quinta-feira, 22 de março de 2012

Ab’Saber - O sábio e a biblioteca

A vida e a morte na USP

A gente conhece o sábio não apenas pelo seu conhecimento ou seus títulos, mas também pelo seu comportamento. Este depoimento da aluna da FFLCH da USP, mostra pequenos detalhes de uma instituição e da vida das pessoas que nela estudam ou trabalham.
O professor Goldemberg fez um bom artigo sobre Ab’Saber, mas a instituição que ele foi reitor poderia ter feito mais. É que o atual reitor da USP não tem o perfil de um Goldemberg. Realmente são outros tempos.

Mensagem via e-mail do professor Caio Toledo, da Unicamp:

“Repasso a emocionada e lúcida nota,
de uma estudante da FFLCH, sobre Aziz Ab´Saber.

Talvez seja um das mais belas homenagens prestadas a esse digno intelectual que, até o fim de sua vida, combateu incessantemente as profundas iniquidades da sociedade brasileira”.

De Maria Carlotto, aluna da FFLCH-USP

Ontem [15 de março], por volta das 22h, um funcionário da Faculdade de Filosofia passou avisando aos poucos que restavam que a biblioteca estava fechando.
Desci as escadas e, como sempre, vi o professor Aziz Ab´Saber sentado em uma mesa de canto lendo, com a ajuda de uma lupa, um livro de quase mil páginas.
As luzes da biblioteca estavam se apagando, mas ele insistia em continuar, resistindo no limite da desobediência.

Nos últimos anos, vi essa cena muitas vezes e ontem, por um segundo, sorri por simpatia daquele professor que não precisava estar ali, numa quinta-feira de chuva, enfrentando uma tarefa que parecia superar as suas forças.

Hoje à noite [16 de março] cheguei nessa mesma biblioteca e a mesa estava vazia.
Nenhuma nota de falecimento.
Tudo funcionava normalmente, impelido por uma corrente de normalidade que nos oprime e contra a qual ele dedicou a sua vida, com grandes obras e pequenos gestos como esse, de resistir diante de um livro, sobre uma mesa no escuro.

Talvez seja o prenúncio dos tempos que se iniciam numa USP, que certamente não foi a que ele conheceu.”

Um comentário:

  1. Zé Roberto Barboza27 de março de 2012 07:56

    Emocionante o texto. Tempos "modernos"?...
    Ainda bem que uma estrela solitária brilhou em meio à indiferença.

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