terça-feira, 22 de novembro de 2011

USA - “Decifra-me ou te devoro”

“Alguma coisa está fora da ordem”

Está todo mundo olhando para a Europa, mas “o ovo da serpente” está nos Estados Unidos. Por ser o país com a maior economia do mundo e não um continente com 27 países filiados e mais outra dezena participando da União Européia ou fora dela, os Estados Unidos têm tudo para ver a crise crescer e perder o controle.

Não há no governo atual
e não há perspectiva de aparecer em curto prazo um novo Roosevelt para impedir o “default”, como os economistas gostam de falar. Parece aqueles filmes de bang-bang, quando a carruagem vai em alta velocidade para o precipício e os passageiros gritam desesperados esperando por um “mocinho”.

O ideal é que este “mocinho” apareça, seja como uma pessoa ou como um coletivo. A incerteza e o descontrole não costumam gerar bons filhos... A revista alemã, Der Spiegel, mais uma vez, apresenta um bom texto.

“A segunda idade do ouro
Mark Twain criou a expressão em período em que 'brilho exterior' disfarçava a realidade do cidadão comum.
Terça, 21 de Novembro de 2011, 03h04 – O Estado de S. Paulo - Economia
THOMAS SCHULTZ , DER SPIEGEL, / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Inicialmente, os cidadãos "indignados" do movimento "Ocupe Wall Street", de Nova York, eram ridicularizados. Afirmava-se que não tinham nenhuma chance, e eram considerados incapazes de desafiar seus oponentes, os banqueiros de Wall Street, intelectualmente ou em termos de conhecimento da economia.
"Nós somos os 99%" - é o slogan dos manifestantes, que surpreendentemente resumem o ponto central da economia dos Estados Unidos. Na realidade, eles deram forma a um processo que vinha se desenrolando no país ao longo de décadas, numa evolução que acadêmicos e especialistas tentaram analisar em livros e ensaios. Trata-se de um processo tão profundo e revolucionário que abalou a nação mais poderosa do mundo.

A desigualdade existente nos Estados Unidos é a maior em quase um século. Os afortunados que pertencem ao 1% restante constituem a classe dos super-ricos; os outros 99% estão no outro no lado oposto. Mas mesmo num país que sempre aceitou extremos como parte da sua identidade, o abismo acabou se tornando profundo demais. Nos Estados Unidos, os bem-sucedidos são aclamados. Ter ciúme da riqueza dos outros é considerada uma atitude típica de quem defende a luta de classes, algo malvisto aqui.
No entanto, as estatísticas indicam que a crescente disparidade se tornou realmente esmagadora. De fato, os 400 americanos mais ricos agora detêm muito mais do que os 150 milhões de americanos das classes mais baixas possuem em conjunto.

Cerca de dois terços dos bens privados estão nas mãos de 5% dos americanos. Em comparação, os 5% da classe mais alta na Alemanha detêm menos da metade dos bens. Em 2009, enquanto os EUA eram abalados por demissões em massa, o número de milionários cresceu.
Na realidade, se olharmos os relatórios que a agência compila em cada país, a CIA concluiu que a disparidade da riqueza é maior nos Estados Unidos do que na Tunísia ou no Egito.

'Idade do ouro'. Em livro publicado em 2010, os cientistas políticos americanos Jacob Hacker e Paul Pierson afirmam que esta "hiperconcentração de ganhos econômicos no topo" da pirâmide social já existia nos EUA no início do século 20, quando os magnatas da indústria - como John D. Rockefeller, Andrew Carnegie e J.P. Morgan - dominavam a classe mais alta da sociedade e já detinham o controle do país.

O escritor Mark Twain cunhou a expressão "Idade do Ouro" para descrever aquele período de rápido crescimento, época em que o exterior resplandecente da vida americana na realidade ocultava o desemprego em massa e a pobreza.
Economistas e cientistas políticos acreditam que os EUA ingressaram mais uma vez numa Idade do Ouro, período de desigualdade sistemática dominado por uma nova classe de super-ricos. A diferença é que, desta vez, os super-ricos são gerentes de fundos e magnatas financeiros, e não barões industriais.

