quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Paris e os Pesadelos da Modernidade

Os museus refletem a História

Vejam esta segunda parte da matéria de Antonio Gonçalves Filho, publicada no jornal O Estado de São Paulo de hoje, no Caderno 2. O senhor caderno de Arte.

Antonio Gonçalves Filho - Enviado Especial / Paris - O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,quatro-mostras-em-paris-tracam-o-percurso-da-arte-moderna,802323,0.htm

Ele fala de Arte, mas também está falando da História da Europa, da boa História.

“Há uma correspondência curiosa entre o simbolismo de Munch - na realidade, um pré-expressionista - e as perturbadoras fotos de Diane Arbus. Ambos tentaram, cada um a seu modo, captar a complexidade de seus contemporâneos, atormentados eles mesmos pelo pesadelo da modernidade - o da angústia, da depressão e solidão. Predomina em Munch uma composição teatral, até mesmo porque sua obra dialoga com a dramaturgia de Ibsen (para quem desenhou cenários), como se vê na cena acima (na tela Sur la Table d'Opération, 1902-1903), em que o pintor se retrata sobre uma mesa de cirurgia, observado por dezenas de curiosos. Foi nesse mesmo ano, em Berlim, que Munch feriu-se num acidente com um revólver e começou a fotografar, aproveitando as deformações de sua Kodak de amador para acentuar o aspecto cênico desses retratos que tanta semelhança têm com os das frágeis criaturas fotografadas por Arbus (andróginos, artistas da noite, pessoas com perturbação mental). Tanto em Munch como em Arbus, no entanto, importa menos o cenário do que a presença física desses seres que a sociedade expurgou.

Numa outra direção moveu-se Picasso. A coleção Gertrud Stein comprova sua adesão voluntária ao mundo dos ricos que, de alguma forma, tinham certo poder sobre artistas que, como ele, buscavam a legitimação crítica desses expatriados americanos que, ao visitar o Salão de Outono, em 1905, descobriram a pintura de seu contemporâneo Matisse (com La Femme au Chapeau). Ele, Picasso e Cézanne formam o trio dos favoritos dos irmãos Stein. São, de fato, os principais autores dessa extraordinária coleção, formada na época em que Paris era a capital das artes e da vanguarda europeia, atraindo não só milionários como grandes escritores americanos (Hemingway e cia.).

O projeto ambicioso de reunir na mesma cidade onde foram comprados todos os quadros da família Stein exigiu anos de negociação. Hoje espalhadas pelos principais museus do mundo (inclusive o Masp, dono de um Toulouse-Lautrec emprestado para a mostra, Au Salon: le divan, 1893-1894), as obras da coleção constituem uma aula da evolução da pintura moderna, do pós-impressionista Gauguin (que Leo, o irmão da escritora Gertrud Stein, adorava) ao cubismo inicial de Picasso (fase que ele detestava). Esses nomes revelam igualmente o papel fundamental que tiveram mecenas esclarecidos no advento de movimentos importantes além do cubismo. A família Stein, que inicialmente se impressionou com as cores de fauvistas (Matisse e companhia), apoiaram os surrealistas de primeira hora (como André Masson e Man Ray).

Faltaram os expressionistas, mas isso se explica pela situação política. Com o avanço do nazi-fascismo na Europa, Gertrud Stein fechou o apartamento parisiense e só voltaria com o fim a guerra, em 1945. Quem quiser conhecer as obras-primas desse período deve visitar a exposição Expressionismus & Expressionismi. A França da vanguarda cubista passou à margem desse movimento de grupos como o Die Brücke (A Ponte) ou Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), o que faz da mostra passagem obrigatória para entender o que veio depois de Matisse, Picasso e Cézanne.

A exposição dos expressionistas alemães, com 150 obras de artistas como Kandinski, Emil Nolde, Ernst Kirchner, Max Pechstein, Auguste Macke e Erich Heckel, serve sobretudo para mostrar que não havia uma convergência de linguagens entre eles. Enquanto Macke é contemplativo e sinuoso, Kirchner opta por temas fortes (seus personagens são angustiados, como ele). Os artistas do Die Brücke (Erich Heckel, por exemplo), abusam das formas angulosas e cores saturadas, agressivas, para traduzir a aspereza da condição humana, enquanto os representantes do Der Blaue Reiter (Macke, Gabriele Münter) usam linhas curvas e cores etéreas. Em ambos os casos, porém, o resultado é um só: excepcional."

Quando for trabalhar em outras cidades, guarde um tempo para visitar os Museus e Salas de Concertos. Faz bem à vida e à alma!

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