quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Guerras religiosas e Primaveras

Dois mil anos de guerras, em nome de Deus

Já ouvi de várias pessoas que a situação no Egito, depois da vitoriosa campanha popular para derrubar o presidente Mubarak, está pior do que estava antes. Nesta matéria abaixo, o correspondente internacional do Estadão informa que quem está mandando no Egito são as Forças Armadas e o ministro do exército da era Mubarak. Isto é, mudaram os nomes, mas não mudou o regime. Agora estão matando cristãos egípcios!

Aprender a respeitar as minorias, em regimes democráticos, é a coisa mais difícil para a humanidade. Muçulmanos, judeus, católicos, evangélicos e protestantes precisam aprender a respeitar a pluralidade religiosa e garantir os Estados laicos, em vez de Estados religiosos e ortodoxos. Caso contrário as primaveras virarão “banhos de sangue”, como na Iugoslávia depois da morte de Tito. Está na hora de a ONU voltar a servir para alguma coisa...

“A ira dos cristãos coptas no Egito
13 de outubro de 2011 - GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo

O Egito enterra suas vítimas após os tumultos dos últimos dias, nos quais 26 manifestantes cristãos coptas foram mortos. Quem os matou? Para os coptas, a resposta é clara: o Exército abriu fogo contra manifestantes pacíficos que protestavam contra os incêndios de igrejas perpetrados por muçulmanos. Os militares teriam lançado carros blindados com metralhadoras sobre a multidão, o que explica o horror do espetáculo: corpos estraçalhados e crânios esmagados.

Essa ignomínia ocorreu alguns meses depois que o regime de Hosni Mubarak foi deposto e semanas antes que as eleições, previstas para 28 de novembro, criem uma Assembleia Legislativa. O derramamento de sangue é um mau augúrio para o futuro de um Egito, enfim, livre da ditadura.
É fato que, desde os tempos de Mubarak, os coptas estavam expostos a perseguições do regime e, às vezes, até a agressões toleradas de certos muçulmanos fanáticos. No entanto, o último massacre provou que a queda do ditador e sua substituição por "democratas" não desarmaram os atritos religiosos no país.

A continuidade da rejeição aos coptas coloca em questão a mudança ocorrida no Egito. Atualmente, o poder Executivo egípcio está nas mãos dos militares, mais exatamente do Conselho Supremo das Forças Armadas. No entanto, quem está à frente do Conselho? O ex-ministro da Defesa de Mubarak.

Nos últimos dias, uma informação percorria as ruas do Cairo. Os militares lançaram uma mensagem clara: se não aceitarem que o Conselho Supremo organize a transição, ele permanecerá no poder.
Isso significa que as eleições legislativas de novembro são incertas. Os generais que estão no poder enfrentam uma onda de greves que paralisa a economia já extenuada. Os antigos membros do partido de Mubarak partem para o ataque: ameaçam semear o caos se forem excluídos da eleição, como a oposição democrática exige.

Os liberais desejam uma transferência rápida do poder para os civis. E há os islâmicos radicais. Não nos esqueçamos que o islamismo fundamentalista mundial tem origem no Egito, na Irmandade Muçulmana, que já pregava no país mesmo antes da 2.ª Guerra. Eles continuam presentes, são numerosos, organizados e poderosos, apesar das garantias de que "evoluíram" e adoram a democracia.
Esse é o jogo confuso no qual os coptas desempenham também seu papel sacrificial e infeliz. Eles constituem uma minoria cristã no meio de muçulmanos, mas não são negligenciáveis.

Os coptas são parte da maior igreja cristã do Oriente Médio, abrangendo 10% dos egípcios. A maioria dos coptas (90%) é de rito ortodoxo. Eles já estavam ali na aurora do cristianismo, quando o Egito ainda fazia parte do Império Romano. “

/ Tradução de Celso Paciornik

Nenhum comentário:

Postar um comentário