Ameaça. Acadêmicos temem que este mudança possa ter graves consequências para o futuro do país. Esta desigualdade ameaça frear drasticamente o crescimento da maior economia mundial. Especialistas argumentam que este é um processo que se desenrola há anos, mas permaneceu oculto nos anos do crédito fácil, da alta dos preços dos imóveis e do consumo excessivo. Os problemas só vieram à luz com a chegada da crise financeira.
Durante a década de 70, a renda dos americanos de todas as classes sociais cresceu a uma média anual de cerca de 3%. Entretanto, no início da década de 80, esta tendência sofreu uma transformação crucial. Não se pode negar que a economia continuou crescendo, mas quase exclusivamente em benefício dos mais ricos. A grande expansão econômica no governo de Ronald Reagan beneficiou apenas alguns, e os problemas se agravaram na administração de George W. Bush.

Pelo menos desde o início do milênio, o processo de polarização da sociedade americana está se acelerando. Nos anos do crescimento econômico, entre 2002 e 2007, 65% dos ganhos da renda foram para as mãos dos contribuintes pertencentes ao 1% da faixa mais elevada.

Limite. Mesmo se tratando de um país que ama extremos, esta é uma evolução sem precedentes. Na realidade, como afirmam Hacker e Pierson, os EUA evoluíram para uma "economia dos que ganham e levam tudo".
Os cientistas políticos analisaram as estatísticas e alguns estudos sobre a evolução da renda e outros dados econômicos. A conclusão: "Uma geração atrás, os EUA eram um membro reconhecível, embora mais desigual, do grupo de democracias afluentes conhecidas como economias mistas, onde a expansão era em grande parte compartilhada. Isto já não ocorre hoje. Desde os anos 80, nos aproximamos de outro: o das oligarquias capitalistas, como Brasil, México e Rússia."

Este 1% da sociedade americana agora controla mais da metade das ações e títulos do país. Tome-se como exemplo os salários dos executivos. Em 1980, os CEOs americanos ganhavam 42 vezes mais do que o funcionário médio. Hoje, esta cifra subiu às alturas, e chega a mais de 300 vezes. Para comparar, os executivos das 30 maiores companhias do índice DAX da Bolsa alemã raramente ganham mais de 100 vezes os salários dos seus funcionários - em geral, a proporção é de 30 a 40 vezes.

Escolhas políticas. Hacker e Pierson não são os únicos a reconhecer uma distorção fundamental. Larry Bartels, um dos principais cientistas políticos dos país, também acredita que os Estados Unidos ingressaram numa nova Idade do Ouro. O livro que Bartels publicou em 2008 sobre o tema - Unequal Democracy: The Political Economy of the New Gilded Age - vem despertando grande interesse e foi até citado por Barack Obama. "Os ganhos econômicos realmente dos últimos 30 anos concentraram-se entre os extremamente ricos", escreve Bartels.

Ele considera essa realidade "o resultado de escolhas políticas". Como Bertels explica, os chefões de Wall Street de hoje conseguiram uma ampla desregulamentação em seus setores. O ex-CEO do Citigroup Sanford Weill guardava uma caneta emoldurada em seu escritório como o símbolo da sua influência. Era a caneta usada pelo presidente Bill Clinton em 1999 para sancionar - por pressão de Weill - a revogação da Lei Glass-Steagall de 1933, que separava as transações de bancos de investimento e bancos comerciais.

Ao mesmo tempo, escreve Bartels, os ricos recebiam enormes benefícios fiscais no valor de centenas de bilhões de dólares. Na década de 70, sobre os ganhos de capital incidia um imposto de 40%, e a faixa de renda mais elevada pagava impostos de até 70%.
No governo de George W. Bush, estes impostos caíram para 15% e 35% respectivamente. Por exemplo, há poucas semanas ficamos sabendo que, no ano passado, o lendário investidor Warren Buffett ganhou US$ 63 milhões, mas pagou apenas 17% de impostos. “

Um comentário:

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    Abç

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