sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Renascimento do Cinema

Linduarte Noronha e Aruanda

Os artistas em geral, sejam eles músicos, compositores, pintores, escritores, cinegrafistas e artistas de cinema e teatro. Todos que viveram a década de 60 viveram uma grande fase de transformações no Brasil e no Mundo. Havia uma saturação do “pós-guerra”, os jovens já não queriam viver “do medo de uma nova guerra”. Queriam usufruir da fartura tecnológica e da liberdade.

No Brasil, tudo virava arte e manifestações. E isto assustou os conservadores. Tinham suas razões, em 1959, aqui perto, numa ilha, um monte de jovens barbudos achava que estavam começando uma nova caminhada, um novo mundo.

A reação achava que era preciso impedir as transformações. Os canhões temporariamente venceram as flores. Mas, com o tempo as flores brotaram novamente. E precisamos reverenciar nossos precursores. Nada será como antes, mas o antes é importante para que possamos fazer o novo da melhor forma possível.

O mundo de hoje não conhece Linduarte Noronha. E o Estadão, mesmo sendo conservador em política nacional, consegue ser progressista em Cultura. Vejam parte do artigo publicado no dia 31 de janeiro.

O adeus do pioneiro

O cineasta Linduarte Noronha, morto ontem aos 81 anos, fez história ao antecipar o Cinema Novo com o documentário Aruanda, de 1960

31 de janeiro de 2012 | 3h 07 – Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

Ele foi um dos precursores do Cinema Novo e seu documentário Aruanda, de 1960, é considerado uma das pedras de toque do movimento que revolucionou o cinema brasileiro naquela mesma década. Ontem, (dia 30 de janeiro), Linduarte Noronha morreu num hospital de João Pessoa, na Paraíba. Estava internado na UTI, havia dias, vítima de pneumonia. Morreu de parada respiratória. Tinha 81 anos.

Nascido em Ferreiros, Pernambuco, Linduarte Noronha desenvolveu sua carreira na vizinha Paraíba. O Estado foi (é) um celeiro de cineastas. Lá nasceram Vladimir Carvalho e seu irmão, Walter. Foi ele quem fez o primeiro longa de ficção do cinema da Paraíba.

O Salário da Morte, de 1971, baseia-se no romance Fogo, de José Bezerra, e é interpretado por Margarida Cardoso, Horácio Freitas e por uma jovem que depois se destacou muito - Eliane Giardini. O Salário teve uma produção complicada. Poucos recursos, filmagem interrompida mais de uma vez. A própria crítica decepcionou-se e o público desertou dos cinemas, numa época em que a pornochanchada já dava as cartas no cinema do País. Mas a importância de Aruanda é indiscutível.

Formado em Direito, Linduarte exerceu o jornalismo (e a crítica). Foi cineclubista, amigo de Alberto Cavalcanti e admirador de Humberto Mauro. Acreditava no cinema de raiz e cunhou uma frase que virou a diretriz de seu pensamento - "O verdadeiro cinema brasileiro só poderá alcançar, um dia, a universalidade, ao se voltar para o elemento antropológico." Com essa convicção, e atraído pelo ator natural, não profissional, ele se lançou no curta.

Fez Aruanda e, dois anos mais tarde, O Cajueiro Nordestino, que deflagraram o ciclo paraibano. Vladimir Carvalho foi seu assistente (no primeiro) e toda uma geração de intelectuais se formou no cineclube que animava em João Pessoa.
Duas contribuições foram inestimáveis em Aruanda - a do cinegrafista Rucker Vieira e a do assistente Vladimir Carvalho. Vale contextualizar. Em 1960, o mundo e o cinema estavam mudando. Toda década carrega sua dose de transformações, mas os anos 1960 são considerados aqueles que mudaram tudo.

Influenciados pela nouvelle vague e imbuídos da herança neorrealista, surgiria no eixo Rio/Bahia o Cinema Novo, com a vocação de colocar a cara do brasileiro na tela. Linduarte antecipou-se a Glauber Rocha, que destaca sua importância no Panorama Crítico do Cinema Brasileiro.

Linduarte pode não ter inventado o documentário reconstituído, mas foi o que fez. Aruanda, como gostava de dizer, significa 'terra prometida'. A terra do filme não é prometida. É o duro sertão, com sua dose de carências e dificuldades.

Uma família de quilombolas no alto sertão da Paraíba. Seus pequenos gestos cotidianos são minuciosamente reconstituídos, pelo menos em parte, frente à câmera - como Robert Flaherty havia feito quase 40 anos antes, em Nanook, o Esquimó, em 1922. Uma pegada social, típica do Cinema Novo, mas da solidão desses gestos se depreende também o que não deixa de ser uma dimensão ontológica, como em Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.
O social volta em O Salário da Morte. Numa cidadezinha do sertão, o chefe político é assassinado e o criminoso, um matador de aluguel, acobertado por poderosos, se esconde na casa de uma família humilde. Mas ele termina morto e a família, chacinada.

Linduarte Noronha foi homenageado, em 2007, pelo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Há mais de dez anos, no 33.º Festival de Brasília, a gênese de Aruanda havia sido tema de um debate acalorado. Até que ponto a realidade pode ser encenada e o filme ser considerado documentário?

A polêmica ainda não se esgotou, mas Aruanda e Linduarte Noronha fazem parte do história do cinema no Brasil.

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