sábado, 3 de março de 2012

Dois Monstros Sagrados

Chico Buarque e Zuza Homem de Mello

Dilma bem que podia pegar o avião e vir assistir ao show de Chico Buarque.
Para nossa geração, o show é uma raridade.

Leiam a matéria especial de Zuza Homem de Mello.
Não precisa complementar nada.

Deleitem-se com mais esta contribuição do Caderno 2
do Estadão de hoje, 03/03/12:

SILÊNCIO E SUSPIROS

Ainda que não queira,
Chico Buarque será o nome da música nas próximas semanas.
Seus shows são de hipnotizar

03 de março de 2012 - ZUZA HOMEM DE MELLO ,
ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S.Paulo

No futuro seremos invejados por termos assistido a Chico Buarque ao vivo. Sua presença causa um frisson diferente em São Paulo, cidade onde iniciou sua carreira. O espetáculo de estreia foi o grande acontecimento social e artístico da noite desta quinta feira. Para ouriçar ainda mais os que ficaram de fora mas estão felizes com seus ingressos assegurados em outras noites da temporada que, prorrogada, seguirá até 8 de abril. Não tem como evitar, temporada de Chico tem que ser prorrogada.

Agora um enxuto sessentão chegando perto dos 70 anos, ele oferece o espetáculo do CD Chico onde escancara sua maturidade numa lindíssima suíte. É a mais recente demonstração de um indômito criador de canções antenadas com seu tempo, de admiráveis músicas de seu lugar e de seu povo.

Mesmo que não queira, Chico será nestas semanas o assediado artista do público feminino que entende como ninguém as inexplicáveis mudanças de rumo de sua intimidade. É a geração descendente das vovós e titias que lotavam a plateia do Teatro Record, que já decoravam suas canções, vibravam e cantavam agitando as letras nas mãos e se derramavam vendo o jovem de vinte anos. As moças daquela São Paulo já agitada mas ainda humana haviam descoberto um ídolo além dos olhos verdes, alguém que tocava sua alma com canções. Um artista de roupa igual, que no palco nada mais fazia do que cantar. Nada mais.

Chico Buarque está de novo no palco da cidade para de novo cantar canções. A movimentação no foyer é perfumada pela ansiedade que se desmancha em frenesi até as luzes se apagarem. Ele entra pelo fundo sob o cenário de uma gafieira onde mulheres e homens negros saracoteiam se divertindo no salão. Na elegância do azul marinho, calças e uma malha texturizada de mangas compridas e sapatos estilo Camper, sorrindo discretamente, Chico caminha rápido como de hábito até o centro para atacar as notas da primeira canção, O Velho Francisco. Sua jovem voz anasalada é tranquila e segura, sua atitude é de absoluta concentração, sem firula da qualquer espécie. Chico é quem mais fundo sabe cantar o que ele próprio inventou. Projeta exatamente o valor de cada palavra, a ligação com cada nota, o sentido explicito ou velado de cada frase, o ponto crucial das mensagens, desfrutando do prazer que lhe deu criar cada canção. Na medida exata, nada que falte, nada a mais. É o autor cantando sua própria obra, uma chance que não se deve perder.
Sereno, Chico não está no palco para se exibir. Está de volta ao samba com a sequência das 10 canções maravilhosas do CD, esqueleto de um espetáculo cujo elo é ela, a mulher.

As moças que existem em toda mulher cantam em coro num vago eco de sua voz. Acompanham há muito a obra de Chico, conhecem músicas desde a introdução, reconhecem cada faixa do novo disco, entoam com ele numa felicidade tão grande que não é justo criticá-las pela tietagem. Exagero? O ídolo é delas.

A plateia segue magnetizada, hipnotizada com cada número, familiarizada com as novas canções e embevecida com as que já amava. Injuriado, O meu amor, Terezinha, Sob medida, temas essencialmente femininos num roteiro que combina admiravelmente com as músicas do CD.

Ponto altíssimo do espetáculo a cinematográfica e outrora malfadada Geni e o Zepelim, pela primeira vez num show de Chico, numa apresentação primorosa que inclui um dramático e fundamental desenho de luzes. Segue-se a descontração com os músicos, quando olha significativamente para o esplêndido diretor musical Luiz Claudio Ramos, diverte-se com o baterista Das Neves, preparando o espetáculo para o final com a obra prima Sinhá. Faltava porém a Barafunda. Vem num quase bis, mais um complemento. Como o Velho Chico que alimenta de vida e beleza quem vive em suas margens, quem navega em suas águas, também o velho Chico alimenta de vida e beleza quem canta suas canções. Entrou em cena sem esconder que atingiu a maturidade. Chico sabe que música rejuvenesce.

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