segunda-feira, 19 de março de 2012

Argélia, Paris, Líbano e São Paulo

Nas Esquinas da Vida

“Há exatos 50 anos, no dia 19 de março de 1962, terminou a Guerra de Libertação da Argélia, para a França, marcou a saída do abismo e o início da longa amargura.”
Com estas palavras o jornalista e correspondente do Estadão na França, Gilles Lapouge, fala sobre uma das guerras que envergonha a História da França. O Hino e a frase “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” estavam invertidos. Valiam para a Argélia, não para a França. Gilles Lapouge esteve em Argel neste dia, já como correspondente do Estadão. Viveu e registrou a História.

Argélia: sangue e liberdade

18 de março de 2012 - GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo

Há exatos 50 anos, representantes do general Charles de Gaulle e do Governo Provisório da República Argelina (GPRA) reuniram-se em Evian, a luxuosa estância termal na margem francesa do Lago Léman, para assinar um cessar-fogo. Foi assim que, em 19 de março, terminou a Guerra da Argélia - tragédia terrível que derrubou uma república, trouxe de volta ao governo o general De Gaulle, matou cerca de 30 mil soldados franceses e 500 mil argelinos, dilacerou a França e pôs fim ao império colonial francês.

O pesadelo começara oito anos antes, em novembro de 1954. Em Aurès, na parte oriental da Argélia, dois professores franceses, o casal Monnerot, são assassinados. A França mal fica sabendo desses fuzilamentos "no fim do mundo". No entanto, são o prenúncio das torrentes de sangue que maculariam o solo da mais bela possessão da França. Aquele novembro frio e nublado entrou para a História como o "Toussaint Rouge" (Dia Vermelho de Todos os Santos).
A Argélia fora a França do outro lado do Mediterrâneo. Uma joia. "Por toda a parte há água e terras férteis", dizia o conquistador do território, general Robert Bugeaud, em 1847. "Usei o fanatismo dos árabes a ponto de eles hoje estarem submissos como carneiros." Um século mais tarde, os "carneiros" tornaram-se "feras".

Em 1913, depois em 1940, eles lutaram com as tropas francesas contra os alemães. Infelizmente, no dia da vitória contra o Reich, 8 de maio de 1945, distúrbios nacionalistas explodem na cidade de Sétif. Dezenas de milhares de argelinos mortos. Em 1954 nasce a Frente de Libertação Nacional (FLN), que organiza o "Toussaint Rouge".

De Gaulle ressurge. Em Paris, o governo é do formidável Pierre Mendès-France - o ministro do Interior é François Mitterrand. Os dois, de esquerda, respondem com repressão. No ano seguinte, Mendès-France cai. A consciência francesa fica dividida. Os governos caem como um castelo de cartas. Em Argel, os "pieds noirs" - como eram chamados os colonos franceses - organizam-se. Em 13 de maio de 1958, um golpe explode. O general Jacques Massu, na Argélia, apela ao general De Gaulle, que sai do seu ostracismo. E se torna presidente do Conselho de Estado.

Paris envia um contingente de 400 mil soldados para lutar contra 25 mil combatentes argelinos. A luta atinge toda Argélia, incluindo as grandes cidades. O Exército francês endurece. Para limpar a "kasbah" (bairro árabe) de Argel, Massu recebe plenos poderes. E começam as atrocidades: os argelinos massacram, cortam braços, pés, colhões, em resposta às torturas infligidas pelos soldados franceses. Os dois lados convergem para o abismo.

A maioria dos países estrangeiros compreende o combate dos argelinos. De Gaulle busca a negociação. Os "pieds noirs" irritam-se com o De Gaulle que ainda ontem adoravam. Em janeiro de 1961, Argel se levanta. De Paris, De Gaulle dá ordens ao contingente de soldados para desobedecer seus chefes. O golpe fracassa. Um ano mais tarde são assinados os acordos de Evian, o cessar-fogo e a independência da Argélia.

Esse foi o fim do Império Francês. Como nas tragédias reais, não há culpados, nem inocentes. Apenas franceses e argelinos comuns, estrangulados por acaso pela mão de ferro da história. O dia 19 de março de 1962 marcou a saída do abismo. E o início da longa amargura. / Tradução Terezinha Martino.


Do Líbano para São Paulo,
de um libanês nasce um brasileiro do Mundo: Ab’Saber

“Há pouco mais de 60 anos, com a palavra do geógrafo Aziz Naci Ab’Saber, o Brasil começou a conhecer em profundidade seus biomas.”
Com estas palavras de respeito profundo, o Estadão começava o artigo de página inteira sobre Aziz Ab’Saber, que faleceu na sexta-feira passada.

Demorei para escrever sobre Ab”Saber porque queria ler tudo que nossas lideranças e autoridades, além da imprensa iam falar sobre ele. Confesso que queria mais sobre o ser humano. Ele, além de sábio, era uma pessoa de muitas histórias. No movimento sindical, várias vezes tive a oportunidade de conviver com ele, mas a imagem que me marcou foi o fato de encontrá-lo perto de casa, na Vila Sônia, e ao perguntar o que ele fazia por ali, ele respondeu “meu filho mora aqui perto”, creio que no Peri-Peri. Perto da Av. Eliseu de Almeida.

Ali, perto da Av. Eliseu de Almeida, também morou um outro brasileiro brilhante: Mauricio Tratemberg.
Ab’Saber, filho de Libanês como milhares de outros brasileiros, destacou-se como pesquisador, professor e sábio, além de bom militante político.
Uma pessoa do Mundo, das Esquinas de Vida.

Esta música tem a ver com estas Histórias, que não podem ser esquecidas.
Caçador de Mim com Milton Nascimento


3 comentários:

  1. Sobre o Aziz, ele era mesmo um homem de campo. Não era geógrafo da academia, mas um sujeito que ia ver de perto o que acontecia com os brasileiros. Um dia ele me disse que estava na periferia ensinando as mulheres a aproveitarem talos de verduras pra fazer sopa. Incrível, né?

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  2. Fora de pauta: ganhou afago no discurso do Vagnão, hein? Merecidíssimo. Lembro sempre daquela infausta plenária em Cajamar, quando o Vicentinho se absteve na votação... ;)

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  3. Gosto muito do Lapouge, ele tira um pouco da rispidez reacionária do Estadão. Não é de esquerda, mas mostra-se muitas vezes humanista. A matéria dele é boa - se bem que o número que eu sempre li era de 1 milhão de argelinos mortos, o dobro do que ele fala. A população total era de 9 milhões. Um genocídio.

    Mas faço ressalva para o final da matéria dele. Sem culpados?! Esse é o caso típico de um imperialismo selvagem (tem algum que não o seja?...)! E com a cumplicidade de uma "esquerda" social-democrata que sujou as mãos com sangue argelino. Não por acaso, Pontecorvo fez um clássico do cinema com "A batalha de Argel". Os métodos de tortura dos franceses foram absorvidos pelos EUA e tornaram-se uma "expertise" repassada às ditaduras latino-americanas. Haja falta de culpa!

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