quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Vila Madalena e o Dilúvio

Como sobreviver em nossa cidade

Deus andava preocupado com a destruição que as construtoras estão fazendo na Vila Madalena e resolveu fazer uma advertência aos moradores da Vila e sua vizinhança.

No primeiro dia, Deus mandou o Sol esquentar muito. E a Vila Madalena parecia que ia pegar fogo. Um calor imenso, as mães ficaram preocupadas com os filhos, com medo de insolação, os idosos tiveram que beber muita água, e ao deitarem à noite, os moradores ou tiveram que usar ventiladores, ar condicionados, ou que agüentar os pernilongos. Além do calor, os moradores da região, todos os anos, convivem com os pernilongos. De repente, os moradores da Vila Madalena ficaram parecendo nordestinos, rezando para Padre Cícero mandar chuva para refrescar a Vila.

No segundo dia, Deus mandou uma chuva de apenas uma hora de duração. Aquilo que no início parecia que Deus teria ouvido às preces dos moradores, que viria a chuva para baixar a temperatura e molhar as plantas, transformou-se num grande vendaval, com chuva de granizo, mas parecendo as pragas de Moisés. As árvores perderam folhas e galhos, os semáforos se apagaram e a água jorrou em tanta quantidade que as calhas das lojas e residências não comportaram tanta água, inundando os espaços e as ruas. De repente, o povo da Vila Madalena voltou a cantar, como os nordestinos cantam a música de Luiz Gonzaga, “Senhor, eu pedi prá chover, mas chover de mansinho”.

No terceiro dia,
Deus amainou também a tempestade. E, quando os moradores começaram a comemorar à Paz na Vila, eis que aparece um “arrastão” num prédio luxuoso da Vila Madalena, bem no centro da vila. Homens bem vestidos e portando armas poderosas invadiram o prédio, e um dos motivos que facilitou o acesso dos bandidos foi a falta de energia elétrica em conseqüência da forte tempestade. E, por ironia, até os novos ricos da vila, que pagaram fortunas por apartamentos que pareciam mais seguros que as casas dos simples moradores, estes novos ricos também viveram as pragas de Moisés e a insegurança quotidiana de nossa cidade. E como a polícia raramente consegue recuperar os objetos roubados, além de as pessoas ficarem traumatizadas, os moradores voltaram a rezar, pedindo a Deus que os protegessem, já que os homens não estão garantindo proteção.

No quarto dia, Deus ficou com pena dos moradores da Vila Madalena, e amainou o sol, parou a tempestade, e disse para os moradores: - Quanto à segurança, vocês vão ter que montar um esquema próprio, em parceria com os governos, mas não ficarem reféns nem das empresas de vigilância nem somente dos soldados, deve ser através da criação da polícia comunitária ou cidadã, como já existe no Canadá e em muitos outros países.

Para amolecer os corações dos moradores, Deus enviou o sabiá para começar a cantar neste ano de 2012. E às seis horas da manha de hoje, ainda escuro, quando eu comecei a passar o creme de barbear no rosto, ouvi um primeiro gorjeio do Sabiá. Um gorjeio curto, como testando a garganta. Quando eu comecei a passar o barbeador, o sabiá soltou o canto, conclamando as pessoas a prestarem mais atenção nas flores e nos cantos dos pássaros.

Depois de ouvir o canto do Sabiá, quanto peguei às ruas da Vila Madalena para vir trabalhar no velho Centro de São Paulo, as ruas estavam mais floridas, a Rua Beatriz, a Pascoal Vito, a Fradique Coutinho, a Madalena, todas elas floridas. E até a Rua Consolação também está aumentando a quantidade de flores.

Em vez de estimular o ódio, podemos nos unir para que a Vila e nossa cidade seja mais agradável e acolhedora. Podemos priorizar o lado mais educativo e cultural, como a imprensa está divulgando os trabalhos e a importância de Portinari.

Por falar em boas pessoas, Nara Leão estaria comemorando seus 70 anos. O pessoal fez uma boa campanha de recuperação das imagens de Nara. Por que da música dela, a gente nunca esquece.

Nara cantava a música Sabiá, de Tom Jobim, do seu jeitinho singelo.



3 comentários:

  1. Olá Gilmar, sou jornalista do VilaMundo, um site que fala sobre a Vila Madalena. Gostaríamos de publicar seu texto na seção "Opinião", o espaço do site onde os leitores expõem suas produções e opiniões.

    http://vilamundo.org.br/
    http://vilamundo.org.br/editoria/interatividade/opiniao/

    Podemos publicá-lo?

    Obrigada!

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  2. Boa noite, Mayara,
    Tudo que for para o bem da Vila Madalena e de nossa cidade, pode contar com meu apoio. Peço só que identifiquem a fonte. No mais, contem comigo e bom trabalho.

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