quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quem vai pagar a conta?

Crises, medos e incertezas

A Europa está num grande impasse. O desemprego é grande, as propostas de cortes de benefícios e de orçamentos são apresentadas pelos “técnicos” como condições para “equilibrar os orçamentos”, os governantes políticos “são demitidos” e substituídos por “tecnocratas”, frios e calculistas... Os Estados Unidos patinam em números pessimistas, mesmo o Banco Central americano ligando a máquina de imprimir dinheiro para distribuir pelo mundo, provocando desequilíbrio cambial.

O Oriente Médio sangra diariamente, com os governos matando pessoas nas ruas e praças, ou facções matando facções, em nome de Alá. O continente africano tenta se organizar, convivendo com massacres étnicos e falta de estruturas e de políticas públicas básicas para a população. A imprensa começa a falar que a China vai desacelerar, provocando inflação interna e desemprego. O que, conforme a imprensa, também já está acontecendo com o Brasil, refletindo nos demais países da América do Sul.

Para onde o mundo caminha?
Alguns teóricos estão falando em esgotamento de sistema capitalista. Outros falam que o capitalismo não está esgotado, mas que precisa ser atualizado. Outros também dizem que é necessário construir um novo sistema. O que sabemos é que as crises geram medos e incertezas. E que as sociedades, por natureza, são defensivas. Na dúvida, abrem mão de certos direitos e benefícios, para terem segurança. Seja segurança de vida (contra mortes violentas), seja segurança de que haverá comida, moradia, escolas, transporte e saúde.

Na medida que a população mais velha aumenta, a preservação das aposentadorias torna-se fundamental. Os jovens precisam trabalhar e o direito a migrarem em busca de trabalho, de estudos ou de lazer torna-se algo também relevante para a perspectiva de vida individual e coletiva. Em qualquer época, o emprego é fundamental. Emprego produtivo, é claro.

O Brasil não está sofrendo tanto com a economia, mas há uma sensação geral de impunidade que incomoda a todos. No início os culpados eram somente os políticos, depois apareceram os assaltos, furtos, invasões de prédios e casas, seqüestros, atropelamentos, bêbados e corruptos em geral. Agora, a corrupção aparece também no judiciário. Onde vamos parar?

Ontem, enquanto assistia ao filme “O discurso do rei”, ficava impactado ao ver o sofrimento individual de uma pessoa que sofria com sua gagueira, e a angústia de um povo que via o inimigo crescer em sua volta e saber que, mais cedo ou mais tarde, teria que ir à guerra mais uma vez. O clima do filme é todo entre as seqüelas da I Guerra Mundial e o início da II Grande Guerra. O gago viveu sua guerra individual e foi curado com a ajuda de “um terapeuta formado na primeira grande guerra”. Já o povo teve que viver uma guerra muito mais intensa do que “uma gagueira”. Foram milhões de mortos e sequelas que ainda estão presentes.

Como gosto de História, dormi pensando que a Inglaterra ganhou a guerra contra a Alemanha, mas perdeu a hegemonia sobre o mundo. E a Alemanha que perdeu as duas guerras, hoje está ditando as regras para esta Europa combalida. Confesso que fiquei ainda mais preocupado com o que estamos vivendo.

Como romper este círculo vicioso?
No filme, o gago se impressiona com a oratória de Hitler. Mas a oratória não foi suficiente para ganhar a guerra, e o gago venceu sua segunda disputa. Ao ler nos jornais de que “alguém precisa pagar a conta” e que quem mais está pagando é o povo e não os banqueiros, fico com a sensação de que “precisamos achar um gago” para aglutinar os povos, e pensar qual deve ser o sistema econômico para o século XXI. Como equilibrar políticas públicas e economia de mercado?

Isto vale também para o Brasil.
Quando li nos jornais de sábado passado, dia 19, que uma empresária atropelou e matou um pedestre, que um metalúrgico teve sua moto roubada e foi obrigado a correr em plena Marginal Pinheiro, sendo atropelado por dois carros, que o judiciário está sob suspeita, que o metrô de são Paulo está sob suspeita, que o ministro do trabalho está sob suspeita, fico pensando: É tão difícil fazer um pacto de governabilidade e de respeito às regras?

E aí me lembro de outro filme, este mais antigo. No filme Spartacus, o senado romano ficou refém da esperteza de um general inescrupuloso que só aceitou combater Spartacus quando os senadores deram-lhe direito de ser Ditador. Qual é o limite para a Europa e para os Estados Unidos? Qual é a responsabilidade do Brasil neste momento. Qual é o papel da imprensa, dos políticos, dos empresários, dos sindicalistas e dos intelectuais? Que filme estamos fazendo?

Um comentário:

  1. No filme Spartacus, o general que vira ditador é Crassus, magistralmente interpretado por Lawrence Oliver. Seu antagonista é Graccus, um senador bon vivant. O ator é Charles Laughton, também genial.

    Crassus acusa a república de ser corrupta. Graccus pensa diferente:
    "Eu aceito um pouco de corrupção republicana, junto com alguma liberdade republicana, mas não aceitarei a ditadura de Crassus, sem liberdade alguma!"

    É pra se pensar...

    ResponderExcluir