domingo, 18 de dezembro de 2011

Um Jornal de Coragem

O fim da 'guerra estúpida'

Leiam o Editorial do Estadão sobre a Guerra do Iraque, publicado ontem.
Editorial do “O Estado de S. Paulo” - 17/12/2011

Emad Risn, colunista de um jornal de Bagdá, provavelmente resumiu melhor do que ninguém o que significa para os iraquianos o fim oficial da guerra iniciada há quase nove anos pelos Estados Unidos, a pretexto de eliminar a ameaça encarnada pelo ditador Saddam Hussein com seus arsenais de destruição em massa que Washington decerto sabia serem fictícios. "A guerra só acabou para os americanos", escreveu Risn. "Ninguém sabe se a guerra terminará também para nós." A invasão do Iraque, de fato, não serviu nem para mitigar a hostilidade ancestral entre as suas principais seitas etnorreligiosas - os majoritários xiitas, os sunitas que os oprimiam sob Saddam e os curdos separatistas concentrados no norte do país. Entregues a selvagens matanças recíprocas, xiitas e sunitas convergiram apenas na insurgência contra os invasores para tornar intolerável a sua presença. Até o fim do mês, os 4 mil militares americanos remanescentes terão partido.

A guerra que começou com uma mentira termina com uma meia-verdade. A mentira: George W. Bush usou desde o início o ultraje de 11 de setembro de 2001 para destruir Saddam - o que o primeiro Bush, George H. W., foi desaconselhado a fazer na Guerra do Golfo de 1991 pela Arábia Saudita aliada dos Estados Unidos. Era o que queriam também os teóricos neoconservadores enquistados nos centros de decisão de Washington, com a sua fantasia de implantar no coração do mundo árabe uma democracia pró-ocidental. A preocupação com a segurança de Israel, os interesses econômicos e geoestratégicos americanos no petróleo iraquiano, os cálculos eleitorais do presidente e o seu ódio a Saddam, que ameaçara matar o seu pai -, eis a origem da catástrofe infligida ao Iraque, sob a capa das suas imaginárias armas químicas e atômicas. A ignorância abissal de Bush fez o resto. Até pouco antes da invasão, ele desconhecia o antagonismo entre xiitas e sunitas.

A meia-verdade: ao ordenar a retirada total das tropas, salvo as poucas centenas de soldados incumbidos de guardar a fortaleza que abriga os diplomatas americanos em Bagdá, Barack Obama estaria apenas sendo fiel à promessa de campanha, que lhe rendeu não poucos votos, de encerrar de uma vez por todas o que chamava de "guerra estúpida" (e passaria a chamar "guerra de escolha", para diferenciá-la da "guerra necessária" no Afeganistão).

Na realidade, o que deu o empurrão definitivo para a saída foi a recusa do governo iraquiano do primeiro-ministro (xiita) Nuri Kamal al-Maliki de assegurar imunidade às tropas que ficassem por delitos de qualquer natureza. O país não esquecerá as atrocidades de soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá. Nenhuma autoridade iraquiana, por sinal, compareceu na quinta-feira à solenidade de 45 minutos conduzida sobriamente pelo secretário de Defesa Leon Panetta no aeroporto de Bagdá para formalizar o fim da guerra.

As estatísticas são devastadoras. As baixas fatais americanas foram da ordem de 5 mil, sem contar as dos aliados britânicos, australianos e de outras nacionalidades. Cerca de 110 mil civis iraquianos pereceram e 1,5 milhão fugiu para países vizinhos. Não se conhece ao certo o custo financeiro, para os Estados Unidos, da sua imperdoável aventura. O custo oficial é de US$ 800 bilhões, mas estimativas independentes falam em até US$ 3 trilhões. Seja qual for o dado verdadeiro, é impossível dissociar dele o estado crítico das finanças americanas - sem falar que boladas milionárias foram desviadas por empresas contratadas por Washington para prestar serviços no Iraque. A corrupção iraquiana não fica muito a dever. O país está estilhaçado em mais de um sentido. Desde a invasão, em 17 de março de 2003, a população de Bagdá não sabe o que é ter um dia inteiro com energia elétrica. Teme-se que as forças de seguranças treinadas e financiadas pelos Estados Unidos sejam leais antes às suas seitas do que ao governo de turno. O vácuo de poder é palpável.

E os aiatolás xiitas iranianos assistem a tudo, deliciados. Na sua soberba cegueira, os americanos lhes deram o que não conseguiam desde a Revolução Islâmica de 1979: ser uma influência poderosa na política iraquiana.

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