segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Cracolândia, o Garoto e a Serpente

Ano eleitoral é jogo duro!

Dizia um velho barbudo que a história só se repete como tragédia ou como farsa. No Brasil, a tragédia e a farsa estão presentes “um ano sim, outro não”, como dizia uma antiga propaganda da empresa “entregadora de gás de cozinha”. Um ano sim, outro não o Brasil passa por eleições, e a vida de todo mundo vira um inferno.

A imprensa disse que a prefeitura de São Paulo e o governo estadual resolveram “atacar a cracolândia”,
dispersando os dependentes químicos, os drogados, e assim, limpando a área. Provavelmente para viabilizar um mega projeto urbanístico e possibilitar bons preços para as construtoras.

Além de fazerem a limpeza do bairro, mesmo que prejudique outros bairros, a prefeitura e o governo estadual se antecipam a qualquer iniciativa da presidenta Dilma e de seu ministro da saúde. No fundo é tudo jogo eleitoral, não são preocupações com os doentes e os moradores das áreas depauperadas.

Não consigo ler as reportagens atuais sobre “a diáspora dos drogados da cracolândia”. Para mim, predomina uma visão maniqueísta do problema. Os que são a favor da limpeza, e os que são a favor de as pessoas viverem nas ruas. A imagem acaba sendo mais ou menos esta.

Eu sempre argumentei da seguinte forma:


1 – todo morador de rua tem família, ninguém é filho de proveta. Portanto, é possível contatar a família e desenvolver um trabalho de reaproximação e comprometimento;

2 – ninguém é dependente de drogas ou mendigo, de livre e espontânea vontade. Portanto, precisa de apoio externo para se tratar.

3 – é obrigação da família e do poder público ajudar as pessoas dependentes a se tratarem. Portanto, Nem a família nem os órgãos públicos podem se omitir na ajuda aos necessitados. O apoio deve ser compulsório. Isto é, obrigatório. Atualmente, ambos não ajudam. Omitem-se, deixando os demais moradores da cidade reféns desta omissão.

4 - em relação à família, nenhuma mãe ou pai saudável, deixa o filho ou filha ficar dias sem tomar banho ou sem ir à escola. Portanto, é inadmissível que hajam crianças e adolescentes vivendo nas ruas, sem tomar banho e sem ir à escola. A permanência destas pessoas nas ruas e mocós é um atestado público de omissão dos poderes públicos.

5 – este problema não é uma questão jurídica, nem sociológica. É uma questão de dignidade humana, de responsabilidade coletiva da população urbana. URB quer dizer vida coletiva. E para se viver coletivamente é preciso que haja regras de convivência. Não podemos ficar reféns de “mandatos judiciais”, de “vaidades de procuradores públicos” ou outro tipo de alegação para obstruir qualquer iniciativa de solução dos problemas.

6 – há muitos acadêmicos e religiosos que defendem “o direito de as pessoas morarem nas ruas”. Respeito muito os acadêmicos e os religiosos, mas, como pai, como cristão e como humanista, NUNCA aceitei como natural que as pessoas possam viver nas ruas. Para isto, a comunidade, em ação própria, ou com ajuda das religiões, mas, principalmente através das políticas públicas, devem acolher os necessitados. Meu filho ou meu irmão, se depender de mim, nunca viveriam nas ruas, nem ficariam sem tomar banho, ou ir à escola.

Ainda neste sábado à tarde, dia 07 de janeiro, fomos assistir no Espaço Unibanco, que agora virou Espaço Itau na Rua Augusta, ao filme “O Garoto da Bicicleta”. Um filme francês que conta a história de um menino de 9 a 10 anos que é abandonado pelo pai num orfanato, por que a avó faleceu, ele não tinha mãe, e o pai alegava que não tinha como cuidar do menino sozinho. Quem ainda não viu ao filme, precisa vê-lo. É uma lição de vida, mesmo que tenhamos algumas considerações. E, mais uma vez, quem ajuda a resolver o impasse da vida do menino, é uma mulher. Os homens sem as mulheres não conseguem fazer nada... A vida do menino foi salva por um fio... pelo “acaso”. Nossa vida não deveria depender do “acaso”.

Também neste sábado, na parte da noite, na TV à Cabo, passou o filme de Bergman: “O Ovo da Serpente”. A fome, os moradores de rua, as famílias destruídas pelo desemprego, a hiperinflação, as dívidas pessoais e dos governos alemães... E o início do Nazismo. Estava tudo evidente, mas ninguém queria ver. O medo do comunismo russo, naquela época, era mais importante do que o fortalecimento do nazismo e a miséria que os alemães estavam passando.

A Europa passa novamente por imensa crise.
Os Estados Unidos de hoje já não tem a força que tinha no século passado. O mundo está sem referência política, moral e econômica. E estamos só começando o século XXI.

A cracolândia, o garoto da bicicleta e o ovo da serpente.
São sintomas de hoje que são parecidos com os sintomas do início do século passado.
O ideal é que a História não se repita, nem como farsa, nem como tragédia.







3 comentários:

  1. Concordo com quase tudo. Mas o buraco é mais embaixo. Aqui no prédio tem uma senhora mãe de dois filhos, os dois viciados em crack. Ela botou os filhos pra fora de casa e agora eles vivem na rua. A mãe faz o que pode: dá comida, roupas limpas, etc. Mas não deixa nenhum dos dois entrar.

    É que eles roubavam em casa para sustentar o vício. E começaram a bater na própria mãe. É uma senhora de uns 60 anos. Não tem pai presente. Ela estava indefesa. Qualquer dia, um dois dois a matava.

    Não conheço bem a família. Não sei se haveria mais o que fazer. Sei que o crack é uma droga devastadora, que vicia de forma implacável. A maioria dos dependentes não quer tratamento. Já estão mentalmente deteriorados. Ou têm medo da abstinência, sei lá. Eles vivem o horror da ânsia pela droga diariamente, já que o efeito passa muito rápido.

    Não é à toa que o crack ressuscitou o debate sobre tratamento compulsório, que estava sepultado há tempos.

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  2. Prezado Joel,
    Se voce voltar a ler o texto, verá que a obrigatóriedade de cuidar dos doentes é da família e dos poderes públicos. Mesmo com a mãe fragilizada, ela deve acompanhar a internação por parte dos poderes públicos. Veja os itens 4 e 5. Sou a favor da internação compulsória, desde que tratado com Dignidade de Irmão. O quê não é o forte nas Administrações Públicas. Mas um erro, não justifica o outro.

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  3. Eu entendi, Gilmar. Só contei um caso pra mostrar o quanto é difícil conviver com drogado, ainda mais do crack. Quanto à internação compulsória, não sei. Meus princípios de ex-futuro-psicólogo se rebelam contra a ideia. Mas a realidade é bárbara.

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