segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Keynes e Marx na Europa

Nem neo-liberalismo, nem comunismo

Se “o tempo é o senhor da razão”, a Europa caminha para pagar uma dívida antiga: Dezenas de milhões de pessoas morreram para derrotar o nazi-fascismo, mas os grande vitoriosos no pós-guerra foram a Alemanha, o Japão e muitos que se juntaram aos Estados Unidos para derrotar a União Soviética. Aí inclui-se à China.

O capitalismo venceu a “Guerra Fria” e o neo-liberalismo serviu como política econômica para as empresas reconquistarem seus benefícios contra a Política do Bem Estar Social. Sem a ameaça do comunismo, ficou fácil tomar direitos dos trabalhadores e camponeses. Era só privatizar tudo e fortalecer o Sistema Financeiro Internacional, mesmo que fosse preciso mentir e enganar.

Agora está chegando a hora de

“pensar o impensável” e “dar um passo atrás, para dar muitos passos para frente”,
como diz nosso querido professor Bresser Pereira na Folha de hoje.

Não acho que a melhor solução seja “extinguir o Euro”, o melhor é “flexibilizar o Euro”, isto é, cada país opta por ficar ou não com o euro, permanecendo na União Européia.
Também não acho que o problema está somente em “reduzir salários e benefícios dos trabalhadores e aposentados”; o sacrifício deve ser de todos os setores da sociedade, principalmente os banqueiros e multinacionais. Todos devem participar conforme suas condições.

Enfim, cada vez mais os especialistas estão voltando a estudar Keynes e Marx como contribuições efetivas para evitar a volta do Nazismo e do Fascismo.
Pessoas como o Professor Bresser Pereira, Beluzo e tantos outros podem também contribuir para a Europa e o mundo voltar a sonhar com o socialismo democrático, com respeito à equidade, à pluralidade, à diversidade étnica e religiosa. Vejam as palavras do professor Bresser Pereira:

Euro, pensar o impensável
Luiz Carlos Bresser-Pereira – Folha S.Paulo – 27/02/2012

É melhor que os europeus pensem seriamente na alternativa de extinguir a moeda comum de 17 países

Na China, em 1979,
era "impensável" caminhar para o capitalismo, e, no entanto, Deng Xiaoping pensou e se antecipou à estagnação que ocorreu na União Soviética.
Na Argentina, em 2001, era impensável terminar com o "plan de convertibilidad"; De La Rua curvou-se a esse impensável, e o custo foi uma crise brutal.

Na zona do euro, hoje, é impensável extinguir o euro, e ,no entanto, é melhor que os europeus pensem seriamente nessa alternativa. A criação do euro foi um erro, porque não havia um Estado por trás dele, e porque ele se transformou em uma moeda estrangeira para cada um dos 17 Estados que o adotaram - uma moeda que, nas crises, eles não podem emitir nem desvalorizar.

O impensável é muitas vezes puro medo e conservadorismo de governantes sem visão.
Nesta grande crise do euro, a Grécia tornou-se um país insolvente, mas declarou-se "impensável" reestruturar sua dívida; quando a dívida foi reestruturada com um desconto de 21%, tornou-se impensável aumentar essa porcentagem; quando o desconto foi aumentado para 50%, tornou-se impensável o socorro do Banco Central Europeu a ela e aos demais países e bancos, mas um pouco depois o BCE passou a comprar de forma moderada títulos públicos e inundou o sistema bancário europeu de liquidez. O impensável revelou-se, afinal, a solução.

"Seria a desordem e o caos", gritam os defensores do impensável. Não creio.

A crise dos países do sul da Europa desencadeada em 2010 é de balanço de pagamentos: foi causada pela sobrevalorização do euro implícita que se expressa em salário médio incompatível com o nível de produtividade.
Teve como consequência elevados deficits em conta corrente, seguidos por elevado endividamento externo, principalmente privado. A dívida pública já estava alta porque, diante da crise financeira global de 2008, todos os países haviam adotado política fiscal expansiva.

A extinção implicará alguns riscos, mas o custo de se tentar resolver uma crise causada por deficits em conta corrente através de redução dos deficits fiscais já foi muito grande, mesmo em termos de sacrifício da democracia, e continuará a sê-lo por muitos anos, para todos os países, inclusive para a Alemanha.

Do ponto de vista prático, não haveria grandes problemas. Seria naturalmente necessário imprimir novas cédulas. E, em determinado momento, em vez de retornar às antigas moedas, os países em conjunto transformariam o euro em um "euro nacional": o euro alemão, o euro francês, e assim por diante.
Em seguida, os países com elevados deficits em conta corrente e altas dívidas externas desvalorizariam sua moeda. O que provocaria a queda dos salários e alguma inflação. Mas esta é uma forma muito mais humana e mais eficiente de praticar a austeridade e diminuir os salários do que aquela que está sendo praticada hoje: através da recessão e do desemprego.

No caso do euro, não é apenas o medo da inflação que torna sua extinção impensável.
É também o medo que ela "desestruture" a União Europeia.

Mas não há esse risco; a UE é o mais extraordinário caso
de construção política e social que conheço,
e só ganhará se agora der um passo atrás.
Haverá espaço, no futuro,
para muitos passos adiante.

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