dava coices para todos os lados. Aturar as grosserias e buscar soluções. Um gentleman. Um conciliador.

    Quando ele foi para a Fazenda, comemorei duas vezes: sua chegada... e a saída do Palocci.

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  2. Esse País deve muito a coragem de LULA e aos ensinamentos de Mantega, que trouxeram milhares de pessoas para às Classes C, D, E e ainda, tiraram milhões de pessoas da miséria absoluta. Ainda temos um caminho longo pela frente, mas vamos na certeza que teremos "comida" durante o trajeto.
    Mas, não é só de elogios que vivemos. A forma caótica com que trata o Movimento Sindical é ruim. Ruim para um Governo Democrático Popular (que EU votei), mas que não nos trata com respeito. Mantega vê na direção do BB pessoas capazes de trazer os resultados significantes e expressivos, mas não se dá conta de "como" esses resultados são conseguidos. Acredita apenas nos dirigentes do BB (Dida) e não percebe várias pessoas pedidno socorro, pois estão adoencendo cada dia mais.
    Pelo povo Mantega conseguiu muiot mas, pelos Movimentos Sociais, nada a declarar...

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