segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fernanda Montenegro é o Novo

Viver sem tempos mortos

Neste sábado, dia 19, fomos assistir à apresentação de Fernanda Montenegro, “Viver sem tempos mortos”. O teatro estava lotado, gente de todos os tipos e idades. De repente apagam-se as luzes e aparece aquela senhora, sozinha, o maior silêncio. Fernanda e uma cadeira. As Fernandas são poderosas, não precisam nada mais do que uma cadeira, para dar o seu recado.

Durante uma hora o público ouve em silêncio, interrompido por uma ou outra tosse, mas todos parecem que estão rezando ou ouvindo uma lição de alguém muito especial. É a voz de uma senhora da idade de nossas mães, falando de sonhos, de liberdade sexual, da primeira relação sexual e dos conflitos sociais de uma época que ainda está presente. É a voz de Fernanda Montenegro.

Se o espetáculo dura somente uma hora, o pessoal poderia gravar em DVD e CD para ser vendido neste final de ano. A Globo, se for esperta, apresenta como “Programa Especial de Fim de Ano” e fatura na audiência. É um documentário muito bonito e sensível. Só quem vê pode ter idéia do que eu estou falando. Ao sair do teatro, parecia que eu estava ouvindo a voz de Elis Regina naquela música: “Como nossos pais.......”

Recuperei o texto que saiu no Estado de S. Paulo do dia 6 de outubro passado e aproveitei a maior parte dele. Vale a pena ler para complementar as informações.

“Passaram-se dois anos desde a estreia de Viver Sem Tempos Mortos, encenada no Rio e em São Paulo. "Não parece muito tempo, mas me sinto bem diferente: apanhei bastante", conta Fernanda Montenegro, voz embargada, lembrando do aumento no número de amigos queridos que se foram com a morte de Ítalo Rossi, em agosto. "Antes, foram o Fernando (Torres), Guarnieri e tantos outros."

A atriz, no entanto, firma-se no presente. Próxima dos 82 anos (completa no dia 16), Fernanda mantém uma agenda recheada de atividades: rodou um curta-metragem inspirado em A Falecida, de Nelson Rodrigues, prepara-se para embarcar na viagem de Ana Carolina e, no teatro, concentra-se nas palavras de Simone de Beauvoir.

"Li O Segundo Sexo, uma das grandes obras dela, quando estava com 19 anos e, desde então, descubro um novo detalhe a cada releitura", comenta. "Galina Ulanova, grande bailarina russa, decidiu, certa vez, que não mais faria nenhuma outra coreografia a não ser Romeu e Julieta. Durante 18 anos, ela só dançou essa peça e sempre percebia algo novo. Isso acontece comigo e com qualquer ator: ao entrar em cena, jamais somos o mesmo da noite anterior."

Quando inicia Viver Sem Tempos Mortos, Fernanda passa a limitar os movimentos para concentrar na fala a narração de uma série de reflexões sobre a vida e a obra de Simone de Beauvoir. "O que importa é a mensagem, não a atuação. Se eu dissesse qualquer uma das frases dela combinando com um acender de cigarro ou um andar pela sala, muita coisa se perderia."

Assim, o espectador vai desfrutar do poder de uma atriz no pleno exercício de um atuação: vestida de forma discreta ("Assim como era Simone"), ela praticamente não se movimenta, modulando a voz para que as ideias de Simone se espalhem pela sala.

Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir dedicou-se sempre à leitura pois, desajeitada, não tinha sucesso com atividades esportivas. Estudou matemática e literatura até ingressar no curso de filosofia na Sorbonne. Lá, conheceu outros jovens intelectuais, como Maurice Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre. Em 1929, Simone tornou-se a mais jovem a obter o Agrégation na filosofia, e a nona mulher a obter este grau. No exame final, ficou em segundo lugar - Sartre, 24 anos, foi o primeiro (ele havia sido reprovado no seu primeiro exame).

Logo, Simone se uniu estreitamente ao filósofo e a seu grupo, criando uma relação aberta, a ponto de permitir compatibilizar liberdades individuais com vida em conjunto. Isso também influenciou sua obra - no primeiro romance, A Convidada (1943), explorou os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual.

Já os ensaios críticos de O Segundo Sexo (1949) trazem uma profunda análise sobre o papel das mulheres na sociedade. "A vida deles ainda é espantosa, especialmente porque ainda hoje se discutem os mesmos valores de homem e mulher", comenta Fernanda Montenegro. "Sem o trabalho de Simone e de Sartre, provavelmente não teria existido a contracultura ou até mesmo Woodstock. Talvez nem mesmo movimentos de recuo, como o surgimento dos yuppies nos anos 1980, homens tão fechados em si mesmos." / U.B. Estado de S. Paulo - Sexta, 06 de Outubro de 2011, - UBIRATAN BRASIL.”

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