sábado, 24 de março de 2012

Casamento do Cinema com a Dança

Wim Wenders e Pina Bausch

Até conhecer Pina Bausch, Wim Wenders não gostava de dança.
“Acho dança uma chatice”, assim Wim Wenders já pensou um dia.
“Aí eu vi um espetáculo de Pina Bausch, Café Muller, e tudo mudou. Ela me arrebatou, me comoveu até as lágrimas”.

O Estadão de Domingo passado, dia 18, publicou uma entrevista muito bonita de Wim Wenders, além de textos de Luiz Zanin Oricchio e de Luiz Carlos Merten.
Duas páginas inteiras com belos textos e muita mensagem. Guardei para publicar com calma, mas não consegui copiar a entrevista. Uma pena!

Mesmo assim, leia o texto abaixo e procure na internet.

Na poesia do movimento, beleza, emoção e leveza


18 de março de 2012 - O Estado de S.Paulo – Luiz Zanin Oricchio

De novidade tecnológica aplicável apenas a blockbusters milionários, o 3D começa a ingressar no circuito de arte. Já tivemos há pouco A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, com suas 11 indicações para o Oscar e sua fábula infantil de homenagem a Méliès, pioneiro do cinema de invenção. Chega agora Pina, do alemão Wim Wenders, um filme homenagem, analítico e emocionante sobre grande bailarina e coreógrafa Pina Bausch (1940-2009).

A primeira coisa a ser dita sobre o filme é que usa o recurso das três dimensões com muita parcimônia. Ou seja, Wenders não faz do avanço técnico um fetiche que acabaria por encobrir o conteúdo. O que ele tem a dizer vem em primeiro lugar; a técnica ajuda porque a ele é subordinada. O resultado é que a utilização sóbria realça o poder da tecnologia, pois a coloca em seu devido lugar, a serviço do homem. Essa é a disposição humanística de Wenders, em consonância com o tipo de homenagem que deseja prestar à sua conterrânea.

Em segundo lugar, mas não menos importante, cabe destacar que o cineasta alemão não faz uma cinebiografia convencional, com amplas informações sobre a personagem e muitos depoimentos. Talvez a trajetória de Pina seja muito interessante, mas quem a deseja em detalhes pode dar uma conferida no Google. O cineasta prefere, ao contrário, destacar o trabalho e o modo de criação de Pina, mais do que os acontecimentos da sua vida real. Monta uma sequência coreográfica e musical narrada como se fosse uma história, não da personagem em si, mas da própria humanidade, com suas aspirações, grandezas e fraquezas. Acima de tudo, com sua capacidade de produzir beleza em seus elementos de vida cotidianos. Pina aparece com frequência, mas o destaque é mais para as ideias que colocou em prática do que sobre a sua pessoa. Não há nada ali que esteja fora da dança.

Portanto, quem comanda o filme é a veia inventiva de Pina Bausch, uma coreógrafa que sabia tirar poesia do movimento e de elementos como a pedra, a água, o abismo. Daí o caráter visceral de sua dança, uma arte que atravessa idades e nacionalidades. Há uma leveza extraordinária na maneira como os corpos em movimento desenham o que seriam as ideias da coreógrafa, produzindo sentidos, ou melhor, sensações, nem sempre conscientes. Pensada dessa maneira, a dança de Pina não deixa de ser um estímulo poderoso para a imaginação, uma via aberta para o inconsciente e uma prática de liberdade.

No elenco multinacional (Pina era universal, trabalhava com todas as nacionalidades e com nenhuma) há espaço também para o Brasil, na figura de uma das dançarinas e na canção Leãozinho, de Caetano Veloso, usada na coreografia Água (2001). Beleza, emoção, leveza são os termos que poderiam definir esse filme.

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